FRATERNIZAR – Termina a 20 de Novembro 2016 – Que misericórdia a do jubileu papal e do Vaticano? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Depois de tanto se falar, em ambientes eclesiásticos, de “Alegria do Evangelho”, passou a falar-se reiteradamente de “Misericórdia”. Quem dá o mote para este tipo de coisas e de iniciativas inócuas e ate prejudiciais à saúde integral dos seres humanos, é o papa de turno, Francisco, de seu nome, de quem todos os agentes do poder e os grandes financeiros do mundo gostam muito. Os bispos residenciais, por sua vez, impedidos pelo CDC (Código de Direito Canónico) e pelo tipo de função eclesiástica institucional canónica que desempenham, de serem criativos no exercício dos respectivos ministérios, limitam-se a reproduzir até à náusea, como outras tantas cassetes, os sucessivos motes papais. O mesmo se diga dos órgãos de comunicação diocesanos e das despretensiosas folhas paroquiais, da responsabilidade dos párocos ou de uma equipa de leigas, leigos mais ou menos clericalizados, tudo gente com um ar de puros e de elite que faz arrepiar a espinha de quantas, quantos se aproximem por algum esclarecimento.

Só que alegria nas igrejas – edifícios e missas de semana pelos mortos e dominicais mais ou menos festivas sem festa – é o que menos se vê e se vive, apesar dos grupos corais e dos acólitos adolescentes que nas suas vestes clericais de mau gosto, fazem de corte litúrgica aos respectivos párocos, quase todos de avançadíssima idade, sem vestígios de brilhozinho nos olhos, de resto, impossível de se desenvolver em clérigos. E alegria do Evangelho, menos ainda. Desde logo, porque o evangelho que o papa e o Vaticano propõem-impõem às igrejas locais e ao mundo é o de S. Paulo, não o de Jesus, o filho de Maria que, como se sabe, não tem lugar nem na Cúria romana, nem nas cúrias episcopais, nem no Estado do Vaticano, nem em nenhum dos outros Estados do mundo. Porque o Evangelho de Jesus é dos pobres e dos povos, não do Poder, de nenhum dos três poderes. É o anti-Poder!

Por sua vez, Misericórdia, é outra realidade que também não se vê na igreja, a começar na Cúria romana e no próprio papa. Impossível acontecer Misericórdia, lá onde impera o Cristo que vence, que reina e que impera, ao modo do imperador Constantino (séc. IV), de Putin e do Papa e sua Cúria (séc. XXI). Impossível. Do Cristo que vence, que reina e que impera só se conhece, na melhor ou pior das hipóteses, o chamado Golpe de misericórdia ou o Tiro de misericórdia. É sabido – e os dois mil anos de cristianismo não enganam – que o sadismo imperial cristão tem especial prazer em prolongar o sofrimento das suas vítimas. A pretexto de que quanto mais sofrimento, mais redenção-salvação do mundo. E quando o poder não atinge o paroxismo do sadismo, então aplica às vítimas que inevitavelmente produz o Tiro ou o Golpe de misericórdia. Para não prolongar por mais tempo o sofrimento. É, de resto, a única misericórdia que o Poder conhece e pratica, quando fala em misericórdia. A começar pelo poder papal.

Depois de um ano-Jubileu da Misericórdia, assim crismado pelo papa Francisco, o mais que pode ter acontecido de prática da Misericórdia nas dioceses, também na de Roma, é a do Tiro ou do Golpe de misericórdia. A autêntica Misericórdia, filha de Deus Abba-Mãe que nunca ninguém viu, é feita de práticas quotidianas alternativas às dos fariseus cristãos, católicos romanos e protestantes. Mas esta Misericórdia, só a conhecemos em Jesus, o filho de Maria e no seu Evangelho que, lá onde acontece, tira os pobres da pobreza e os ricos da riqueza, para que a vida seja sempre de qualidade e abundância para todos os povos sem excepção. E ainda sobre para mais dois ou três mundos como este nosso, tanta é hoje a riqueza produzida no planeta, mas que fica criminosamente retida nas mãos de muito poucos. De modo que os pobres são-no cada vez mais e em maior número, por mais que os papas e os bispos residenciais promulguem Jubileus de misericórdia e dissertem sobre “A alegria do Evangelho”.

Em palavreado bem sonante, o papa Francisco é excelente, exímio. Leva a palma a todos os demais chefes de Estado do mundo. E, com o papa, também os bispos e demais líderes das igrejas e religiões. O problema é que só as práticas correctas (ortopraxia) nos fazem e dizem como seres humanos e povos, não as doutrinas, nem os discursos politicamente correctos (ortodoxia). Práticas correctas são práticas económicas e políticas maiêuticas, como as que vemos Jesus Nazaré protagonizar entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, quando, por causa delas, é condenado e executado na cruz do império, de turno, então, o romano, hoje o papal, seja qual for o inquilino-mor do Vaticano. Só ingénuos que o queiram ser é que não vêem que da Cúria romana não sai nada de bom. As próprias doutrinas – ortodoxia – são más. Porque não nascem de práticas boas – ortopraxia – mas de práticas más. E das práticas más, como das árvores más, não podem colher-se frutos bons, concretamente, saúde-salvação das populações e dos povos.

Neste particular, e no que a mim diz directamente respeito, posso testemunhar aqui que, depois de quase um ano a ouvir falar e ler na VP, da Diocese do Porto, semana após semana, de misericórdia, não tive amais pequena manifestação dela, nem sequer uma simples visita ou um simples cumprimento-abraço do bispo titular da diocese, nem de nenhum dos seus auxiliares. E, no entanto, é também com eles que regularmente partilho muita da minha actividade-intervenção de presbítero-jornalista da Igreja que está no Porto. Se a Igreja que está no Porto não se identifica com a Diocese do Porto, o problema não é meu.

A Igreja que, em 5 de Agosto de 1962, me ordenou presbítero é a Igreja que está no Porto. A única que se rege pela Ruah ou Sopro-Vento de Jesus, o filho de Maria, não pelo sopro ou espírito do Cristo que vence, que reina e que impera, de S. Paulo. Nem sequer alguma vez me chegou uma resposta a acusar, agradecer, ou a pedir para suspender as minhas sucessivas partilhas. Sou um Não-existente. Como, de resto, todos os seres humanos enquanto tais são Não-existentes para os clérigos, os do topo e os intermédios. Aos leigos que lhes beijam as mãos e os anéis, ainda reconhecem. Porque lhes são úteis. A quem reiteradamente os interpela como o Vento que sopra onde quer e como quer, sem que alguma vez possam detê-lo, tomam-no por um Não-existente, embora ninguém como o Vento lhes entre pelo seu viver dentro, contanto que não se fecham em redomas de vidro à prova de Tempestade ou de Brisa, certamente, esta última, a mais perturbadora de todos. E no que respeita aos meus colegas presbíteros como eu, aqui das redondezas onde vivo, uma vez que aceitaram trocar o martirial exercício do ministério presbiteral pelo ofícío-profissão de sacerdotes dos cultos religiosos, procedem, duma maneira geral comigo como o sacerdote e o levita da parábola lucana: – evitam-me o mais que podem, como fizeram os da parábola com o homem desconhecido que encontraram caído na berma da estrada, depois de ter sido espancado e roubado pelos salteadores do sistema de poder que então dominava o país.

Pela minha parte, procuro praticar-viver-partilhar cada hoje a Misericórdia e a Alegria. São, de resto, o meu modo de ser presbítero-jornalista da Igreja da Ruah ou Sopro de Jesus. Com tudo de clandestinidade, no jeito daqueles dois ou três que vivem reunidos em nome de Jesus e actuam em seu nome. E como ele, são odiados e rejeitados pelos do Poder que vence, que reina, que impera. Por isso, misteriosamente fecundos como o grão de trigo que, caído na terra, morre e dá muito fruto, sem que nunca cheguemos a saber como.

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