CONTOS & CRÓNICAS – KUNDERA QUE NÃO FOSSE ASSIM, por Marcos Cruz

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Kundera que não fosse assim

Faz quase meio século que Noam Chomsky e Michel Foucault se reuniram na Universidade de Amesterdão para um debate histórico sobre a …natureza humana. Tive a sorte de lá estar e lembro-me bem de já então ter achado Foucault extremamente parecido com o José Wallenstein de “A Única Mulher”, novela da TVI. Hoje, revendo o encontro no Youtube, senti uma certa nostalgia de quando também se dava cobertura mediática ao exercício do pensamento, encarado como uma faculdade humana produtora de riqueza. Claro que cada um dos filósofos foi ali defender as suas ideias – mais simétricas do que opostas, um pouco como se ambos lavassem a mesma janela de um prédio, um por fora e outro por dentro – e as esgrimiu com a faísca dos génios, mas custa-me a crer que algum deles sobrepusesse o valor de uma vitória pessoal ao de um pequeno passo para a evolução do conhecimento. A plateia estava cheia de académicos, tudo muito formal. Gajos a fazer cara de inteligente, uma profusão de barbas e óculos de massa (preta, mas pretendendo-se cinzenta), dedos em esquadro a apoiar os queixos – enfim, uma delícia “vintage”. Chamou-me a atenção, em particular, um tipo que parecia explicar à vizinha do lado, dona dum valente par de mamas, o que dizia Foucault. Seria um bom início para um romance do Kundera, caso ele não tivesse pendurado as botas. Mas já me estou a desviar: a questão é que, independentemente de toda a pomposidade em torno do debate, ele aconteceu e foi transmitido pela televisão holandesa. Fazendo agora um “fast forward” até à actualidade, o que vemos é um panorama mediático onde o tempo de antena para a discussão de ideias se tornou praticamente exclusivo de quem as usa não pelo seu valor intrínseco, mas acima de tudo em defesa de uma agenda própria, seja ela partidária, empresarial ou de outra ordem. O mundo não rejeitou a noção de que “saber é poder”, longe disso. O que houve foi uma alteração no modo como os dois predicados se vinculam. O poder passou a estar a montante do saber, que entra em campo para o servir. Debater sem perseguir com isso um resultado concreto é hoje, na perspectiva dos senhores da informação, um lirismo atávico, um romantismo desprezível, uma absoluta perda de tempo. E, contudo, para mim é cada vez mais uma coisa preciosa.

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