SINAIS DE FOGO – QUATRO CRAVOS DE SAUDADE PARA PAPINIANO CARLOS – por Soares Novais

sinais de fogo

 

Papiniano Carlos com Olívia de Vasconcelos, sua companheira de sempre, e César Príncipe. Obrigado ao Jornal de Notícias.
Papiniano Carlos, Olívia de Vasconcelos, sua companheira de sempre, e César Príncipe. Obrigado ao Jornal de Notícias.

“Boa tarde, Poeta.” Foi assim, acompanhado de um largo e terno sorriso, que Luandino Vieira saudou Papiniano Carlos. Luandino e Papiniano, que eram os autores em destaque de uma feira do livro organizada por uma instituição de apoio a crianças diferentes de Penafiel, cruzaram-se à entrada do recinto. Foi em 2009 e os dois ficaram por ali, largos minutos, à conversa. Testemunhei o encontro e a admiração mútua, apesar de até aí as suas vidas nunca se terem cruzado. O escritor angolano conhecia bem e tinha profunda admiração pela Obra do Poeta-Cidadão, que partiu faz hoje quatro anos.

o-cavalo-das-sete-coresPor esses dias, eu era um dos editores de Papiniano Carlos. Tinha reeditado “O Cavalo das Sete Cores” e “O Navio” (2006), com ilustrações de Fedra Santos; e um ano depois reeditei “A Viagem de Alexandra”, com ilustrações de Elsa Lé. Duas obras essenciais da Obra de Papiniano Carlos para a infância. Obras onde, segundo Ana Margarida Ramos, “realidade e fantasia” se entrelaçam e o Poeta revela “um olhar enternecido e sempre cheio de esperança sobre as gerações mais novas.”  “A Menina Gotinha de Água” é, contudo, a sua obra mais conhecida junto dos seus “queridinhos amiguinhos”. Tal qual Papiniano Carlos  gostava de considerar os seus leitores mais jovens.

Privava, então, quase diariamente com o Poeta-Cidadão e muitas foram as vezes que conversamos junto ao enorme e robusto cacto que estava plantado à porta de sua casa, em Pedrouços, no concelho da Maia. Entre um e outro cigarro, Papiniano Carlos ía desfiando episódios de uma longa e singular vida.

“Papi” orgulhava-se da sua amizade sem mácula com Virgínia Moura e António Lobão Vital; com Pablo Neruda, que conheceu, em Paris, quando o “Nobel da Literatura” ali foi embaixador do seu amado e sofrido Chile; e eu via-lhe um brilhozinho nos olhos quando confessava a sua alegria em ter poemas seus musicados por Fernando Lopes-Graça, Carlos Mendes e Luís Cília.

Papiniano Carlos foi um intelectual banido, acossado e feito prisioneiro pela PIDE. Mas nunca desistiu de lutar e de escrever. Da sua Obra, disse Jorge de Sena, outro intelectual banido:

“Ergueu-se acima da oratória, com vibrante generosidade e algum desdém pelas artes poéticas, e teve larga influência em poetas ulteriores.”

Papiniano Carlos estreou-se com “Esboço” (1942), proibido pelo punho do ditador nascido em Santa Comba Dão, e dea-viagem-de-alexandra então para cá legou-nos alguns dos mais marcantes títulos da literatura portuguesa. Eis alguns: “Estrada Nova”, Caderno de Poemas, com capa de Júlio Pomar, que a PIDE logo apreendeu; «Canto Fraternal”, “Canto de Amor em Hiroshima”; “Canto para Guevara”; “Ergue-te, Escravo!…”; “Camarada Morto na Cela”, “Caminhemos Serenos”, “Balada para um Menino Morto”; “A Ave Sobre a Cidade”; “Mãe Terra”; “Os Ciclistas”; “Os Olhos Me Doem, Federico”, dedicado a Lorca; “Canção do Semeador”, “Mãe Terra”, “Língua Imortal”, “Menino na Fábrica”, “O Bailado de Salomé”, “Os Companheiros na Manhã”, “Versos para o Primeiro Galo do Povoado”, “Sol de Fogo”, “Todos os Nossos Bombardeiros Regressaram à Base”,  “Vossos Nomes”,  “O Grande Lagarto da Pedra Azul”; “Sonhar a Terra Livre e Insubmissa”; “A Rosa Nocturna”; e “Terra com sede”, que marca a sua estreia na ficção e que Baptista-Bastos considera reunir alguns dos mais belos contos do neo-realismo português.

Conheci  Papiniano Carlos no há muito extinto Café Rialto, no Porto. Ali, o Poeta-Cidadão partilhava a mesa com Egito Gonçalves, Daniel Filipe, António Rebordão Navarro e Luís Veiga Leitão. Todos eles grandes poetas e cidadãos exemplares, que se opuseram à ditadura fascista através das palavras e do combate político.

Devo a José Viale Moutinho ter privado com o Poeta. Um homem. De pé. Um Poeta-Cidadão a quem hoje ofereço quatro cravos vermelhos de saudade.

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