Ontem em Itália houve um referendo, que oficialmente seria sobre alterações à constituição, que visariam deixar o governo com as mãos mais livres para implementar as medidas julgadas prioritárias, ao que tudo indica, pelo sistema financeiro e pelas instituições supranacionais e internacionais, como o BCE, o FMI e a comissão europeia. A vitória do Não, com uma vantagem que não deixa margem a dúvidas, mostra evidentemente o desacordo maioritário dos eleitores em relação às políticas seguidas e às intenções de reforçar os poderes do governo. Como o governo de Matteo Renzi se tem alinhado pelas políticas inscritas nos tratados europeus e impostas pelas instituições europeias, a vitória do não é claramente um voto contra essas políticas. Isto embora os responsáveis das instituições europeias apareçam até ao momento a colocar-se de fora, isto é, fazer aquilo que se chama popularmente assobiar para o lado e fingir que não é nada com eles.
Alguns dirão que Renzi terá feito mal ao convocar o referendo. Que não deveria ter corrido o risco, e agora paga por isso, será a ideia que procuram fazer passar. Claro que não se sabe ao certo quais seriam as expectativas de Renzi, que talvez estivesse mesmo convencido de que poderia ganhar o Sim. Tem de se afirmar mais uma vez que nunca é errado auscultar a vontade popular, mesmo em situações profundamente condicionadas, como as que existem na Europa e nas chamadas democracias representativas em geral. A forte discussão que houve à volta do referendo italiano, apesar da pouca atenção que lhe terá sido dada pela grande comunicação social, incentivou a participação, que, pelas informações que conseguimos, terá sido próxima dos 70 por cento do total dos eleitores. A compreensão generalizada dos efeitos que teria a reforma constitucional proposta transformou-o num autêntico referendo sobre a acção do governo. E claro, das imposições das instituições europeias. Em boa hora.