A América, e com ela o Ocidente, num impasse perigoso com as eleições presidenciais de Novembro – É agora claro: Clinton é a candidata da guerra I

Selecção  e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Francisco Tavares

A América, e com ela o Ocidente, num impasse perigoso com as eleições presidenciais de Novembro

É agora claro: Clinton é a candidata da guerra

Daniel Lazare

Fonte : Le Grand Soir, Daniel Lazare, 11/10/2016

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Daniel Lazare

A elite politico-mediática dos Estados Unidos autoriza apenas a versão propagandista do conflito sírio – coisa que Hillary Clinton assumiu totalmente nos seus comentários beligerantes aquando do segundo debate presidencial,

No caso em que houvesse ainda dúvidas, Hillary Clinton varreu-as aquando do seu segundo debate com Donald Trump. Um voto para ela é um voto não somente a favor da guerra, mas a guerra em nome de Al-Qaeda.

Isto aparece claramente na sua resposta à pergunta penosamente orientada da jornalista Martha Raddatz, de ABC, a respeito do conflito sírio. Raddatz estendeu-se longamente a falar nas centenas de mortes provocadas pelos gémeos maléficos, por Bachar al-Assad e Putin, tendo conseguido mesmo mencionar, de passagem, o Holocausto, para provocar ainda melhor impressão. Clinton precipitou-se na brecha assim aberta:

Eh bem, a situação na Síria é catastrófica e cada dia que passa vemos os resultados do regime – Assad em parceria com os Iranianos no solo e com os Russos nos ares – que bombardeiam lugares, nomeadamente em Alepo, onde há ainda centenas de milhares de pessoas, provavelmente cerca de 250.000, e onde há um esforço determinado pela força aérea russa para destruir Alepo a fim de eliminar os últimos rebeldes sírios que se opõem ainda ao regime Assad.”

A Rússia não deu atenção ao Daesh. Estão interessados apenas na manutenção de Assad no poder. Por conseguinte e quando era Secretária de Estado, preconizei, e preconizo-o ainda hoje, uma zona de exclusão aérea e a criação de zonas de segurança… Mas tenho de sublinhar que o que aqui está em jogo é a ambição e a agressividade da Rússia. A Rússia decidiu apostar tudo na Síria e decidiram igualmente quem é que querem ver tornar-se presidente dos Estados Unidos, e não sou eu. Enfrentei a Rússia, enfrentei Putin e outros, e fá-lo-ei ainda como Presidente.”

Foi um desempenho surpreendente, mesmo para um debate presidencial. Raramente se viu tantas mentiras e tantas inexatidões amontoadas numa só declaração de dois minutos.

Por onde começar? Comecemos por isto: não há 250.000 pessoas em Alepo, mas cerca de 1,75 milhões, e apenas uma pequena parte deles vive num enclave controlado pelos rebeldes no leste da cidade. Apesar da afirmação de Clinton de que a Rússia tenta “destruir Alepo,” a maioria da cidade consegue sobreviver de forma relativamente pacífica apesar dos “canhões do inferno” dos rebeldes que lançam a intervalos regulares bombas de gases explosivos em zonas controladas pelo governo.

Uma das coisas mais impressionantes em Alepo,” escreveu Declan Walsh, jornalista do New York Times, em maio passado, “é ver como é que a cidade parece viver de forma relativamente normal. Uma grande parte da periferia foi reduzida a escombros. Mas no centro da cidade, vi pessoas na rua, um tráfego fluido, hotéis e cafés preenchidos de clientes, e as universidades e as escolas abertos para os estudantes.”

O que não é o caso na outra parte da cidade, sob controlo dos rebeldes. Juan Cole descreve a zona como “uma favela bombardeada,” uma cidade fantasma com uma população talvez tão fraca que não terá “mais de algumas dezenas de milhares.” A vida sob os rebeldes é “miserável”, prossegue. “Certos bairros são controlados por Al-Qaeda, outros pela linha dura Salafi Jihadi “Homens livres da Síria” (Ahrar al-Sham), alguns por milícias, principalmente, os Irmãos muçulmanos.“

A verdade sobre os Rebeldes

Embora Clinton pareça considerar tais elementos como sendo valentes combatentes da liberdade, um porta-voz do Departamento da Defesa dos Estados Unidos confirmou, em abril passado, que a al-Nosra, a sucursal de al-Qaeda que se rebatizou recentemente Jabhat Fateh al-Sham, ou Frente da Conquista da Síria, controlava a zona com mão firme. “É principalmente al-Nosra que controla Alepo”, declarou o coronel Steve Warren aquando de uma conferência de imprensa.

Quando o secretário de Estado John Kerry tentou persuadir as forças rebeldes “moderadas” de romperem as suas relações com al-Nosra durante o curto cessar-fogo no mês passado, o Wall Street Journal relatou que algumas das mais importantes fações responderam “por uma reversão de aliança” e aproximaram-se ainda mais de al-Qaeda. Por outras palavras, Kerry teve como resposta um gesto ofensivo!

As pessoas que Clinton apoia são, por conseguinte, as mesmas forças que fizeram cair o World Trade Center há 15 anos, matando quase 3000 pessoas e desencadeando uma guerra mundial contra o terrorismo que permitiu à Al-Qaeda [eliminar de] multiplicar-se [ou espalhar-se] através da metade do globo [por meio mundo], incluindo [eliminar via] o seu grupo filiado, o Estado Islâmico ou Daesh.

A afirmação segundo a qual “a Rússia não deu atenção ao Daesh” foi igualmente bizarra. Quando Daesh convergiu sobre Palmira, no centro da Síria, em maio de 2015, os Estados Unidos retiveram os seus bombardeiros, quando os combatentes de Daesh teriam constituído alvos perfeitos quando atravessaram quilómetros de deserto. Porque razão os Estados Unidos não atacaram o Daesh para o impedir de pôr a mão sobre as antiguidades de Palmira ?

O New York Times explica: “ Os ataques aéreos contra os militantes do Estado islâmico e em redor de Palmira seriam provavelmente benéficos para as forças do presidente Bachar al-Assad. Até agora, os ataques aéreos efetuados pelos Estados Unidos na Síria foram sobretudo efetuados sobre zonas afastadas das zonas controladas pelo governo, a fim de evitar dar a impressão de estarem a ajudar um líder cuja evicção foi pedida pelo presidente Obama.”

http://www.nytimes.com/2015/05/21/world/middleeast/syria-isis-fighters-enter-ancient-city-of-palmyra.html

 

Por outras palavras, os Estados Unidos permitiram à Daesh tomar um dos sítios arqueológicos mais ricos do Médio Oriente, apesar de terem podido travar o Daesch na sua dinâmica. A comparar com os ataques aéreos russos – os mais violentos, com efeito, desde a entrada de Moscovo na guerra no mês de setembro de 2015 – [eliminar o] que permitiram às forças sírias retomar a cidade no mês de Março seguinte.

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A ideia que a Rússia não se incomoda com o Daesh constitui uma inversão da realidade. Além disso, quando os aviões americanos mataram no último mês pelo menos 62 soldados do governo fora da cidade de Deir Ezzor sitiada por Daesh, Daesh aproveitou para lançar uma ofensiva alguns minutos após o fim do bombardeamento

Assim, abstendo-se de agir sobre Palmira mas fazendo-o em Deir Ezzor, Washington – por inadvertência ou não – permite à Daesh avançar, e seguidamente ofende-se quando alguém protesta. A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Samantha Power, quando a Rússia teve o atrevimento de convocar uma reunião de emergência do Conselho de segurança da O.N.U, respondeu: “Mesmo segundo as normas da Rússia, a pirueta desta noite, um golpe cheio de moralismo e de demagogia, é particularmente cínico e hipócrita.”

As palavras eram chocantes não somente porque dezenas de pessoas tinham morrido, mas também porque Power defendia um ataque aéreo que se tinha produzido sobre o território sírio em violação flagrante do direito internacional, enquanto que o governo soberano da Síria tinha pedido assistência à Rússia, e se tinha oposto à violação do seu território pelos Estados Unidos e seus aliados. Isto significa que a coligação dos Estados Unidos não tem o direito, em virtude do direito internacional, de intervir na Síria.

(continua)

 

2 Comments

  1. Finalmente, mas com grande clareza, vejo atacar a política expansionista ianque. Finalmente – e já vem tarde – vejo alguém comentar a política defendida pela Srª Clinton, dando-lhe os nomes que mais merece. Se a cavalheira ganhar as eleições presidenciais dos “gringos” – parece ser esse o desejo mais manifesto dos “democratas” portugueses – o crime de guerra vai passar a ser o dia a dia do mundo – felizmente, cada vez mais pequeno – onde os ianques querem imperar, CLV

  2. Caro Argonauta, numa viagem de passagem por esta nau e nesta viagem apenas ou viajante frequente nesta barca, agradecemos o seu texto assim como o elogio que nele está entendível. Um reparo apenas quanto ao seu comentário. Diz-nos:
    “Finalmente – e já vem tarde – vejo alguém comentar a política defendida pela Srª Clinton”.

    Sublinho o termo Finalmente. Este termo parece-me deslocado porque de entre muita coisa que temos falado está a política de guerra do Prémio Nobel da Paz, Barack Obama, e, portanto, o termo finalmente por si utilizado parece contraditório com os textos por nós publicados sobre a política belicista americana .
    Exemplos de entre muitos:
    1.texto de Taïké Eilée intitulado Robert Kennedy Jr. Denuncia o conflito na Síria : uma « guerra por procuração»
    2. John Pilger: De Pol Pot ao ISIS – as raízes do terrorismo
    3 Nafeez Ahmed, com o titulo O Estado Islâmico,
    4. Robert Kennedy Junior, Porque é que os árabes não nos querem na Síria

    Devo ainda aqui salientar que não os tendo então lido, o nosso amigo chega às mesmas conclusões que este autores mas por outras vias, por outros elementos de leitura e que me parecem ter sido muitos, o que não é muito frequente.
    Deixo-lhe duas sugestões:
    1. Continue a acompanhar esta série
    2 Depois acompanhe a série Sobre o golpe de estado moderno que está a ser preparado para a primeira semana de Dezembro próximo em Itália.
    Não dará o seu tempo perdido.

    Júlio Marques Mota

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