O MAPA (A saga do anadel/43)- A bordo da Leeuwarden

 

 

Leeuwarden, ao largo da costa portuguesa, manhã de sábado, 27 de Julho de 1487.

 

               Acordou do torpor em que mergulhara. Não estava ainda curado do ferimento. Na prisão a cicatrização da ferida não continuara a evoluir como no hospital, apesar dos cuidados de Bernardino que nunca deixava de lhe ir pôr o unguento de acónito, após ter rapado os cabelos em redor, desinfectando com cânfora e água de alfazema. Sentia-se vencido pelo cansaço provocado por uma noite em que não chegara a dormir duas horas, até o terem ido buscar à cela para o levar ao Paço. Chegado ao barco e atirado para o porão, caíra numa sonolência, turbada por pesadelos Um sono agitado, embalado pelo balançar do navio que levantara âncora e, com todas as velas içadas, era impulsionado pela brisa matinal, ajudada também pela força dos remos, descendo com velocidade apreciável até à foz do Tejo, após o que rumaria a Sul, seguindo sempre a linha da costa. A estibordo, por alturas da praia de Belém, desfilavam as últimas casas da cidade, rareando cada vez mais o aglomerado que, apenas com pequenos montículos vestia verdes colinas aqui e ali encimadas e ponteadas por moinhos de vento. O casario só voltaria a ser mais denso na baía situada no extremo ocidental do estuário, já em pleno Atlântico, em redor das muralhas da vila de Cascais. Para bombordo, viam-se os montes verdejantes de Além Tejo. Um rebanho de cabras e ovelhas acompanhado por um pastor e por um cão, descia uma colina rente às muralhas do castelo mouro de Almada.

            A Leeuwarden era um robusto navio com mais de quatrocentos tonéis de capacidade e dotado de uma sólida estrutura que se desenvolvia harmoniosamente por três cobertas. Possuía três mastros, o grande o traquete de vante, à ré, o da mezena. Os castelos de popa e de proa, solidamente integrados no casco, eram de bom desenho e de elegante porte, bem como de avançada carpintaria. Não sendo um navio militar, para se poder defender das investidas de piratas e corsários, estava provido de quarenta peças de artilharia, contando-se entre as mais fortes algumas bombardas, pedreiros e esperas, e entre as mais ligeiras, falcões e berços, estes montados em manobráveis plataformas giratórias. Cerca de uma centena de homens, oficiais, mestres, artífices e grumetes, compunham a tripulação. Na coberta intermédia, destinados à rude tarefa de remar, estavam confinados mais de duzentos homens – de uma forma geral, ex-presidiários vindos dos cárceres da Flandres ou filhados à força em portos europeus, como veio pouco depois a saber. Em suma, era gente reduzida à indigna condição de escravos. A última coberta, situada abaixo da linha de água, destinava-se ao armazenamento das mercadorias transportadas. Porque as carracas eram navios concebidos para a navegação no Mediterrâneo, essencialmente para o transporte de mercadorias.

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