CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – REDES SOCIAIS

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5-a

 

Gostava de ser alienígena.

De um outro planeta qualquer (melhor que este, evidentemente) e poder observar – como quem observa moluscos ou quaisquer outros seres inferiores, na escala biológica – esta curiosa e incompreensível raça superior (como a si próprios se auto-denominam) de afadigados terráqueos.

Afadigados no sentido de estarem sempre a lixar-se uns aos outros, a auto-destruir-se e a darem cabo da sua própria civilização e raça, como nenhuma outra classe de mamíferos é capaz de o fazer. Nem os anuros. Ou os equinodermes. Quelónios ou teleósteos.

Ácaros. Protozoários.

Há duas coisas que me confrangem (e espantam) nessa tal raça que supostamente observo, de uma outra galáxia: 1) a estupidez (certamente congénita) que lhes preside enquanto sociedades organizadas, algo que vai estranhamente piorando no sentido inverso das (vamos lá) razoáveis conquistas tecnológicas – destinadas em princípio a melhorar-lhes o estatuto e o circuito de vida e 2) a crescente generalização dessa competente imbecilidade, cada vez mais desenvolta e abrangente, (curiosamente graças aos tais avanços da tecnologia) através de uma coisa a que chamam “redes sociais” e à qual têm um apetitoso e desaustinado acesso, mesmo sem nada perceberem de nada, nem da alta tecnologia e criatividade científica que lhes colocou à disposição tão incríveis felicidades e ocupações do seu desperdiçado tempo.

Qualquer coisa que aconteça, descubra ou aparentemente (muito aparentemente) possa parecer inquietante ou de alguma importância, lá está a importante reacção e opinião das tais “redes sociais” – a lembrar aquele selvagem e cruel povo dos circos romanos, exibindo um polegar voltado para cima ou virado para baixo, consoante lhes dava na gana elogiar ou condenar um qualquer desgraçado por ali exposto, em cruéis divertimentos com que os povos deste planeta que observo sempre se divertiram.

Os próprios e supostamente profissionais da comunicação social, os chamados media, passam a vida a referir-se a isto e àquilo – do ponto de vista das “redes sociais” –  como haver, por exemplo, uma “condenação generalizada” acerca de qualquer assunto dado a conhecer, ou pelo contrário, tal suposto evento ser o máximo, estar a “fazer furor” naquela massa, naquele magma ignorante e anódino de diminuídos cerebrais.

Fazer furor! Irritante e carneirante expressão. Quem se enfurece, se exalta ou se emociona, sou eu! – quaisquer “eus” – quero lá saber das “redes sociais”! Uma coisa viscosa, larvar, gordurosa, gotejante e peganhenta, sem alma, sabedoria, princípios, valores ou cultura. Acéfala, mal empregada e infelizmente jovem, na sua postura cada vez mais comum, cada vez mais abrangente.

Porque afinal (segundo observei do espaço) as coisas boas e belas que ainda assim existem e existiram naquele burrié terrestre que uma dia um deus mal disposto retirou do nariz e amandou para o espaço (Guerra Junqueiro, “A velhice do Padre Eterno”) tais como a música, a literatura, a ciência e as artes em geral – estão na origem e criação de apenas uns poucos deles, de uns quantos, raros e misteriosamente mais desenvolvidos, de entre aquele formigueiro inconsequente, daquelas baratas tontas sem nexo nem sentido.

Mas são poucos. Sempre o foram. Não conseguiram nunca modificar, melhorar ou fazer evoluir o resto. Nada.

Acho que vou voltar para minha galáxia, pôr os motores a aquecer, deixar o sistema solar o mais depressa que puder, de agoniado que estou. E assim que lá chegar, elaborar de imediato um bacalhau à Gomes de Sá e discutir com ele os grandes problemas  da humanidade e do universo.

carlos

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