O MAPA (A saga do anadel/45) – A Sereníssima República – por Carlos Loures

Em termos comerciais e de domínio das grandes rotas marítimas, Portugal convertera-se em poucos anos, numa das primeiras, senão mesmo na principal potência mundial, condição que as outras nações europeias nunca lhe quiseram reconhecer ou que só tardiamente viriam a aceitar. O ouro, os escravos, o açúcar, as especiarias, o sândalo, o marfim, as mercadorias e matérias-primas afluíam a Lisboa e daqui seguiam para os outros grandes entrepostos, nomeadamente os do Norte, incluindo a Flandres. Lisboa e Sevilha, além de duas enormes urbes, eram agora dois grandes portos comerciais da Europa. Deste modo, Veneza ia perdendo o antigo monopólio como escala obrigatória para as mercadorias vindas do Oriente. Esta nova realidade não podia deixar de preocupar o doge e o Senado da República. E, diga-se com verdade, não fora apenas a inesperada – e inoportuna, aos olhos de Veneza – imergência de Portugal e de Castela na cena política e económica que preocupava os Venezianos.

O velho equilíbrio de poder naval e comercial estabelecido no Mediterrâneo, e que parecia tão imutável quanto o eram as leis da Natureza, viera a alterar-se profundamente nas últimas centúrias. Desde cerca de 1100, verificava-se a preponderância das armadas cristãs. Não era por acaso que tal mudança ocorria. O vento e as correntes predominantes eram favoráveis a estas, pois, no estreito de Gibraltar e nas costas do Sul, corriam de oeste para este,

Em termos comerciais e de domínio das grandes rotas marítimas, Portugal convertera-se em poucos anos, numa das primeiras, senão mesmo na principal potência mundial, condição que as outras nações europeias nunca lhe quiseram reconhecer ou que só tardiamente viriam a aceitar. O ouro, os escravos, o açúcar, as especiarias, o sândalo, o marfim, as mercadorias e matérias-primas afluíam a Lisboa e daqui seguiam para os outros grandes entrepostos, nomeadamente os do Norte, incluindo a Flandres. Lisboa e Sevilha, além de duas enormes urbes, eram agora dois grandes portos comerciais da Europa. Deste modo, Veneza ia perdendo o antigo monopólio como escala obrigatória para as mercadorias vindas do Oriente. Esta nova realidade não podia deixar de preocupar o doge e o Senado da República. E, diga-se com verdade, não fora apenas a inesperada – e inoportuna, aos olhos de Veneza – imergência de Portugal e de Castela na cena política e económica que preocupava os Venezianos.

O velho equilíbrio de poder naval e comercial estabelecido no Mediterrâneo, e que parecia tão imutável quanto o eram as leis da Natureza, viera a alterar-se profundamente nas últimas centúrias. Desde cerca de 1100, verificava-se a preponderância das armadas cristãs. Não era por acaso que tal mudança ocorria. O vento e as correntes predominantes eram favoráveis a estas, pois, no estreito de Gibraltar e nas costas do Sul, corriam de oeste para este, e, dado que as naves dos fiéis de Maomé dominavam sobretudo as costas do Oriente e do Sul, as vantagens concedidas pela Natureza corriam a favor das armadas que ostentavam os pendões da vermelha cruz de Cristo. Sabe-se o valor que na guerra naval a velocidade com que se chega a um destino ou se atinge um objectivo – um porto de abrigo, um forte a tomar, um porto ou uma armada inimiga a cercar, é vital e, muitas vezes decisivo. Obtida a vitória ou alcançado o objectivo, que a velocidade da viagem de regresso seja menor, constitui factor secundário.

Em 1191, quando a armada da Terceira Cruzada afundou ou capturou quase totalmente, em São João de Acre, as 60 galés da poderosa frota de Saladino, a supremacia cristã passou a ser absoluta, remetendo as naves islâmicas para a guerra de corso. Saindo de cena os muçulmanos, as potências mediterrânicas cristãs disputavam agora a hegemonia entre si. Em 1194, a queda da dinastia normanda acabaria com as pretensões de um dos concorrentes – a Sicília. Pouco tempo depois, Bizâncio deixava de contar. Pisa, forte candidata à vitória, meteu-se numa guerra contra Génova e afundou-se na derrota naval de Meloria, em 1284. O número de prisioneiros foi tão grande, que uma das pilhérias em voga era a de que quem quisesse ver um pisano ao natural o que tinha a fazer era tomar viagem para Génova. Quando se atingia o dealbar de Quatrocentos, só três potências se digladiavam com a ambição de triunfar naquele mar: Veneza, Génova e a Casa Condal de Barcelona, pertença da Coroa de Aragão. Cada uma delas evitando o confronto directo com as outras duas, mantinha, contudo, zonas geográficas de demarcada influência, respeitando tacitamente entre si essas demarcações. Os Catalães, comerciantes eméritos, mantinham, mercê de hábeis acordos diplomáticos, importantes pontos estratégicos no Ocidente do mar – portos no Magrebe, Maiorca, Ibiza, Formentera, Menorca, a Sicília e alguns portos sardos. Tinham ainda bases no Norte de África, tais como Qarqanah e Djerbha, Ceuta e Tunes. Também Génova preferia assegurar, negociando, uma forte e sólida presença comercial, a custear conquistas e aventuras territoriais de difícil e dispendiosa organização militar.

Veneza jogava, ao mesmo tempo, no tabuleiro militar e no diplomático, combatendo por um lado e negociando por outro, nunca deixando de espiar, de intrigar, e conseguindo alguma vantagem no meio daquele equilíbrio tenso e instável. Depois, no primeiro quartel de Quatrocentos, Portugal, irrompendo como potência naval, foi aparecendo com insistência crescente por aquelas paragens, criando algum desequilíbrio na precária situação da região. O poder e o alcance de fogo da artilharia instalada nas suas naves, preocupava muito os adversários, pois as naus e caravelas portuguesas, conhecendo o alcance das bombardas inimigas, colocavam-se no limite desse alcance e destruíam depois os navios adversários sem sofrer baixas, como quem abate patos sonolentos. Os projécteis dos barcos inimigos caíam a braças dos nossos, levantando grandes colunas de água e de espuma e provocando a chufa dos lusos. Pelo final de Quatrocentos, o sultão Badameco I armara uma grande frota militar. A armada turca foi sofrendo derrotas até que, entre 1499 e 1503, venceu a veneziana, destruindo quase todo o seu poder naval. Veneza jogara com pau de diversos bicos, mas acabou por se empalar num deles. Não nos antecipemos, porém, pois quando a carraca flamenga vogava pelo Mediterrâneo, Veneza tinha ainda a ilusão de que podia manipular os Turcos contra os Portugueses, os Portugueses contra os Castelhanos, ambos contra os Turcos – triângulo em cujo centro a República imergiria triunfante.

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