A GALIZA COMO TAREFA – central, mas de fora – Ernesto V. Souza

Não tanto, nem tão seguidamente como nos últimos tempos, a notícia da Galiza como possível integrante da CPLP pairara pelas páginas dos principais jornais de Portugal. Até o ponto que poderíamos dizer que “a Galiza? sim”, ou “a Galiza não!”, ou mesmo o “a Galiza sim, mas não deste jeito” ou “não, hoje, amanhã talvez” ou “a Galiza, uff… apenas para a mesa”, começa a fazer parte, de algum debate periférico, onde a língua e o Acordo Ortográfico estão envolvidos, no seio da intelectualidade Portuguesa.

Mas sejamos objetivos, nestes assuntos, como em todos os princípios de debates, ou nos re-começos, existe uma boa dose de prevenção e outra tanta de desconhecimento. Os galegos já os conhecemos, mas sempre “será bom que os portugueses meditem sobre os sérios problemas que apenas esboçamos”.

Nesse sentido chamou poderosamente a minha atenção o artigo publicado em 23 de setembro, em opinião, no diário Público da autoria de Nuno Pacheco; nele, após uma subgerente apresentação desta “questão galega” última com a CPLP, afirma:

Mesmo assim, resta a questão da língua, outra discussão antiga. Embora foneticamente e graficamente seja muito próxima do português de Portugal (e nela nos irmanamos), a língua galega orgulha-se, com razão, da sua identidade. Mas há quem pretenda, vejam só, a aplicação na Galiza do acordo ortográfico de 1990 (aliás, o “grupo excursionista” dos arautos do AO costuma ter uma participação galega), a pretexto de que ali se fala português. Isto tem oposto acerrimamente defensores do Português e do Galego, sem grande proveito. Se alinharmos várias palavras da Língua Galega veremos que, para passarem a Português, basta mudar uma ou duas letras. Por exemplo: imaxes, proxectos, xeración, xeografías, paisaxe, xénese, subxectividade, estratéxico, misóxino, simboloxía, xa, paxariño (onde o x substitui o g ou o j). Mas há diferenças mais acentuadas, como moi por muito ou unha por uma. Apesar disso, o fantasma da uniformização gráfica paira sobre a Galiza, e isso só pode entristecer quem a preza. Imaginam a língua de Castelao ou Rosalía aplainada?

Interessante apontamento, que destaca as perplexidades e certos maus-entendidos vigentes dos que falávamos. Acho que ninguém – e menos numa Galiza que tem ambos autores por verdadeiros heróis – quer ver a língua de Castelao nem a de Rosalia de Castro aplainada pelo fantasma da uniformização gráfica.

Cumpre talvez saber aos leitores que Rosalia de Castro, morta em 1885, escreveu sim em galego, mas não exatamente “nesse galego” de unhas e nem sempre de moitos, pela curiosa e cronológica razão de ter começado a escrever sem uma tradição de escrita anterior consolidada, apenas com alguma prévia e contemporânea (pouco impressa); mas também não seguindo à “castelhanizante” e posterior Gramática de Saco y Arce (1868). Por isso, e por ter publicados os seus principais livros antes também, em vida (que os de depois de morta foram constantemente uniformados seguindo as modas de cada momento) do triunfo das teses de escrita “popularistas” e dependentes do processo de alfabetização e culturização em castelhano, que se promoveu na Restauración bourbónico-canovista e que teve o seu apogeu de 1885 a 1895. A obra original dela, que pode ser consultada nas “fontes originais” apresenta um conjunto de soluções divergentes. O mesmo acontece com a obra dos principais escritores galegos que se reivindicam como “autores cultos”, e que escreveram antes da década de 1880.

Romero Ortiz, Joan Manuel Pintos, Alberto Camino, Cuveiro Piñol, os irmãos La Iglesia, Marcial Valladares, Eduardo Pondal e especialmente os seus fundamentais discípulos na “Escola da Cruña” ou da “Cova céltica” foram muito críticos com a vulgarização das escolhas léxicas e com a propositada separação nas morfológicas do tronco português e nomeadamente com a decadência, simplificação e castelhanização de uma ortografia que abandonava a tradição antiga de “j” e “g” que ainda os sapientíssimos Padres Sarmiento e Feijó, com o resto de escritores anteriores ao Rexurdimento empregaram.

A justificação última destas simplificações escritas (e doutras escolhas propositadamente afastadas do português) e divergências, tanto pelo ilustre Padre Saco e Arce reforçadas após a polêmica nos anos 90 de há dous séculos, como nas escolhas institucionalistas nos anos 80 do século anterior sempre foi a mesma: por não desaproveitar nem interferir com a alfabetização da gente aprendida na ortografia do castelhano.

Este debate de alguma virulência, entre “etimologistas” (ou “eruditos” ou “portuguesistas”) e “popularistas” (ou castelhanistas, isolacionistas ou “enxebristas”) prolongou-se nas polêmicas da imprensa da década de 1880-1900 e na literatura e escrita galega, apagando-se progressivamente com o trunfo dos “xiistas” (apoiados em parte pelas autoridades) por sobre os “geistas” e com a decadência da literatura e imprensa por volta do 1900; até que o debate reviveu com as teses ortográficas de Johan Vicente Viqueira, nos anos 20 do século XX, e não deixou de estar presente.

Muitos dos autores galegos, daqueles anos primeiros do século XX tanto por falta de interesse polêmico – num momento de apelos à unidade -, quanto por puro pragmatismo e falta de formação, entre eles o grande Castelao, aceitaram o uso da ortografia popularista, porém, na teoria sempre defenderam a necessidade de uma reforma ortográfica profunda dentro da natural aproximação cultural a Portugal e ao mundo da língua Portuguesa.

Desde os anos 80 do século XX, com a expansão da língua galega escrita pelo mundo editorial e especialmente por causa da sua incorporação, primeiro como matéria específica, depois como uma alternativa veicular, ao sistema educativo oficial, novamente a questão ortográfica volveu à primeira plana dos debates. Com decidido apoio institucional reafirmou-se, não a escolha mais próxima do modelo português, quanto aquela linha pragmática de não interferir com a ortografia do castelhano maciçamente divulgada já por gerações no ensino.

A questão é que resulta difícil aplainar mais o que já foi tantas vezes aplainado. Ora, é talvez mais que possível que um achegamento ao português, prévia decapagem da basta pintura castelhanista que muita gente acha ser o verdadeiro e ricamente variado galego, restaure algumas formas originais e possibilite umas mais belas arquiteturas já plenamente modernas e enriqueça com isto o sentido da variação na língua galega. De qualquer jeito, é importante destacar que, daquela e no hoje, na Galiza, “a questão da ortografia nacional ainda não foi definitivamente resolvida”.

E por mais ilustrar na despedida, Anton Vilar Ponte, uma das principais figuras do galeguismo e o iniciador do movimento das Irmandades da Fala, (das que este ano Galiza celebra o centenário), chegou nos anos 30 do século XX não apenas a reclamar como outros muitos “excursionistas” depois a unificação de Galego e Português quanto a intuir o ideal de um grande Acordo ortográfico. Para monstra esta entrevista ao autor publicada no Diário de Lisboa, em 10 de julho de 1933 e uma nota no dia a seguir no Diário da Noite.avp1

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2 Comments

  1. A dignidade e cultura elevadíssimas do Vilar Pontes resgata-nos, ainda hoje. Obrigadíssimo Ernesto pela explicação dessapaixoada da nossa questione della llingua, para consumo interno e externo. E obrigado também pelo resgate dessa entrevista.

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