O tempo passa, ou melhor, transforma-se noutro tempo. Esse outro tempo é pacífico para muitos, mas para outros está cheio de inquietudes.
A inquietação faz mover a coesão social. A inquietação interpela, cria novos momentos em que o tempo nos surpreende com a sua lógica ou com o seu sobressalto.
Os homens, as mulheres e as crianças vivem as suas inquietações resultantes de passados que só eles a podem valorar.
Por vezes, o tempo que é considerado passado, incapacita-nos de nos definirmos em relação ao agora.
Muitas vezes o passado serve como porto de abrigo para certas inquietações e a invisibilidade dos homens, das mulheres e das crianças faz com que ao observar o tempo recusem um tempo diferente, porque se sentem inseguros.
O tempo traz consigo hesitações, dúvidas, ausência de tranquilidade.
Depressa o tempo se torna num entre-tempo, como diz José Mário Branco “há sempre alguma coisa para acontecer”.
A inquietação vai transitando de tempo em tempo criando outras inquietações.
A violência contra as mulheres e contra as crianças não tem tempo, mas tem inquietação que se vai registando em gráficos, percentagens, número de vítimas, em denúncias, em medidas de protecção que têm sido concretizadas devido também à inquietação de muitos alguém.
Mas e o tempo? Será o mesmo para todos? A finalidade (se é que a há) da humanidade é a procura do seu bem-estar através de inquietações várias que compõem as variedades, as diferenças e as semelhanças entre tudo e todos.
A inquietação continua e a violência também.
A inquietação está inscrita no nosso “eu”, mas e a violência?
Como se pode ficar com esperança sem inquietação?
Os meios de comunicação social mostram-nos, à saciedade, que o tempo não é igual para todos, não vivemos todos no mesmo tempo!
Quantos povos já foram massacrados por ditadores?
Quantos Alepo não houve no decorrer do tempo?
Quantos cessar-de-fogo foram anunciados?
Ainda não inquietaram suficientemente a humanidade que agora assiste à guerra em directo, que assiste ao pedido sofrido das crianças da Síria que só querem “ir embora da guerra, comer e beber”.
Estas crianças vivem no meu tempo? não, não vivem, mas estão no meu tempo.
Neste tempo que nos acompanha vemos sociedades inteiras a querer o seu bem-estar e a serem massacradas até à morte, a serem vítimas da total falta de respeito pelos Direitos da Humanidade.
Andamos a discutir o que está à volta dos problemas, mas não os problemas.
Não há falta de pessoas generosas que voluntariamente vão sarar as feridas deixadas nos corpos que vagueiam pelas ruas, mas quem sara a ferida maior, a da inquietação de não saber o caminho a percorrer? A inquietação do agora e do depois.
Há quem presenteie os refugiados de guerra e lhes viole as mulheres.
Há uma guerra enorme no mundo, e nós a assistir à mudança de hábitos, de costumes, de línguas, à mudança das armas de guerra, sabendo que a violência individual ou a violência estatal matam da mesma maneira…
A humanidade dá sinais de mal-estar, mas a vida é curta para tão significativo passado e para tão incerto futuro.
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer Qualquer coisa que eu devia resolver Porquê, não sei Mas sei Que essa coisa é que é linda.