A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 3. FLUXOS DE FUNDOS E SALDOS SECTORIAIS – II

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Fluxos de fundos e saldos sectoriais

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Bill Mitchell, Flow-of-funds and sectoral balances

Billy Blog, 24 de Novembro de 2015

(continuação)

A abordagem dos saldos por sector

A perspetiva setorial dos equilíbrios das contas nacionais também apresenta as utilizações e as fontes de rendimento nacional em conjunto.

A regra mais elementar da macroeconomia é que a despesa feita por uma pessoa é o rendimento obtido por outra pessoa. A nível setorial mantém-se a mesma regra . Uma outra maneira de explicitar esta regra é que a utilização do rendimento por uma qualquer pessoa se torna imediatamente numa fonte de rendimento para uma outra pessoa ou pessoas. E é também assim a nível sectorial.

As contas nacionais dividiram a economia nacional em diferentes categorias da despesa – consumo por pessoas/agregados famílias; investimento pelas empresas privadas; despesas públicas (governo); exportações e importações fornecidas pelo sector externo ( necessariamente do exterior ) do setor estrangeiro.

O Serviço australiano de publicação das Estatísticas – Australian System of National Accounts: Concepts, Sources and Methods, 2014 – fornece uma fonte excelente para se compreender os conceitos de base que são usadas para estabelecer a estrutura setorial dos saldos.

Desta estrutura, os economistas derivam então o que é chamado o modelo básico de rendimento-despesa em macroeconomia para explicar a teoria da determinação do rendimento que forma o núcleo da chamada abordagem keynesiana.

O modelo de rendimento-despesa é uma combinação de identidades da contabilidade estabelecidas a partir da estrutura da contabilidade nacional e das teorias de comportamento quanto à evolução dos fluxos da despesa por agregados familiares, por empresas, por governos e pelos estrangeiros e quanto à forma como se interligam para se gerarem vendas, o que, por sua vez, estimula a produção, o emprego e a criação de rendimento.

Recordemos, um fluxo da despesa é medido como sendo uma determinada quantidade de dólares que é gasta por unidade de tempo. Assim, por exemplo, no terceiro trimestre de 2015, o Serviço de Estatística australiano calculou que o consumo dos agregados familiares na Austrália foi de $220, 913 mil milhões em termos reais, ajustados sazonalmente.

Inversamente, um stock é medido num qualquer ponto do tempo e é o produto de fluxos anteriores relevantes para o referido campo de análise Por exemplo, o Serviço de Estatística australiano calculou que o emprego total na Austrália em Outubro de 2015 era de 11, 838,2 milhões. Os fluxos que geraram este stock de emprego foram todos os movimentos dos trabalhadores entre as diferentes categorias da população ativa: empregados, desempregados e não tem nada a ver com a variação da população ativa.

Dizemos que estamos perante um fluxo, por exemplo, como estar a representar a medida da quantidade de litros de água que corre por segundo de um reservatório ou de uma torneira (por exemplo) enquanto um stock é a medida do nível de água contida no reservatório e medido em dado momento do tempo.

Assim a forma como a MMT utiliza a abordagem setorial dos equilíbrios tem que ser compreendida não somente em termos da estrutura de contabilidade em que assenta os fluxos de fundos mas igualmente em termos das conjeturas teóricas quanto à ligação existente entre as variáveis no quadro da determinação das posições financeiras líquidas e fornece alguma orientação sobre a forma em que as posições financeiras se ajustam uma vez que a situação seja perturbada por fatores externos.

Os aspectos da contabilidade que estão na base do modelo de rendimento-despesa expressam os diferentes modos de pensar sobre as contas nacionais.

Primeiramente, nós podemos medir as fontes de despesa que fluem na economia durante um período dado. Os economistas usam a expressão bem simples:

(2) PIB ≡ C + I + G + (X – M)

E esta expressão diz-nos que o rendimento nacional ( PIB) é a soma da despesa final total do consumo dos agregados familiares (C), o investimento privado total que inclui a acumulação de inventários (I), as despesas públicas totais (G) e as exportações líquidas (X – M).

Note o uso do símbolo matemático ≡ que denota uma Identidade[1] e esta é verdadeira por definição e “a equivalência… não depende dos valores particulares das respetivas variáveis”.

Nós substituimo-la frequentemente por um sinal de igual (=) mas todos sabemos sempre que esta identidade das contas nacionais é uma norma contabilística que deve ser sempre verdadeira.

Assim, tal como acabamos de expor, a identidade da contabilidade nacional não é uma teoria. Nós voltaremos posteriormente a esta questão.

Introduzir uma conjetura teórica permite-nos introduzir a causalidade e desenvolvermos então uma explicação de como é que a despesa leva à criação do rendimento. O papel fundamental desempenhado pelo princípio da procura efetiva fornece-nos a relação causal entre a despesa e o rendimento.

Esta diz-nos que o rendimento total na economia por unidade de tempo considerado será exatamente igual à despesa total de todas as fontes de despesa mas diz-nos igualmente qual o processo envolvido que nos leva a alcançar esta igualdade.

Nós devemos igualmente reconhecer que os equilíbrios financeiros dos setores estão igualmente dependentes dos níveis dos impostos líquidos (T) aplicados pelo governo e aqui incluem-se todos os impostos e pagamentos de transferências e de juros (estes últimos não são contabilizados separadamente na expressão da despesa (2)).

Mais, como sublinhado acima, a balança comercial é somente um aspecto dos fluxos financeiros entre a economia interna e o setor externo. Nós devemos igualmente incluir: os fluxos de rendimentos externos líquidos (FNI- external income flows).

Adicionando os fluxos de rendimentos externos líquidos (FNI) à expressão (2) do produto interno bruto (PIB) obtemos então a expressão familiar do produto nacional bruto (PNB):

 (3) PNB = C + I + G + (X – M) + FNI

Chegados aqui, nós poderíamos passar a expressões bem mais complicadas e considerar por exemplo hipóteses como lucros não distribuídos pelas empresas e nestas retidos ou ainda considerar outras hipóteses mas aqui nós supomos que todo o rendimento gerado é na verdade entregue aos agregados familiares (depois de todas as distribuições feitas).

Para utilizar esta abordagem na forma dos saldos sectoriais nós subtraímos o total dos impostos e das transferências (T) de ambos os lados da expressão (3) e obtemos:

(4) PNB – T = C + I + G + (X – M) + FNI – T

Podemos agora juntar os termos e arrumá-los de forma a obter os três saldos sectoriais:

(5) (PNB – C – T) – I = (G – T) + (X – M + FNI)

Os termos na expressão (5) são agora relativamente fáceis de compreender. O termo (PNB – C – T) representa o rendimento nacional total menos a quantidade consumida menos o valor pago ao governo em termos de impostos (tem-se em conta as transferências no outro lado da igualdade).

Por outras palavras, esta diferença representa a poupança interna privada.

O lado esquerdo da equação (5), (PNB – C – T) – I, portanto, é a poupança global do sector privado do país, que é distinta da poupança total do agregado das famílias expressa esta última poupança pelo termo (PNB – C – T) .

Por outras palavras, o lado esquerdo da equação (5) é o equilíbrio financeiro privado do país e se for positivo, então o sector privado está a gastar menos do que o seu rendimento total e se for negativo o setor privado está a gastar mais do que o seu rendimento total.

O termo (G – T) é o saldo financeiro do governo e está em défice se a despesa pública (G) é maior do que a receita fiscal do governo (T), e está em excedente orçamental se o saldo é negativo.

Finalmente, o outro termo do lado direito (X – M + FNI) é a posição financeira externa do país , comumente conhecido como o saldo da balança corrente (CAD). É excedentária se o saldo é positivo e deficitária se for negativa.

Podemos pois dizer que:

O saldo financeiro privado é igual à soma do saldo financeiro do governo, mais o saldo da balança corrente.

Observe que, re-organizando a expressão (5) obtemos a familiar equação dos saldos sectoriais:

 (6) (S – I) – (G – T) – CAD = 0

Na sequência da nossa discussão anterior sobre a abordagem dos fluxos de-fundos que se tornou popular pelo trabalho dos Novos economistas de Cambridge, podemos re-escrever a expressão (6) da seguinte maneira:

(7) (S – I) = (G – T) + CAD

em que a nova abordagem dos economistas de Cambridge a interpreta no sentido de que os défices do sector público (G – T> 0) e os excedentes da balança corrente (CAD> 0) geram rendimento nacional e activos financeiros líquidos para o setor privado.

Por outro lado, os excedentes do governo (G – T <0) e os défices da balança corrente (CAD <0) reduzem o rendimento nacional e minam a capacidade do sector privado interno em adicionar ativos financeiros.

A expressão (7) pode também ser escrita como:

(8) [(S – I) – CAD] = (G – T)

onde o termo no lado esquerdo [(S – I) – CAD] é a posição financeira do setor não-governamental e é de valor igual e de sinal oposto ao da posição financeira do governo.

Esta é a indicação da MMT de que um défice do sector público (excedente) é igual dólar-para-dólar ao excedente do sector não-governamental (ou défice no caso contrário).

Em resumo, a nossa interpretação dos saldos financeiros é a seguinte:

  1. (S – I) é o saldo financeiro privado interno ou NAFA do setor privado. Se está numa situação de excedente, então esse setor está então a emprestar fundos aos outros setores. Se está numa situação de défice é então o setor privado que internamente está a contrair empréstimos junto dos outros setores ou então a reduzir a sua posição financeira líquida por outras vias ( tais como a liquidar a sua acumulação passada de riqueza).

  1. (G – T) é o saldo financeiro do setor público. Se está numa situação excedentária então o setor público está a gastar menos do que está a retirar em poder de compra à economia, via impostos e está assim a minar a capacidade dos dois outros setores acumularem ativos financeiros líquidos e vice-versa .

  2. O CAD é o saldo financeiro do setor externo. Se está numa situação de défice então a economia nacional está a contrair empréstimo no exterior ou então está a reduzir a sua posição financeira líquida e os estrangeiros estão a acumular activos financeiros sobre o país considerado e vice-versa.

Estas são relações contabilísticas. Assim, num certo sentido, a ideia de que os saldos setoriais são expressões contabilísticas é verdadeira. Mas naturalmente é também uma conclusão altamente limitada.

Chegados aqui , nós não sabemos nada sobre o estado da economia que estaria associada a estes saldos sectoriais , nem nós sabemos alguma coisa sobre o que era a situação económica do país em análise nem para onde esta poderia evoluir.

Mais ainda, nós não conhecemos o que motiva cada um dos saldos financeiros contabilisticamente verificados .

Neste momento, para dar sentido e força à análise precisamos de adicionar a estas relações a teoria económica. Como dissemos acima, uma vez introduzidas as conjeturas teóricas na estrutura de relações podemos a seguir começar a explorar a causalidade, os ajustamentos e compreender o estado da economia de forma mais efectiva, incluindo as opções da política que poderão levar a economia aonde nós queremos que esta se situe.

A dimensão teórica da estrutura dos saldos setoriais utiliza estas relações bem para além da contabilidade.

Assim o modelo de rendimento-despesa é uma estrutura teórica em que se pressupõe que as mudanças nestes saldos financeiros estão estreitamente ligadas e dependentes dos fluxos de rendimento nacional que, por sua vez, levam à mudança nos fluxos da despesa.

(continua)

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[1] Da Wikipédia: In mathematics an identity is an equality relation A = B, such that A and B contain some variables and A and B produce the same value as each other regardless of what values (usually numbers) are substituted for the variables. In other words, A = B is an identity if A and B define the same functions. This means that an identity is an equality between functions that are differently defined. For example, (a + b)2 = a2 + 2ab + b2 and cos2(x) + sin2(x) = 1 are identities. Identities are sometimes indicated by the triple bar symbol ≡ instead of =, the equals sign.[1]

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Ver o original em:

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Para ler a parte I de trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 3. FLUXOS DE FUNDOS E SALDOS SECTORIAIS – I

 

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