
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Algumas questões sobre a sustentabilidade da dívida

Bill Mitchell, Fiscal Sustainability
Modern Money Mechanics, 25 de Outubro de 2010
Cumprimentos desde Amsterdão onde eu estou a partir de agora a passar alguns dias e em que irei falar sobre mudanças espaciais do desemprego no grupo de trabalho no Instituto Tinbergen. O trabalho econométrico espacial que eu estou a esboçar para apresentar amanhã fornece a estrutura conceptual para a construção do The Employment Vulnerability Index, índice da vulnerabilidade do emprego, que recebeu a atenção de muita imprensa especializada no início do ano. Mas quando eu estava a vir para Amesterdão pensei sobre o conceito da sustentabilidade orçamental que está a centrar muita atenção na imprensa. Assim este é o primeiro texto de uma pequena série com várias partes sobre o que deve constituir uma política orçamental sustentável. E é outra vez oportuno que o faça. Tempo de nos interrogarmos, momento de interrogações!
A minha motivação para me concentrar sobre o tema da sustentabilidade orçamental – embora muitos dos meus textos falem deste tema de um modo ou de outro – surgiu-me por causa do National Journal que é um espaço de discussão onde os peritos são convidados a debater um assunto durante dias. O assunto atual como tema de debate é “o que é orçamentalmente — e politicamente — “sustentável”?” Enquanto o debate no local foi muito centrado nos Estados Unidos, os princípios básicos aplicam-se a todas as moedas soberanas – que é todo e qualquer o sistema monetário assente na emissão fiduciária- e por tudo isto vale a pena aí fazer uma leitura para se poderem considerar as opiniões que aí se estão a expressar. A única reserva que eu faria é que a maioria dos participante são tudo menos “peritos” neste campo e as suas posições valem o que valem….
Nas últimas semanas o conceito da sustentabilidade orçamental voltou outra vez a ocupar muito do debate económico enquanto os défices públicos aumentam em resposta ao aprofundar da crise económica real que se está também a alargar. Nos EUA, Ben Bernanke, o presidente do banco central, definiu o conceito da sustentabilidade orçamental como:
… como sendo o alcançar de um rácio estável da dívida pública e dos juros da dívida relativamente ao produto interno bruto e definindo as taxas de tributação em níveis que não impeçam o crescimento económico.
O National Journal, contudo, defende que “a sustentabilidade orçamental é igualmente um conceito político. Como é que a definiria? O que significa que o rendimento esperado dos impostos públicos deve ficar perto das normas históricas mesmo quando os programas governamentais carregam o enorme peso de uma sociedade envelhecida ? E o que é importa se se os custos sociais do envelhecimento estão a ter peso no orçamento público ou um peso suportado em termos privados pelas famílias ?”
Então, primeiramente pensei que deveríamos trabalhar sobretudo o conceito económico da sustentabilidade orçamental. O conceito político pode ser escorregadio e ideologicamente pesado … mas em termos económicos, quando aplicado a um sistema monetário de moeda fiduciária – existem alguns fundamentais que definem o que constitui a sustentabilidade orçamental e que, normalmente, são perdidos na histeria neoliberal. Na verdade, o debate público está repleto de declarações que confundem o político com o económico e tudo a tornar a última construção do conceito como algo sem sentido.
Às vezes, esta mistura é um dispositivo deliberado para deslocar o debate e permitir que o proponente de um determinado ponto de vista possa afastar uma outra linha de raciocínio de modo a não permitir uma plena compreensão dos conceitos económicos em discussão . Outras vezes e muito provavelmente, esta mistura é um reflexo de uma pura e simples ignorância.
Assim, o que é este conceito “de uma relação estável de dívida pública e do pagamento de juros relativamente ao PIB” quer dizer ? O que é ajustar as “taxas de impostos a níveis que não impedem o crescimento económico” e em quê é que isto entra aqui a explicar o quê? Pessoalmente sugiro aos leitores verem os meus textos – Size of deficit 101 e Gold standard and fixed exchange rates – myths that still prevail – que fornecem algumas das ferramentas básicas para esta discussão.
Em breve, veremos que os dois elementos da definição de Bernanke refletem o seu lapso de regresso ao raciocínio do padrão-ouro quando a moeda convertível e as taxas de câmbio fixas eram as características marcantes do sistema monetário de então Esses dias acabaram para a maioria das economias do mundo e cada um de nós simplesmente não pode continuar a aplicar o raciocínio que era relevante para o antigo sistema monetário, em que este colocava claramente restrições de “financiamento” ao governo nacional, ao actual sistema monetário de moeda fiduciária que se caracteriza por moedas não-convertíveis e por taxas de câmbio flexíveis.
Um dos defensores das teses do National Journal, Gene Steuerle, VP, Peter G. Peterson Foundation, que é um grupo da pressão que parece obcecado com os irrelevantes – défices e dívida. Se eu fosse o multimilionário que criou a fundação em 2008 doaria o dinheiro para a investigação médica na procura de uma cura para o cancro ou para o VIH. Estou certo que o mundo receberia um melhor retorno nos dólares gastos!
De qualquer maneira, o comentador reflete imediatamente a sua incapacidade em compreender que o sistema monetário mudou. Apela à analogia entre orçamento familiar e orçamento público desde o início. Ele considera que uma empresa ou um agregado familiar nunca “decidiriam como gastar cada dólar adicional face ao que tinha previsto sobre o seu rendimento durante os próximos 100 anos” o que significa que cada um de nós não deve comprometer o seu rendimento futuro até que saiba quanto é que ele é . Diz-nos ele
Na base: a sustentabilidade é um objetivo minimalista; Precisamos de folga no orçamento, medido como receitas futuras, muito acima dos compromissos de hoje assim como quanto à forma como essas receitas serão gastas.
Obviamente absurdo. Um governo soberano não é nunca, de modo nenhum, como uma entidade não-governamental do setor privado. Um emite a moeda (em condições de monopólio) e o outro utiliza aquela moeda que ele não pode obter antes do governo a gastar através do défice. Mais ainda, um governo soberano não está constrangido pelas suas receitas o que significa que as suas receitas futuras são tão irrelevantes como as suas receitas atuais para as suas decisões de despesa. As despesas públicas não vêm de lugar nenhum. Como observei no outro dia – a despesa alimenta-se a si-mesma – porque o governo pode sempre creditar as contas bancárias e aumentar as reservas de moeda central dos bancos junto do Banco Central sempre que lhe aprouver.
Sugestão: Dizer que um governo pode sempre creditar as contas bancárias dos bancos e assim aumentar as reservas dos bancos junto do Banco Central sempre que vê que o ajustamento não signifique ter de gastar sem levar em consideração o que representa a despesa visada. Eu voltarei a tudo isto mas é um indício a respeito do que “a sustentabilidade orçamental” significa.
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Ver o original em:
https://modernmoney.wordpress.com/2010/10/25/fiscal-sustainability-101-part-1a/
