CARTA DO RIO – 118 por Rachel Gutiérrez

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Medida provisória sobre reforma do ensino médio chega ao Congresso e logo provoca várias polêmicas. As disciplinas obrigatórias passam a ser apenas 3:   Português, Inglês e Matemática. Consideradas “temas transversais”, Filosofia e Sociologia dependem, para serem incluídas nos currículos “de aprovação do Conselho de Educação e de homologação pelo Ministro da Educação.”

Fico triste porque considero o estudo da Filosofia, ou ao menos o da sua História, fundamental na formação de qualquer estudante. Artes e Educação Física, que “integram obrigatoriamente os currículos do ensino infantil e do ensino fundamental” foram consideradas opcionais no ensino médio, mas após críticas e protestos, voltaram a ser consideradas obrigatórias.  “A medida provisória estabelece ainda que o currículo do ensino médio é composto (…) por ‘itinerários formativos específicos, a serem definidos pelos sistemas de ensino’, com ênfase em linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. Os sistemas de ensino poderão compor seus currículos com base em mais de uma dessas áreas.” A discussão vai continuar e é provável que antes de 2017, nenhuma decisão se torne definitiva.

Mas há algo que me inquieta e desanima: o fato de não se discutir a necessidade da leitura, ou a criação de métodos para estimulá-la nesta era da internet e das redes sociais, era de tantas distrações com games e sofisticados tabletes e/ou celulares.a-leitura-1890-renoir

E me pergunto o que deveríamos fazer, nós, os mais velhos, para que os jovens não perdessem a oportunidade de descobrir o mundo fantástico da literatura, da poesia, da cultura e das artes. Para que compreendessem que a leitura não apenas enriquece o nosso vocabulário, mas também nos ensina a escrever melhor, a falar melhor, – e a cultivar a memória! – além de nos revelar inumeráveis visões de mundo, incontáveis e diferentes formas de viver e de sentir, personagens inesquecíveis e histórias exemplares.  Ler nos faz crescer e amadurecer. Afinal, de que falam os livros? Da vida, de todas as aventuras e peripécias, de todas as glórias e tragédias da nossa história. A literatura e as artes nos mostram, como diz Jorge Luis Borges, a nossa própria cara.  Enriquecem e transformam o nosso modo de ser, de sentir e de compreender o mundo.  E passam a fazer parte de nós.

Quando falamos que alguém é quixotesco, por exemplo,  não lembramos que o personagem de D. Quixote, que deu à luz o adjetivo, foi criado no século XVII, por Miguel de Cervantes, o espanhol genial considerado criador do romance moderno; se qualificamos como dantesco o inferno vivido pelo povo da Síria é porque já está incorporada à nossa linguagem a concepção do Inferno de Dante Alighieri, o sumo poeta da Itália do século XIV.  A literatura impregna a cultura e a reflete.

Ao lermos, participamos do que lemos, completamos o que o escritor escreveu com a nossa imaginação. Quem pode deixar de imaginar o mistério dos incomparáveis “olhos de ressaca” da Capitu, de Machado de Assis? E quem leu “O lírio do vale” ( Le lys dans la valée) de Balzac , certamente foi capaz de pintar um retrato da condessa de Mortsauf “possuidora de todas as virtudes”, no esplendor de sua delicada e trágica beleza. Contou-me um amigo que ouvira, em criança, numa viagem de navio, a conversa de duas babás francesas, no convés. E uma delas dizia: – Se você não leu “O lírio do vale”, você não leu nada!

Aliás, a virtuosa condessa de Mortsauf teve uma comovente precursora na personagem da “Princesa de Clèves”, do famoso romance de Madame de La-Fayette, do século XVII. Como dizia outra amiga: os livros conversam com os livros. Já lembrei aqui que a personagem principal e parte da trama do romance de Daphne Du Maurier, Rebecca, a mulher inesquecível foram inspiradas na Jane Eyre, de Charlotte Bronte.  E quem leu “O morro dos ventos uivantes”, da irmã de Charlotte, Emily Bronte, ao ouvir a palavra charneca, há de sempre evocar a paisagem daquela planície árida e selvagem como o amor juvenil de Cathy e Heathcliff.

Ler e gostar de ler precisa começar cedo. Clarice Lispector escreveu um  conto (que dá nome a uma de suas coletâneas) sobre uma menina má que fez uma outra esperar dias e dias por um livro que prometera emprestar, (história que reproduzo na minha peça PALAVA DE MULHER) mas sempre dava uma desculpa e não emprestava, deixando-a com água na boca. E fez isso o quanto pôde, só de maldade, até que a mãe dela descobriu tudo e a obrigou a entregar o livro, dizendo para a pobre menina enganada: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” O título do conto (e do livro) é Felicidade clandestina. E termina assim:

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia, Como demorei! Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Acredito que reforma alguma do ensino médio será realmente transformadora se não for capaz de estimular nos estudantes o gosto pela leitura, pela cultura e pelas artes.

 

2 Comments

  1. Como faz bem ouvir mais uma voz, lúcida e pertinente, como a da cronista Rachel Gutiérrez que, com razão, fica triste, como nós, por saber da retirada da disciplina de Filosofia do currículo escolar do Ensino Médio.

  2. A defesa da Filosofia como matéria importante para a formação dos estudantes feita aqui, acrescida da necessidade do exercício da leitura no currículo escolar deve ser amplamente debatida para a conclusão da reforma do Ensino Médio. O encontro da criança com o mundo mágico dos livros é uma experiência que marca e se manifesta ao longo de uma vida.

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