O LIBERALISMO CONTRA A CONIVÊNCIA DAS ELITES -TRUMP, UM LIBERAL ANTI-SISTEMA – por VINCENT LEBRAY

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Alain Juppé e Hillary Clinton em Washington, junho de 2016. SIPA. AP21055672_000001

Vincent Lebray, Le libéralisme contre la connivence des élites-Trump, libéral anti-système

Revista Causeur.fr, 29 de Novembro de 2016 

O mundo está  chocado, até à náusea. Os  meios de comunicação social, mundializados,  isto para todos aqueles que se aguentam bem nos seus finais de mês.  Este mundo não viu nada a chegar. E  fica-se espantado com o espanto deles  ou condena-se  todos aqueles que  contestam   o resultado das  eleições  e corre-se o risco de ser considerado quase cúmplices  daquele que alguns  apresentaram  como sendo  o sucessor de Hitler…

Há três semanas, nos Estados Unidos, a maioria silenciosa  ganhou. Esta  encontrou na  pessoa de Trump o meio para se exprimir com força, com cólera e com frustração. Esta não partiu tudo, ela utilizou o voto para eleger um candidato anti-sistema, no respeito das regras estabelecidas. Há aqui um grito: ela quer que as coisas mudem.

Está-se bem na vida   e teme-se um regresso às horas mais sombrias? Não se poupem em palavras: o viver em conjunto não acontece por si-mesmo e satisfazermo-nos em manifestarmos o nosso mal-estar no Facebook não tem nenhum sentido dado que colocam o saber-viver em conjunto sob ameaça. Sim, é curioso mas a empatia funciona melhor que o desprezo para se viver em conjunto. Exprimindo a vossa consternação, nega-se uma vez mais ainda o vosso sofrimento e alarga-se um pouco mais o fosso entre cada um de nós e os outros.

Trump é a consequência de um sistema em falência, não a sua causa

Façam o esforço de compreender o sofrimento dos eleitores. Sintam a sua aflição, coloquem-se no seu lugar, ouçam. A mundialização cria riqueza mas deixa tanta gente abandonada pelo caminho. As suas filas engrossam, as suas inquietações também mas a sua inquietação é crescente quando se apercebem que a sociedade poderia muito bem funcionar   sem eles.

Desta vez, um  homem compreendeu este mal-estar e dirigiu-se a todos os que o sentiam com estrondo, prometendo uma boa limpeza à vassourada  e ignorando o  politicamente correto. Como ser um candidato anti sistema quando se é verdadeiro produto deste mesmo sistema? Fazendo-se rejeitar por este mesmo sistema. Ele organizou as suas saídas escandalosas, encaixou golpes, enfrentou as duras críticas emitidas pelo establishment e reforçando a sua proximidade para com os excluídos.

Trump é a consequência de um sistema em falência, não é a sua causa. Certamente, os seus excessos são chocantes mas a verdadeira ameaça para as nossas democracias não é a conivência das elites? A fraqueza dos poderes atuais, a atividade meio asfixiada, o apoio quase unânime da imprensa e do establishment em relação ao seu rival são uma realidade.

Quem melhor que Hillary Clinton encarna esta falência do sistema? Um número, fala por ela: 46,5 milhões de Americanos dependem de senhas de racionamento para se poderem alimentar.

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A conivência das elites é o que combate o [verdadeiro] liberalismo

Sobre o plano interno, os bancos mostraram-se de um cinismo absoluto em relação ao povo aquando da crise “do subprimes” mas chegaram a um acordo financeiro em vez de terem de apresentar contas.  Na Islândia, os banqueiros e os líderes que falharam acabaram por ir parar à prisão. Nos Estados Unidos, isso resolveu-se através de um  cheque.  Resultado: os Estados ficaram afundados em endividamento, os bancos foram  salvos… E partiu-se  novamente para uma corrida!

Desde 2008,  tem-se estado a comprar tempo, mas a economia mundial permanece num impasse: com Trump ou sem Trump, os próximos anos correm o risco de serem muito agitados.

As democracias ocidentais estão doentes. A legitimidade dos eleitos é inversamente proporcional ao abstencionismo que não deixa de continuar a subir. O clientelismo eleitoral, este cancro democrático, permite que as elites se mantenham. Se a soma de interesses faz por vezes uma eleição ela não satisfaz o interesse geral, o interesse comum.

Trump mobilizou os abandonados da globalização  e as classes médias que financiam um sistema que não os está a beneficiar em nada. Estas pessoas amam a sua liberdade. Querem um trabalho, em vez de um rendimento universal, querem um Estado forte que as proteja sem, no entanto, terem de se misturar todos. Trump voltou ao espírito do liberalismo para desqualificar o sistema atual: porquê dar mais poderes a um Estado que decide só se preocupar com aqueles  a quem beneficia com as suas larguezas?

A conivência das elites é um problema. É precisamente esta conivência que combate o liberalismo e que denuncia o povo ao votar contra os Democratas americanos ou os burocratas de Bruxelas.

As rejeições da democracia vão-se somando

Um indivíduo para quem a subsistência depende de um rendimento universal pago pelo  Estado não é um indivíduo livre. Vive dependente de quem o alimenta e por conseguinte é um sujeito dominado. O Estado gostaria de ajudar o povo mas este “imbecil” não compreende nada e prefere permanecer livre.

Na Europa, a maioria dos eleitores quer voltar a ter   o controlo do seu destino e considera que uma mundialização excessiva gera mais problemas do que aqueles que  resolve. Este desejo é expresso nas urnas desde há 10 anos (referendo de 2005, Grécia, Brexit…) mas é ignorado pelos dirigentes políticos. Como surpreendermo-nos com o regresso dos populismos enquanto que se vão somando os descontentes com a democracia?

Na França, os grandes partidos estão pró União Europeia. Somente Marine Le Pen quer deixar a zona Euro e reclamar-se-ia apoiar a ascensão de  Donald Trump. Têm, certamente, pontos comuns. O aborrecido é que  parecem ter em comum apenas as incorrecções.

Donald Trump jogou um jogo perigoso, o seu país sai cortado em dois. Suscitou espectativas fortes nos seus nos seus apoiantes e um ódio feroz nos seus adversários. Terá de obter rapidamente sucessos para colocar o país no caminho correto. E como o comentário é sempre mais fácil do que a ação, o perigo é bem real. Para dividir o país, Marine Le Pen fará o mesmo que Trump. Talvez mesmo melhor.

Como ele, Marine Le Pen quer mais protecionismo e também nunca exerceu o poder. Mas, sobre este ponto, a comparação fica-se por aqui.  Para relançar a economia e colocar  o Estado ao seu justo lugar, ela quer fazer o contrário dele.

Trump/Le Pen, como   Reagan/Mitterrand

Trump encara fazer regressar ao país as fábricas e os empregos. Quer por conseguinte diminuir a parte do Estado na economia para poder reduzir os encargos e os impostos que pesam sobre as empresas. Marine Le Pen, pelo contrário, é intervencionista e pensa que o Estado pode fazer tudo. Esta diferença é fundamental: ela propõe um pouco mais de mais Estado e deverá aumentar os impostos para o  financiar.  Trump promete menos Estado e apela à responsabilidade individual de cada cidadão.

De um ponto de vista económico, um paralelo pode ser feito entre estas duas personalidades políticas e os seus homólogos dos anos 80: Reagan et Mitterrand. O primeiro avançava um programa liberal para atrair os investidores, o segundo propunha um programa para fazer-se eleger, acumulando as soluções mágicas e as promessas demagógicas. As mesmas causas produzirão os mesmos efeitos.

Marine Le Pen herdou um partido liberal em economia e tradicional no plano social. O oportunismo eleitoral convenceu-a a abraçar  uma doutrina económica oposta para se fazer eleger.

Einstein disse: “não se resolve um problema com o quadro de pensamento  que o criou”.   Mas aí, ninguém é estúpido.

 

Vincent Lebray, Revista Causeur, Le libéralisme contre la connivence des élites-Trump, libéral anti-système. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/liberal-trump-fillon-populisme-etat-41342.html

1 Comment

  1. Finalmente, na Viagem, alguém com inteligência para ver na vitória de Trump a expressão da indignação política que atravessa os EUAN. Para mim trata-se da primeira rebelião da população ianque depois da sua Independência.CLV

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