CARTA DO RIO – 127 por Rachel Gutiérrez

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Impossível não falar na morte de Fidel Castro. “Nunca um homem está mais vivo do que no dia de sua morte”, dizia meu companheiro Roland Corbisier. No caso de Fidel, isso vai se prolongar por vários dias, talvez semanas, inevitavelmente. Depois, Cronos e o olvido se encarregam, como sempre, de quase tudo devorar. O diplomata Marcos Azambuja sintetizou: “Foi uma das grandes personalidades do século XX. Para o século XXI, é só memória.”

Seu amigo Frei Betto refere-se a ele como alguém “capaz de entreter a multidão por três ou quatro horas…” Ora, outro monge que conheci há muitos anos no Mosteiro de São Bento, do Rio, D. Timóteo Amoroso Anastácio, (que era primo de Dr. Alceu de Amoroso Lima), observou certa vez, com ironia, que “pouquíssima gente é capaz de recitar o Padre Nosso do começo ao fim sem se desconcentrar” ! Quem é que podia ouvir atentamente discursos de mais de três horas? Talvez por isso alguns cubanos dançassem nas últimas fileiras da multidão enquanto Fidel discursava. “No fundo da plateia, as pessoas dançavam e cantavam”, conta Fernando Gabeira. Aquelas intermináveis ladainhas tinham o ritmo que os embalava.

Acredito que me sentiria um tanto intimidada pela figura do Fidel Castro que Frei Betto descreve: “Quando ingressava num recinto era como se todo o espaço fosse ocupado por sua aura. Todos ficavam esperando que ele tomasse a iniciativa, escolhesse o tema da conversa, fizesse uma proposta ou lançasse uma ideia, enquanto ele persistia na ilusão de que sua presença era uma a mais e que o tratariam sem cerimônias e reverências.”

Um chefe de estado que ocupou o poder por cinco décadas e só admitiu passar o cetro – e para o seu irmão! – quando já se encontrava alquebrado e doente não parece merecer todas as reverências que muitos ainda lhe fazem. Não há dúvida de que o jovem advogado Fidel Castro surgiu, em meados dos anos 1950 do século passado, como o herói libertário, que expulsou de Cuba o ditador Fulgêncio Batista, e conseguiu moralizar a ilha até então caracterizada pela jogatina e pela prostituição; nem há dúvida de que tornou exemplares, no seu país, os setores da Saúde e da Educação; tampouco se pode negar que em Cuba não há mais crianças desamparadas  e que a miséria acabou, apesar das falhas até agora insolúveis de sua economia.  Contudo, também não há dúvida de que os intelectuais foram impedidos de expressar ideias contrárias às da ideologia dominante; nem se pode negar que os gays e muitos artistas foram perseguidos.

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Voltando aos famosos discursos do cubano, ouçamos Gabeira: “Ele apresentava a conjuntura internacional, descrevia o estado do país, definia as tarefas prioritárias, combatia os Estados Unidos, fazia uma digressão histórica, enfim, dizia o que realizar e como resistir.” E Fernando Gabeira conclui: “Tantas mortes, tanto exílio, tanta tortura, os fuzilamentos inaugurais da revolução, tudo isso valeu a pena? Olhando para o lado, para a Costa Rica, os românticos teriam um tema para refletir.”

A Revolução, uma vez institucionalizada torna-se Ditadura. Como escreve Peter Hakim, o Presidente emérito do Diálogo Interamericano, “os anos se passaram e Cuba ficou congelada no tempo. A nova ordem de Fidel virou uma velha ordem. Seu triunfo revolucionário inspirou muitos movimentos de esquerda e guerrilhas pela região. (…) Em muitas nações, os movimentos de esquerda, particularmente com insurgências armadas, criaram uma atmosfera cujo resultado levou a golpes e regimes brutais , (…) Apesar de ser injusto culpar Fidel, ele foi um elemento–chave na mistura explosiva que levou a tragédias.”

Vejamos agora o que diz o Professor de História Contemporânea Daniel Aarão Reis: “Ao contrário do que se esperava e a revolução prometia, a liberdade e a democracia não foram construídas em Cuba. (…) Ignorou-se e usurpou-se esta esperança e aí é muito clara a responsabilidade pessoal de Fidel Castro, um revolucionário que se tornou um ditador, no alto de uma ditadura que, de revolucionária foi-se tornando cada vez mais conservadora, ao longo das décadas.”

 Prefiro, portanto, outros ídolos, que o tempo só tem engrandecido: Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King, e o octogenário modesto e um tanto extravagante ex-presidente do Uruguai, José (Pepe) Mujica, que não enriqueceu, não quis eternizar-se no poder, e nem sequer comprou um carro novo para substituir seu velho fusca de 1987. Vale a pena reproduzir o que diz sobre ele a Wikipedia:

“Enquanto presidente, Mujica recebia 230 mil pesos (cerca de R$22,122) mensais, doando quase 70% para seu partido, a Frente Ampla, e também a um fundo para construção de moradias. Mora em uma chácara em Rincón del Cerro, zona rural de Montevidéu, onde cultiva flores e hortaliças e para ele o restante que sobrava de seu salário (30mil pesos mensais cerca de R$2,899) era o suficiente para se manter.”

Outro “ídolo”, que admiro cada vez mais, é o argentino também octogenário Jorge Mario Bergoglio, o 266º Papa da Igreja Católica e atual Chefe de Estado do Vaticano, que assumiu pela primeira vez na história da Igreja o nome Francisco, o nome do santo dos pobres e dos humildes. O Papa Francisco é também o primeiro pontífice do hemisfério sul, o primeiro não europeu em 1200 anos, o primeiro jesuíta e o primeiro latino-americano.

Francisco é ainda inaugural na sua maneira de se comportar: evita aparições na mídia e possui hábitos simples. Utiliza o transporte coletivo e não frequenta restaurantes. Aprecia música clássica, literatura e futebol.

No que diz respeito aos homossexuais, “naquela que foi considerada por alguns meios de comunicação como a mais ousada declaração de um Pontífice sobre o assunto, Francisco limitou-se a demonstrar um sentimento de acolhida, dizendo que devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta.” E mais: “não devem ser marginalizados, mas integrados à sociedade.”

E embora ainda não admita, por exemplo, a adoção de crianças por casais homoafetivos, o Papa Francisco recentemente surpreendeu a todos com a recomendação aos padres para que perdoem as mulheres que praticaram aborto.

E foi o Papa Francisco quem desempenhou  um papel fundamental, como sabemos, no reatamento das relações do país caribenho com os Estados Unidos de Obama. Com a morte de Fidel, o que falta agora é a suspensão do embargo, que vigora desde a década de 1960, o retorno dos investimentos dos Estados Unidos, a liberdade de imprensa, a libertação dos presos políticos e um futuro de paz e prosperidade para aquele povo por tanto tempo isolado e sacrificado.  Se Donald Trump não o impedir.

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