Apesar da surpresa do ataque, a tripulação da Leeuwarden reagiu rapidamente e de forma muito incisiva e a luta logo se tornou encarniçada. O objectivo dos piratas era evidente: pilhar as mercadorias – vinhos, azeite, panos, matérias-primas e artefactos diversos, transportados pela carraca flamenga de Lisboa com destino a Veneza, e, sobretudo, fazer escravos. Nos mercados do Norte de África e do Levante os escravos europeus eram particularmente valiosos. Por isso, os piratas árabes e berberes evitavam tanto quanto possível, matar ou estropiar marinheiros, tentando aproveitar o factor surpresa. Despojada a carraca de tudo o que tivesse valor, ouro, prata, mercadorias, escravos, incendiá-la-iam. Na maior parte das vezes, as tripulações dos navios comerciais, apanhadas de surpresa, nem davam luta. Mas não foi o caso. Pelo contrário, a estratégia comercial usada pelos piratas favoreceu a defesa do barco.
Lourenço a quem o contramestre Jan Peter atirou, logo no início da refrega, uma espada e uma adaga, depois de o libertar das suas correntes, destacou-se no combate pelo seu destemor e perfeito domínio no uso das armas, revelando o profundo adestramento militar que recebera. Julián, embora mais fraco fisicamente e, sobretudo, bastante menos destro, também não se portou mal, revelando alguma perícia no uso da adaga. Jan Peter, lutou ferozmente como um animal acossado, não se limitando a repelir para fora do barco os invasores, pois matou quantos podia, com a espada ou com o punhal. Os seus homens de mão, Joris, o gigante e o glabro comitre Wouter, bateram-se também como loucos. Quanto a Eduwart, o «anão vermelho», empoleirado numa enxárcia e munido de uma pequena besta, apontava-a cuidadosamente e ia abatendo assaltantes com virotes bem colocados. O capitão apareceu logo no início, vestindo uma cota de malha e com a cabeça protegida por um bem polido morrião. Exibindo apreciáveis dotes de esgrima, lutando com frieza e perícia, liquidou alguns assaltantes.
Mais estranho foi o comportamento de Muhammad, o silencioso tripulante mouro. O seu zelo religioso fora sempre exemplar, com as cinco abluções e orações diárias feitas na direcção de Meca, a recusa de comer carne de porco e demais preceitos do islamismo. Sempre persistira no hábito de não falar, ao ponto de se ter consolidado a ideia de que era mudo. Porém, quando os piratas mouriscos atacaram a carraca e se espalharam pelo convés soltando os seus gritos intimidatórios, lutou como um possesso, primeiro desarmado, estrangulando os inimigos com as mãos nuas ou derrubando-os com ferozes socos aplicados nas cabeças, e depois com um punhal que, Jan Peter, perante a sua bravura lhe atirou. À sua conta abateu numerosos assaltantes, muçulmanos como ele.
No final do combate, que decorrera tão rápida quanto ferozmente, todos estavam cobertos de sangue da cabeça aos pés. Perante a forte resistência vinda de uma nave de comércio, geralmente presa fácil, os corsários foram forçados a bater em retirada para salvar as vidas. A sua actividade era um negócio e não merecia a pena perder a vida por um negócio. Porém, nem todos conseguiram poupar a vida, pois, após o chefe ter mandado retirar, quando se afastaram ainda perseguidos por uma nuvem de tiros de arcabuz e de virotes de besta, mais de trinta corpos juncavam o convés. A nave perdera dois tripulantes e ficou com cerca de uma dezena de feridos com diversos graus de gravidade. Anton, o físico de bordo iria ter, nos dias seguintes, bastante trabalho pela frente. Entre os muitos inimigos abatidos, oito deles mostravam sinais de vida e possibilidades de recuperação. Jan Peter poupou-os para, se fosse possível curá-los, serem postos a trabalhar nas mais duras tarefas de bordo, principalmente junto dos remadores.
Até lá, seriam tratados dos ferimentos e alimentados. Na perspectiva do contramestre, o assalto dos corsários fora uma bênção, pois veria a chusma de remadores reforçada. Por outro lado, a luta aumentara a solidariedade entre os membros da tripulação, esbatendo pequenas quezílias e antipatias geradas pela rotina de bordo. Os corsários tinham perdido a presa e haviam-se eles próprios convertidos em presas. A história do lobo que indo tosquiar ovelhas, viera tosquiado, repetira-se. Começou-se, portanto, a lançar os mortos ao mar. Enquanto ajudava os demais tripulantes nessa missão, ao mesmo tempo que o capitão recitava versículos das Sagradas Escrituras, Lourenço teve, pela primeira vez na viagem, direito a um sorriso do contramestre. Era um prémio para o seu comportamento em combate.
Nos dias seguintes, a recordação do ataque quebrou a monotonia de bordo, fornecendo motivo para conversas e para alguma mitificação daquilo que realmente ocorrera. Os pobres homens forjavam uma lenda em torno do incidente, que era, afinal, coisa vulgar. Só Muhammad se manteve à margem de toda a agitação e euforia verbais.
Desde há muito, o corso e pirataria eram actividades legítimas. Cristãos, mouros, europeus, africanos, chineses ou hindus, as praticavam sem que isso ferisse a honra de suas nações. Entre a Cristandade, bulas papais desde Nicolau V atribuíam a Portugueses e a Castelhanos direitos de soberania sobre os mares. França e Inglaterra, para falar apenas em duas nações cristãs, esquecidas nessas bulas por não acrescentarem novas terras ao conhecimento do mundo, praticavam este tipo de acção comercial, com largos proveitos, pois por vezes pilhavam navios portugueses e castelhanos carregados de ouro, de especiarias ou de madeiras raras, trazidas com de longínquas paragens. Como diria Esopo, estrídulas cigarras, sem esforço, saíam ao caminho das diligentes formigas e colhiam as suas provisões e riquezas.
Os piratas, sobretudo os da Costa Bárbara, flagelavam não só o mar Mediterrâneo, aventurando-se também para longe dos seus territórios nas costas ocidentais da Europa, em Portugal, na Galiza e Astúrias, em França e Inglaterra, na Flandres e Alemanhas. Apresavam escravos, pois os cristãos europeus, sobretudo as mulheres, eram vendidos por bom preço nos mercados de Argel, Fez e Tetuão. Por vezes saíam-se bem. Outras, eram dizimados.