EDITORIAL: Graciliano Ramos e o poder da palavra – os escritores assustam os ditadores

Imagem2Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, no dia 27 de Outubro de 1892 e  morreu no Rio de Janeiro em 20 de Março de 1953. Dedicamos-lhe este editorial – espaço mais vocacionado para a análise política e histórica, porque a força da palavra de Graciliano, escrita num português forte, directo, num certo período da sua vida deu voz aos milhões de falantes que no imenso Brasil, no pequeno Portugal e no país irmão chamado Galiza, em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, em Timor, exprimiam na língua comum o asco às ditaduras que os oprimiam. O melhor, lo mais violento e justo do que disse, disse-o escrevendo nesses anos tenebrosos em que Getúlio Vargas e Salazar, rodeados de nojenta corte de servidores, oprimia, matava, torturava.

Para esconjurar o perigo comunista.

Um Vargas sem sentido de honra, dúctil e pensando seguir o rumo da História e um Salazar mais culto, mas também mais cobarde, chamavam Estados Novos aos países onde reinavam os despojos que a Inquisição deixara e às lições que a Gestapo proporcionava. Os serviços de propaganda, tentavam passar para o exterior imagens de um Portugal rural, atrasado mas puro, e de um Brasil idílico, pedaço esquecido do Paraíso. «Por que haviam os estupores dos intelectuais estragar arraiais e carnavais?» Havia escritores, cineastas, pintores e compositores «distraídos». Em Portugal, um  grupo de cineastas que, com filmes (bem feitos), pelos anos 30 e 40, «demonstravam» que a pobreza não implicava infelicidade.

No Brasil, a composição por Ary Barroso de «Aquarela do Brasil», falando de um inexistente «Brasil brasileiro» corria mundo e tentava abafar o som dos bombardeamentos que dilaceravam a Europa. Ary canta um Brasil idílico, uma terra de sonho, onde o samba é rei. Será que, em 1939, o Brasil era assim tão agradável para ser pintado numa aguarela de cores tão vivas? Talvez o fosse para os ricos e para os turistas. E para os brasileiros? Getúlio Vargas. Chegara ao poder em 1930 mercê de um golpe militar, pondo termo à chamada República Velha e depondo o presidente Washington Luís. As instituições democráticas foram desmanteladas – dissolução do Congresso e das assembleias legislativas.

Em 1932, eclodiu em São Paulo uma revolução constitucionalista, derrotada pelas forças fiéis ao Governo. Em 1934, o regime ditatorial consolida-se ao ser aprovada uma nova Constituição, inspirada na de Weimar. Getúlio foi eleito para um mandato de quatro anos. Em 1935, ocorrem novas revoltas e movimentos insurrecionais organizados pelo Partido Comunista Brasileiro, reprimidos duramente pelo Governo. Em 1937, dando como pretexto a existência de uma conspiração comunista para tomar o poder, em 10 de Novembro, Getúlio desencadeia um golpe de Estado. É o Estado Novo (nome igual ao do regime corporativo de Salazar e, segundo tudo o indica, nele inspirado). Em 1 de Janeiro de 1938, Getúlio promulga uma nova Constituição. O Brasil, nos sete anos seguintes, até 1945, seria governado de forma autoritária, num regime de figurino fascista. Tudo a correr bem; mas lá tinha que vir um escritor comunista estragar a festa.

Em Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos descreve, em páginas de grande beleza e rigor, o que acontecia aos presos da ditadura getulista – torturas e outras sevícias, quando não mesmo a morte. O povo, não falando numa minoria de privilegiados, continuava a viver numa pobreza lancinante, alimentado por discursos demagógicos de recorte justicialista, tão ao gosto dos caudilhos latino-americanos. O filme baseado no livro«1984», de George Orwell, realizado em 1985, por Terry Gilliam, chamou-se «Brazil» e, como tema recorrente, soa a «Aquarela do Brasil». Num mundo disfuncional, como é o que Orwell cria na sua obra, não haveria tema melhor para a banda sonora – uma realidade cruel e um retrato colorido, belo e falso dessa realidade.

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