EDITORIAL – Os anos de chumbo

Imagem2Passaram anteontem, dia 12 de Outubro de 2016, 50 anos que os mandatos dos deputados da oposição à ditadura militar instaurada em 25  Agosto de 1964, foram cassados. O simulacro de regime democrático tirou a máscara – assumia-se agora que o país entrava na «idade do chumbo», embora a fase mais dura tenha começado em 1968.

 Atribuímos uma grande importância à história recente do Brasil. É um país a que estamos ligados por laços indissolúveis e onde o nosso blogue tem um número relativamente elevado de leituras e a que poderíamos chamar o nosso «segundo mercado», embora o Estado espanhol e os Estados Unidos, ocupem por vezes esse segundo lugar. Gostaríamos que os nossos colaboradores brasileiros comentassem a situação grave que a sua grande Nação atravessa.

Aliás, é uma crise endémica, gerada antes da independência e que afectou todas as colónias dos estados europeus que transferiam para o Novo Mundo as disfunções económicas, políticas e sociais do seu velho mundo. Percorrido meio-século após o período a que é uso chamar os «anos de chumbo», entendemos existir um distanciamento temporal que permita analisar com alguma objectividade esse período histórico.

Os Estados Unidos tiveram talvez a pior confrontação de classes, de nacionalidades oprimidas, de níveis culturais que afectavam a Grã-Bretanha. Um Sul britânico, aristocrático, enfrentou o espírito das classes baixas, brutal, das alfurjas das grandes metrópoles. O Norte «anti-esclavagista», desenvolveu uma forma de escravatura mais cruel, posta ao serviço de um desenvolvimento industrial e criando magnates com massa humana que a sociedade britânica teria marginalizado.

Nas colónias espanholas, o choque não foi pequeno, embora o catolicismo reinante e a matriz social levada da Europa amenizasse o impacto. Em todo o caso, a construção do México não possa, de algum modo, ser considerado um processo harmonioso… Apesar de tudo, o Brasil, após a declaração da independência- com um ou outro incidente ou anseio independendentista, como foi o caso do Rio Grande do Sul, logrou manter a integridade territorial e uma certa harmonia, uma maneira irónica de encarar a vida que atravessou transversalmente o tecido social e que minorou, relativamente o impacto da luta de classes.

Tempos atrás publicámos uma série de artigos de análise politica que cobria o período desde o getulismo até à chamada «redemocratização». São textos escritos em intenção de portugueses, angolanos, moçambicanos, pois embora, tendo muito gosto em que os brasileiros nos leiam, é sobretudo aos outros leitores de língua portuguesa que dirigimos estas reflexões – os brasileiros, de uma forma geral, saberão tudo isto muito melhor do que todos os outros e se discordarem das nossas análises muito agradecemos que usem o espaço reservado aos comentários.

1 Comment

  1. Não deviam esquecer que o Brasil foi o único Estrado do Continente americano em que, durante vinte e um anos, permaneceu uma Corte europeia cuja riqueza, na época e no mundo, não teria par. Não hesito em considerar que esse notável condicionalismo histórico ditou particularidades invejáveis que nenhum outro Estado americano vislumbrou possuir. Deslocar a Corte para o Brasil, já projectada – e muito bem – quando da Guerra das Laranjas é uma das páginas mais notáveis da manobra estratégica politica portuguesa.CLV

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