CHEGOU O EVIDENTE por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Pais e professores  concordam que os livros escolares dados a todos os alunos do 1º ano de escolaridade não podem transitar para os novos alunos do 1º ano no próximo ano lectivo.

E porquê? Porque para ser um “bom” manual escolar o livro tem que ter os exercícios para os alunos fazerem, escrevendo no livro, como se sabe.

O livro com os exercícios impressos era “selecionado” também pelo número de exercícios que tinha, pois quanto mais, melhor.

E melhor por várias razões: as perguntas já estavam feitas, era só preencher a linha que estava em branco ou colocar uma cruzinha num quadradinho; por outro lado era fácil marcar trabalho para casa, é só dizer que páginas tinham os alunos para fazer.

Ainda bem que se chegou a esta questão do empréstimo dos livros. Nunca fui a favor deste tipo de manual. As crianças, feitas alunos, têm que ter as mesmas competências, para fazerem todas os exercícios da página 24…

Esta bem vinda medida, de tornar a escolaridade obrigatória grátis, vem colocar algumas questões que extrapolam para fora da escola, da sala de aula.

A questão da partilha, do reconhecer os direitos do outro e os deveres do eu, a questão da descentração de cada um em prol da descentração de todos os eus incorporando comportamentos de solidariedade.

É a aprendizagem da durabilidade das coisas contra o comportamento de “usar e substituir”, ou seja é semear o espírito crítico relativamente à “sociedade de consumo”.

Esta medida e a constatação de um novo comportamento face ao material escolar fez-me sentir e correr-me nas veias o suco da educação. A cidadania, o reconhecimento, o dever e o direito não se ensinam, vive-se e assim se perpectua.

Fez-me vir à memória os encontros de professores que analisavam qual a importância do manual escolar. O manual escolar, isto quando as escolas ainda não tinham bibliotecas, mas sim alguns livros da Câmara Municipal, para o aluno e para a família era algo de importante: forravam-se os livros para não estragar, alisavam-se as páginas para não dobrarem no “cantinho”, não se podia riscar nem fazer desenhos, novamente para não estragar porque para que no próximo ano estes manuais transitassem para os irmãos ou amigos.

Espero que esta medida faça voltar a necessidade de se repensar as práticas pedagógicas, de se valorizar, pela vivência directa, a cidadania.

Quem diria que esta questão iria fazer despoletar novas práticas pedagógicas!

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