SINAIS DE FOGO – CÂNTICO NEGRO PARA RUTH ESCOBAR – por Soares Novais

sinais de fogo

 

(Peça em 16 actos sobre a actriz e produtora portuguesa que revolucionou o Teatro brasileiro e combateu a ditadura militar, mas a quem a Doença de Alzheimer condenou ao cárcere)

 

ruth-escobar

Foto-legenda: Tónia Carrero, Eva Wilma, Odette Lara, Norma Bengel e Ruth Escobar na Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em 1968. A foto  tem  assinatura  do grande foto-jornalista  Evandro  Teixeira  para  quem Carlos Drumond de Andrade compôs o poema “Diante das Fotos de Evandro Teixeira”.

 

1º Acto – Ruth Escobar finta a morte há 16 anos. Mas a Doença de Alzheimer condenou-a ao cárcere. Ruth é uma  figura central do Teatro brasileiro da segunda metade do século XX. Como actriz e como produtora. E foi uma cidadã que esteve na linha da frente no combate à ditadura militar (1964/1985).

2º Acto – Foram anos de chumbo. Mas Ruth não vacilou: afrontou censores e desafiou tiranos e falsos moralistas.

3º Acto – Participou activamente na “Passeata dos 100 mil”, que a 26 de Junho de 1963, levou a denúncia e o protesto às ruas do Rio de Janeiro. Ruth, Clarice Lispector, Dilma Roussef, Chico Buarque da Holanda, Gilberto Gil, Paulo Autran, Nara Leão, Milton Nascimento, Vinicius de Morais e Tônia Carrero  foram alguns dos artistas  e intelectuais, que juntaram as suas vozes à voz dos manifestantes convocados pelo líder estudantil Vladimir Palmeira, que anos mais tarde foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.

4º Acto – Conheci Ruth Escobar em 1973, no Porto. Ruth apresentou Missa Leiga, no Teatro Rivoli. A obra de Chico de Assis, que aborda as angústias e amarguras do ser humano e apela à consciência do homem como senhor do seu próprio destino, foi dirigida por Ademar Guerra. A peça reproduzia o ritual de uma missa católica e contava com a participação activa dos espectadores. Muitos deles aproveitaram para denunciar as perseguições e mortes ditadas pela ditadura militar.

5º Acto – A apresentação em Portugal também causou polémica. A Censura marcelista não impediu a sua apresentação, mas os “pides” marcaram presença na sala e nas ruas da cidade. Ruth Escobar instalou-se com a sua companhia na Pensão Aviz, próximo da Praça da Batalha. Ali as conversas prolongavam-se pela madrugada. Ruth era uma intelectual comprometida com a Civilização da Rebeldia que se ouvia com atenção. Ficamos amigos e amiúde falávamos pelo telefone.

6º Acto – Anos mais tarde entrevistei-a para um dos jornais onde exerci o meu ofício de jornalista e em 2000 visitei-a em São Paulo. A doença já a minava, mas Ruth Escobar ainda arranjou forças para produzir uma versão de “Os Lusíadas”. Foi o seu último acto.

7º Acto – Maria Ruth nasceu no Porto (1935). No seio de uma família operária. O pai, abastado industrial da cidade, nunca a reconheceu.

8º Acto – Frequentou o então Liceu Carolina Michaelis e foi perseguida. Tal qual assinala na sua autobiografia: Senti que alguém se levantava e corria atrás de mim. Era a Jacqueline: Ela descobriu – e contou para o colégio. Teve um chilique de manhã e disse que a mãezinha dela estava para morrer, de saber que a filha da amante do pai estava aqui” (a filha da amante era eu).”

9º Acto – Pouco tempo após este episódio, a mãe fez a trouxa e zarparam para São Paulo. Ao encontro de uma tia.

10º Acto – Aos 16 anos, Maria Ruth foi trabalhar para uma revista paulista e pouco tempo depois fundou a “Ala-Arriba”. Uma publicação dedicada à imensa comunidade portuguesa de São Paulo. A publicação alcança o êxito, mas Maria Ruth interpreta o seu primeiro acto de rebeldia: inicia uma longa viagem que a fará passar pelo Cambodja e a levará até Saigão, no Vietname. Mais tarde, a “Ala-Arriba” dá lugar à “Vértice”, cuja linha editorial revela já as suas preocupações sociais e o seu compromisso com a cultura.

11º Acto – Regressa a São Paulo e casa com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar, seu primeiro marido. Em 1958 ruma a França onde faz cursos de interpretação.

12º Acto – A sua primeira companhia é a Novo Teatro, em parceria com Alberto D’Aversa. Protagoniza Antígone América, de Carlos Escobar. Participa em Mãe Coragem e Seus Filhos de Brecht e em Males da Juventude de Ferdinand Bruckner. O Teatro passa a ser a sua vida. Definitivamente. Marília Pêra, Armando Bógus, Raúl Cortez, Lélia Abramo, Berta Zemel, Alvim Barbosa, Ivanilde Alves, Dina Sfat e Rubens de Falco são alguns dos nomes do Teatro brasileiro que contrata para as suas produções.

13º Acto – Cria o Teatro Popular Nacional, adquire um autocarro e transforma-o num teatro. Com o autocarro-teatro leva a arte ao encontro daqueles que São Paulo, o mais populoso e impiedoso centro financeiro e industrial do Brasil e da América do Sul, atira para a periferia da cidadania.

14º Acto – Ergue o Teatro Ruth Escobar e dele faz o útero quente de uma revolução estética que marcou a cena teatral brasileira. O complexo teatral é composto pelas salas Dina Sfat (390 lugares), Gil Vicente (320 lugares) e Miriam Muniz (320 lugares). A Associação dos Produtores de Espectáculos Teatrais do Estado de São Paulo (APETESP) comprou-o em 1997 e é quem hoje gere o espaço.

15º Acto –  Chico de Assis, Brecht, Ferdinand Bruckner, Jean Genet,  Durrenmatt, Kurt Weill, Rafael Alberti e Arrabal são alguns dos autores que José Renato, Jô Soares, Abujamra, António Ghigonetto, Ademar Guerra e o argentino Victor Garcia, entre outros, encenam. Ruth Escobar também dirige, mas é como actriz e produtora que se destaca. Também organiza festivais internacionais, questiona o estabelecido, agita consciências. Foi deputada estadual, mas logo, logo voltou ao Teatro.

16º Acto – Agora, Ruth agoniza em São Paulo. Está sozinha e os seus bens são administrados por uma sociedade de advogados. A vida e obra de Ruth Escobar, que fez do Cântico Negro, de Régio, o seu poema de eleição, justificam a nossa gratidão e o nosso reconhecimento. A gratidão e o reconhecimento devidos a quem “… ama o Longe e a Miragem /Ama os abismos, as torrentes, os desertos…/Ide! Tendes estradas,/ Tendes jardins, tendes canteiros,/Tendes pátria, tendes tetos,/E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…/Eu tenho a minha Loucura !/Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,/E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…/Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém…”

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