HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – VIII

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

PARTE VI: Dos tempos de Brüning aos tempos da Troika – I

As analogias são espantosas entre a austeridade praticada por Brüning e a imposta por Bruxelas sob a cobertura da sigla Troika. Por contraponto à austeridade de então, publicamos o texto de Lautenbach. Por contraponto à situação de agora, e por ter paralelo à do autor alemão, iremos publicar o texto de Michael Pettis, intitulado Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção.

Uma vez que na primeira parte se analisou a situação alemã, passemos agora a analisar um outro grande país no contexto europeu, a França e no contexto da Troika. Para o efeito, utilizamos um texto de Jean-François Bouchard no livro O banqueiro do Diabo no capítulo intitulado 1932-2015, de Heinrich Brüning a François Hollande: à procura da clarividência que adaptaremos ao nosso objetivo, uma vez que estamos interessados em Lautenbach enquanto o autor está interessado no banqueiro Slchacht, e apresentaremos no final um texto de Michael Pettis que consideramos equivalente ao de Lautenbach sobre o crédito a partir do nada. Um texto que reputamos de fundamental hoje, tal como o de Lautenbach, com a diferença que em termos de escrita o texto de Michael Pettis está mais perto do discurso de que ouvimos falar hoje nos meios cientificamente sérios.

Como é que se pode não ficar espantado pela similitude da situação política e económica da Alemanha de 1932, exatamente antes da chegada de Hitler ao poder, e o estado em que se encontram atualmente diversos países europeus, entre os quais particularmente a França.

Em 1932, a Alemanha estava mergulhada numa crise económica mundial sem precedentes, que se desencadeou alguns anos antes a partir dos Estados Unidos. A Alemanha tinha cerca de 6 milhões e meio de desempregados. Era dirigida por um chanceler, Heinrich Brüning, cuja popularidade se tinha afundado a um nível historicamente baixo; mais ninguém ou quase lhe conferia a mínima confiança, mesmo os seus próprios partidários. Um homem honesto, que se considerava um especialista em economia e que mostrou claramente não ter nenhuma clarividência nos seus diagnósticos e nas suas opções de política económica. De facto, enquanto o país estava afundado numa espiral recessiva de extrema violência, o chanceler coloca o país na via de um rigor implacável. O objetivo que procurava alcançar sob a pressão dos outros países europeus, e ao qual sacrificou o povo alemão, era a redução do défice público e o saneamento das contas públicas. Alcunhado de Chanceler da Fome tanto laminou as classes médias que foi demitido do cargo antes do fim do seu mandato. O desespero que semeou no seu povo deu origem a uma subida imparável dos partidos extremistas de direita, que rapidamente tomaram de assalto o poder.

Por seu lado, em 2015, a França está mergulhada numa crise económica mundial sem precedentes a partir de uma crise que se desencadeou anos antes nos Estados Unidos. O país tem mais de 3 milhões e meio de desempregados. A França é dirigida por um presidente cuja popularidade se afundou para um nível historicamente baixo. Praticamente ninguém lhe atribui alguma confiança. Homem que se pode considerar honesto, e que se apresenta como um especialista em economia, tem mostrado uma profunda falta de clarividência nas suas opções e nas suas análises de política económica. Com efeito, com o país à beira de uma recessão que prenuncia alguma violência, o presidente empenha-se numa política deflacionista de um rigor implacável. O objetivo prioritário que ele prossegue, sob a pressão do país dominante na Europa, a Alemanha, e ao qual sacrifica o seu povo, é a redução do défice público e o saneamento das contas públicas. Alcunhado pelos membros do seu gabinete de Pépère (avô) pela sua falta de autoridade, as suas hesitações são sempre o prato do dia, mas volta sempre às mesmas e velhas receitas: laminar as classes médias, já arrasadas de impostos, e evitar aplicar a mínima reforma de fundo para não incomodar ninguém. Contudo, o desespero que tem criado no seu povo tem provocado uma imparável subida do partido de extrema-direita, que sob a sua Presidência se tornou a principal força política do país, tal como o partido nazi na Alemanha em 1933.

As comparações históricas têm os seus limites mas a comparação entre Brüning e Hollande é rica em ensinamentos. Primeiramente, Brüning era um fraco, o que o desacreditou rapidamente junto da população alemã. Porém, este homem era um fraco de duas faces. De um lado, no plano económico ele era dogmático até ao absurdo. Como um pássaro encostado ao casco de um navio perdido, Brüning era incapaz de se distanciar da mínima ortodoxia económica ao ponto de conduzir o seu país para uma brutal recessão. Do outro lado, com os movimentos de extrema-direita, e em especial com o partido nazi, nunca soube como reagir e quando o fez era já muito tarde.

Em França, o descrédito de Hollande é de uma outra ordem. A diferença entre o seu exercício da função presidencial e os valores de que se fez arauto aquando da campanha eleitoral é enorme. Por exemplo, o seu célebre discurso de Bourget, no qual estigmatizava fortemente a finança como sendo o seu grande inimigo, e a sua prática que se traduz numa submissão sem falhas à dita finança que ele criticava. O descrédito de Hollande é também imputável à sua promessa de separar vida privada e vida pública. Criticava fortemente o presidente anterior contra quem concorreu nas eleições, o que o ajudou a ganhá-las, mas nunca um presidente, depois do lamentável Félix Faure que morreu nos braços de uma semi-mundana, nunca a vida privada de um presidente francês encheu tanto os jornais people das gares de comboios! Ao menos o digno Henrich Brüning, o celibatário austero e católico de ética pessoal intransigente, nunca caiu a este nível de irracionalidade que provoca por vezes o exercício do poder nos espíritos fracos.

Em contrapartida, o chanceler alemão e o presidente francês em matéria económica têm dois pontos em comum: a falta de clarividência económica e a sua fraqueza face às pressões externas.

Analisar o estado da economia não é certamente coisa fácil: é necessário fazer prova de prudência neste exercício. Brüning tinha errado sobre as soluções adotadas, insistindo sempre na sua visão deflacionista quando era necessário o inverso; o presidente francês engana-se sempre nas suas constatações. Anuncia como coisa certa a redução do desemprego em 2013 quando não havia nenhum sinal de otimismo sobre esta matéria, o que de resto foi confirmado pelo aumento dos batalhões de desempregados; ou ainda felicitar-se em julho de 2014 pelo crescimento que teria enfim regressado a França. Quando uns dias mais tarde o INSEE anuncia exatamente o contrário.

A credibilidade também se ganha por uma outra via, a da resistência às pressões externas. Aqui também Brüning e Hollande estão em situação de igualdade. Brüning não soube resistir aos Aliados que queriam forçar a Alemanha a respeitar certas cláusulas do plano Young que tinha reestruturado a dívida alemã e o reembolso das reparações de guerra. Ora, estas cláusulas eram completamente insuportáveis para a economia alemã, fazendo-a mergulhar numa profunda espiral recessiva. O presidente francês, por seu lado, não é capaz de resistir às injunções da Alemanha da senhora Merkel, via uma Comissão Europeia às suas ordens, e para quem o saneamento das contas públicas é a prioridade número um. Para a senhora Merkel, o dogma do equilíbrio das contas públicas não pode ser transgredido mesmo quando a taxa de desemprego ultrapassa e bem o valor de 12% em França ou se situa na vizinhança dos 25%, como na Grécia ou em Espanha.

E o sistema está completamente disfuncional como no tempo de Lautenbach, com desemprego em massa e salários em baixa e mesmo assim não há nenhum país a pensar em aproveitar-se desta situação histórica em termos salariais para lançar um vasto plano de investimento ou mesmo relançar a economia e por essa via procurar reduzir o desemprego. Como no tempo de Lautenbach, em que o capitalismo não sabia bem o que havia de fazer em termos de produção. Nenhum país e muito menos o presidente francês, sempre fiel às instruções alemães, o tentou fazer. Porque a política alemã, e por consequência, a das autoridades políticas, económicas e monetárias europeias, permanece profundamente marcada pelo espectro da hiperinflação alemã dos anos de 1920, a quem imputam a responsabilidade da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial.

Mas há aqui dois graves erros de análise. O primeiro erro é de origem histórica. Muito mais que o traumatismo da hiperinflação foi o disparar do desemprego na Alemanha entre os anos de 1930 e de 1933 que deve ser responsabilizado pela ascensão do nazismo[1]. Olhemos para os seguintes gráficos e a conclusão do que afirmamos é imediata:

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 Resultados do partido nazi nas eleições legislativas

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O desemprego e os partidos extremistas

Como bem assinala Lautenbach, num tal contexto, há um excesso de “capacidade produtiva inutilizada” e de força de trabalho não empregada cuja utilização produtiva é a “verdadeira tarefa e a mais urgente da política económica”, o que é traduzido inclusivamente em enormes volumes de inventários. O texto de Lautenbach é lapidar na demonstração do erro que significa a política de austeridade aplicada por Brünning e a sua proposta de resposta à crise é de uma tal simplicidade que custa a entender como é que ninguém a quer entender. Talvez só por intencionalidade é que não a querem perceber. O mesmo se passa com outro erro monstruoso: como é que se quer corrigir a situação macroeconómica dos países com mais fragilidades da zona euro com políticas de austeridade e com uma suposta dinâmica de crescimento pelas exportações quando os seus principais parceiros praticam também eles políticas de austeridade e têm e mantêm balanças correntes excedentárias, como a Alemanha. A quadratura do círculo, pura e simplesmente isso. Ao impor uma política deflacionista à Europa, a senhora Merkel prossegue um fim bem preciso. Para ela, a crise económica é uma crise das finanças públicas. Em consequência, o equilíbrio das contas públicas deve ser restabelecido tão breve quanto for possível.

(continua)

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[1] Isto justifica por si só a importância que deve ser atribuída ao plano Lautenbach e ao erro do SPD de então, importância que levou agora à sua divulgação no blog A Viagem dos Argonautas.

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