A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 5. CAOS NA EUROPA E O SEU FALHADO SISTEMA MONETÁRIO – I

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

Bill Mitchell
Bill Mitchell

Caos na Europa e o seu falhado sistema monetário

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Bill Mitchell, Chaos in Europe and the flawed monetary system

Billy Blog, 23 de Março de 2016

 

Eu gasto mensalmente algum tempo em viagem por  vários aeroportos em que detesto os controlos de segurança tão caros que, às vezes, parecem ser mesquinhos  até ao extremo. Sempre achei piada (não é bem a palavra adequada) que um passageiro pudesse andar em frente com um saco cheio de garrafas de uísque duty-free, que se poderia tornar numa arma mortífera  se se partissem enquanto que pessoas como eu com enxertos metálicos nas pernas ( efeitos de uma travagem brusca numa velha bicicleta) quase têm que os tirar cada vez que temos de voar. Suponha-se agora que têm um aparelho de controlo a raios X na entrada do terminal que seria apenas necessário digitar. As autoridades poderiam então fazer bem melhor assegurando que a sua juventude tenha acesso ao emprego em vez de lhes permitir que chafurdem no desemprego e na exclusão social que disso é a resultante. É demasiado simplista atribuir os perigos crescentes na Europa e noutros lugares a concentrações de desemprego elevado. Mas se uma sociedade nega deliberadamente a uma geração específica a possibilidade de obter um emprego e, em vez disso, trata-os como preguiçosos, como indivíduos sem interesse pelo futuro, é então fácil ver porque é que estes excluídos concluem que a sociedade não tem nada para lhes oferecer. Na Europa onde estas manifestações estão a tornarem-se cada vez mais evidentes, o sistema monetário mal concebido está no centro do problema. Falhou categoricamente e os resultados deste falhanço são  multidimensionais.

Os subúrbios de Molenbeek (zona ocidental de Bruxelas) e Schaerbeek (zona nordeste) são  duas das  áreas pobres com níveis elevados de desemprego e com as pessoas a viverem do apoios ao rendimento. O primeiro tem uma taxa de desemprego masculino de cerca de 29 por cento e uma taxa feminina de cerca de 33 por cento. Esta última zona tem igualmente níveis elevados de desemprego.

Se olharmos para as taxas de desemprego ao nível NUTS2 de desagregação, vemos que a região de Bruxelas (Région de Bruxelles-Capitale/Brussels Hoofdstedelijk Gewest) tem atualmente sem trabalho 39,5 por cento dos seus jovens entre os 15 e os 24 anos  e 18,3 por cento de todos as pessoas com mais de 15 anos de idade, e a segunda das regiões tem similarmente níveis elevados de desemprego.

A média na zona euro é de 23,8 por cento e de 11,6 por cento, respectivamente.

É fácil ver como podem surgir a cólera e o sentimento de deslocação  e serem depois canalizadas para posições para posições mais utópicas ou para mensagens de esperança do tipo que os pregadores, em particular as instituições religiosas, lhes podem dar.

Além disso, embora eu não defenda a hipótese de que o aparente aumento na incidência destes ataques é diretamente o resultado da criação da zona euro, posso porém admitir que o disfuncionamento da zona do euro reflete uma ideologia neoliberal ocidental que infestou o mundo.

Essa infestação não criou apenas um caos económico para um número crescente de pessoas desfavorecidas em todo o mundo, mas também tem gerado regimes geograficamente concentrados que criaram o ambiente para promover esses tipos de ataques.

A crise, que começou em 2008, verdadeiramente ainda não desapareceu na zona euro. Os dados mais recentes do Eurostat mostram que a taxa de desocupação permanece deprimida na maioria dos Estados-Membros.

Na Grécia, a taxa de lugares vagos  é agora de 0,6 por cento, enquanto que no primeiro trimestre de 2009, esta mesma  taxa foi de 2,2 por cento. Em Espanha esta taxa caiu para metade. Na Finlândia, a taxa de lugares vagos foi 2,7 por cento no primeiro trimestre de 2011, e é agora de 1.1 por cento.

Claro, isso traduz-se em elevados níveis de desemprego e uma crescente desvantagem.

Mesmo dentro da lógica do chamado – procedimento de desequilíbrio macroeconómico – que “é um mecanismo de vigilância para detectar e resolver as tendências económicas que podem afetar adversamente o funcionamento de um Estado-membro, da área do euro ou da UE”, o sistema falhou ao não ter funcionado eficazmente.

Em Outubro de 2011, os Estados-Membros e o Parlamento Europeu aprovaram uma grande revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). O chamado «Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) reforçado» tornou-se operacional em 13 de Dezembro de 2011.

O Memorando oficial considera que o chamado ‘Six-Pack’ introduziu um novo Procedimento de Desequilíbrio Macroeconómico.

Uma série de intervenções foram detalhadas sob os chamados procedimento dos desequilíbrios excessivos (PDE ) que  visam reduzir os desequilíbrios macroeconómicos e obrigar os Estados membros a apresentar, segundo as s palavras da Comissão Europeia, “um roteiro claro e os prazos para a implementação de ação corretiva”.

Todo o sistema foi sujeito a uma operação de enorme vigilância (controlo da UE) com uma aplicação rigorosa (multas igual a 0,1% do PIB) e intervenção central no processo orçamental de uma nação.

O «Procedimento de Desequilíbrio Macroeconómico’ incorporado no Six-Pack expõe os preconceitos inerentes, anti países, que dominam a elaboração da política europeia.

O objetivo declarado deste mecanismo de vigilância é “para identificar riscos potenciais logo de início, evitar o aparecimento de desequilíbrios macroeconómicos prejudiciais e corrigir os desequilíbrios que já se estão a verificar “

O chamado painel  de indicadores para o Procedimento de Desequilíbrio Macroeconómico utiliza dez indicadores de “alerta” que fornecem informações sobre os “desequilíbrios macroeconómicos e as perdas de competitividade” que são fáceis de calcular e se comunicar.

Os valores de  limiar (positivos e negativos) são fornecidos para avaliar quando é que há um desequilíbrio. As prioridades são claras. Uma nação que tinha sofrido uma taxa de desemprego, digamos, de 9,9 por cento nos últimos três anos não é considerado estar em desequilíbrio, dado que o valor limite de aviso é de 10 por cento.

A Comissão escolheu esse limite muito alto devido ao facto de afirmar estar:

… concentrada na regulação dos mercados de trabalho e não nas flutuações cíclicas.

O que o grupo de pensamento único nos diz é que não consideram o problema do desemprego em termos de postos de trabalho insuficientes que estão a ser provocados por deficientes níveis de despesa, mas consideram antes como sua única preocupação política as questões ligadas às reformas ditas ‘estruturais’

Isto por sua vez concentra a atenção deles nos “impedimentos do mercado “, o padrão neoliberal, o enviesamento pelo lado da oferta que falhou logo desde o momento em que se tornou a abordagem dominante na década de 1990.

No relatório anual da Comissão’ Relatório do Mecanismo de Alerta que é baseado numa revisão do painel de indicadores do Procedimento de Desequilíbrio Macroeconómico, qualquer referência ao desemprego é geralmente acompanhada pela conclusão que os salários são muito altos e têm de ser reduzidas em consonância com o crescimento da produtividade. Não há nenhum reconhecimento de que a recessão duradoura provocou a queda no crescimento da produtividade e levou ao desaparecimento de empregos devido à insuficiência na procura agregada.

Os decisores políticos europeus aceitam, portanto, situações de altos níveis de desemprego e escondem as suas intenções numa linguagem de decepção.

(continua)

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Ver o original em:

Chaos in Europe and the flawed monetary system

 

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