Uma tentativa de golpe de Estado moderno sob a égide da União Europeia na Itália a 4 de Dezembro de 2016 – Benigni, a Constituição e o Brexit

Selecção de Júlio Marques Mota

Uma tentativa de golpe de Estado moderno sob a égide da União Europeia na Itália a 4 de Dezembro de 2016

6. Benigni, a Constituição e o Brexit1

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Alessandro Somma 



Há alguns anos Benigni quis expressar a sua veneração pela Constituição italiana, criando um show muito eloquente intitulado: “a mais bela do mundo”. Ele lia e comentava, com o entusiasmo e o talento de animador que todos lhe reconhecem, os primeiros doze artigos do texto, aqueles que contêm “princípios fundamentais”. Ele falou com admiração da simplicidade e da força poética que se expressa nos dois princípios revolucionários: aquele em que se afirma “a soberania pertence ao povo” (artigo 1) e “todos os cidadãos são iguais perante a lei” (artigo 3). Ele falou longamente sobre a magia que levou proeminentes figuras políticas, apesar de culturas políticas muito diferentes, a produzirem em conjunto um texto invejado em todo o mundo.

O show foi transmitido pela mesma RAI, em dezembro de 2012, quando era primeiro-ministro Mario Monti, alguns dias antes do Parlamento decidir por uma maioria búlgara (isto é por uma muito grande maioria e sem haver debate) atacar “a mais bela do mundo” constitucionalizando o princípio do equilíbrio orçamental (artigo 81). Mas agora mudou a geografia política: no Palazzo Chigi, senta-se Renzi e não Monti. E Renzi decidiu alterar a Constituição italiana, reescrevendo toda uma série de artigos, 47 sobre 139.

Todos os artigos atingidos estão colocados na segunda parte do texto, a parte que é dedicada aos poderes do Estado e das autoridades territoriais, e enquanto isso o Primeiro-ministro repete-se até ao limiar da dor que a primeira parte não é de alguma forma tocada. A RAI, se bem que em época renziana esteja habituada a trabalhar em espaços politicamente apertados, não deveria pois ter nenhuns problemas em retransmitir o espetáculo de Benigni.

Evidentemente, no entanto, as coisas não são bem assim. Caso contrário, Begnini não teria feito preceder a reedição da “A mais bela do Mundo “, em junho passado de uma mensagem bem embaraçosa. Ele na verdade queria reafirmar que a Reforma Boschi mexe apenas na segunda parte da Constituição como quis defender igualmente a ideia de que a Constituição pode e de fato deve ser alterada, já que “um paraíso do qual não se pode sair torna-se então num inferno.” Tudo acompanhado por um retumbante recuo em que o comediante toscano no início teria incautamente afirmado: que pretendia votar Não no referendo “para proteger a nossa Constituição maravilhosa.” Era uma posição expressa com o coração, disse ele enquanto a mente o leva a apoiar a região dos que defendem o SIM.

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A utilizar a mente, sobretudo se se construiu a sua própria fortuna como artista sobre a irreverência e a espontaneidade, esvazia-se então o sentido das coisas e fazem-se pastiches. Assim se leva a esquecermos que as Constituições se fazem e se alteram com a contribuição de todas as forças políticas e não por golpes de maioria mas talvez fosse melhor ouvir outras personalidades, personalidades que sejam menos afetas ao nanismo político uma vez que estas últimas são também de uma clara e insuficiente familiaridade com a escrita. E assim se leva a não ver que a primeira parte da Constituição é atingida, e muito, com a reforma Boschi, exatamente como esta foi atingida com a introdução do equilíbrio orçamental: um princípio que impede a redistribuição da riqueza assim como é pretendido com o princípio de igualdade substancial (art. 3).

A reforma Boschi deve-se com efeito ler “em disposto articulado”, como se costuma dizer-se, com o Italicum, a lei eleitoral que apresenta os mesmos defeitos de constitucionalidade do Porcellum. Com o prémio anormal de majoração para a maioria que ai se prevê, viola-se pois o princípio pelo qual a soberania pertence ao povo, assim como se viola o artigo segundo o qual todos os cidadãos são iguais em face da lei: o voto de quem escolhe o partido que vence as eleições valerá o dobro ou o triplo, ou se se preferir o voto daquele que não escolhe o vencedor valerá metade ou um terço.. E há apenas uma maneira para fazer saltar o Italicum: votar Não no referendo. Apenas se não for aprovada a reforma Boschi é que o Parlamento será forçado a encontrar um acordo para se alterar a lei eleitoral, coisa que agora muitos afirmam desejar, sem contudo serem capazes de encontrar um acordo de princípio ou talvez preferiram mesmo não o fazer.

Mas voltemos a Benigni. Ele poderia ter ficado por ali, e talvez lhe tivessemos perdoado as escorregadelas de uma personalidade que é considerada como uma espécie de monumento nacional. Os defensores do perdão são postos à prova, a menos que não sejam renzianos, entenda-se. Como o comediante se juntou nestes últimos dias às hienas, quiseram aumentar a dose e terem os piores propagandistas da reforma que encontraram na floresta: ele disse que o referendo é “indispensável” para ganhar o Sim, caso contrário “é pior do que “Brexit” e acrescentou que, se não mudarem a Constituição agora,” isso nunca mais irá acontecer.”

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Mesmo o Roberto nacional que se quis juntar ao Partido da desgraça segundo o qual não há nenhuma recessão económica, não impedirá a luta contra o terrorismo e talvez provoque inundações e invasões de gafanhotos. E ele abraçou a mantra segundo a qual não se pode perder a oportunidade histórica de finalmente ver reformada a Constituição italiana: como se um país massacrado pela austeridade não quisesse outra coisa e como se a vitória do Não o condenasse a viver com uma Constituição horrível e não com “a mais bela do mundo”.

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Pensando talvez para se proteger contra as críticas, Benigni quis precisar, desde os dias em que renzianamente “mudou para” votar sim, que o iria fazer apesar de não estar plenamente convencido da bondade da reforma. Aqui também o comediante toscano acaba por reproduzir uma fórmula que anda na boca de muitos de entre os apoiantes do Sim: a reforma não presta mas temos que a votar, seja como for.

Talvez seja o que não se pode perdoar em alguém como Benigni: ter decidido sem o coração, como ele próprio afirmou, sem paixão, como se “a mais bela do mundo” possa ser estragada por aqueles de que nem sequer está convicto daquilo que eles fazem.

Alessandro Somma, Benigni, la Costituzione e la Brexit. Texto editado por MicroMega e disponível em: http://temi.repubblica.it/micromega-online/benigni-la-costituzione-e-la-brexit/

Veja-se a peça de Roberto Benigni em :

https://www.youtube.com/watch?v=SWkpb1Me72Q

 

 

 

1 Excluindo o primeiro cartoon, todos os outros são da responsabilidade do editor em língua portuguesa.

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