CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – FUTIMBOL

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5-a

É inconcebível.

Uma pessoa janta um pouco mais tarde, pretende ver algum noticiário possível e leva logo com o Sporting, com o Benfica e com o Porto (não sei se há mais clubes) em canais nacionais de um ao sete, ou mesmo ao oito ou ao nove. Ou dez.

Leva com aquilo, é verdade, mas não pense que se trata de jogos transmitidos – que até podiam ter a sua estética, a sua emoção, a sua, enfim, beleza.

Não. Leva com 30 intelectuais do futebol (três por canal) e mais o inteligente que os interpela, os organiza e os propõe. E grama com hordas de ideólogos e demais inúteis e mentecaptos comentadores, cheios de prosápia e savoir faire, ar sério, circunspecto e sabedor, a cagarem futebolísticas postas, como se o que afirmassem fossem conceitos, axiomas ou postulados de uma alta, encorpada e indiscutível tese matemática ou mesmo algo dedicado às artes.

É uma tristeza?

Pois é, para além de uma inutilidade repetida em lugares mais que comuns, deixas caricatas e peremptórias afirmações, quase como se fossem eles a terem jogado, a estar em campo. Sabem tudo, os nomes e alcunhas dos jogadores, o tipo de meias, camisas e gravatas que usam, explicam tudo, o caminho das pedras e das jogadas e formam ou ajudam a formar posteriores e importantes discussões ao almoço, em táxis ou no barbeiro – conhecidos e importantes foruns de trocas de ideias deste amável e futebolístico povo.

E é graças a este amável e futebolístico povo que estes programas proliferam, insistem e se desdobram diariamente e ad nauseam. E é graças a este amável e futebolístico povo e à sua enorme adesão a tais imbecilidades televisivas, que eu e vocês não conseguimos ver mais nada àquelas horas televisivas ditas nobres!

Nobres!

carlos

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