Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos – O salário comum (Parte A)

Selecção de Júlio Marques Mota

Revisão de Francisco Tavares

Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos

Uma série de 8 textos

(TEXTO II) O Salário comum (Parte A)

Neste primeiro texto examinamos os salários, elemento determinante do alargamento das desigualdades nos EUA. Os salários levantam duas questões distintas: porque é que os salários das classes superiores aumentaram, porque é que os salários das classes inferiores, da parte baixa do decil 80-90, se reduziram?

Nesta primeira parte analisaremos a redução dos salários da parte baixa do decil 80-90 dos contribuintes americanos. É com efeito necessário mostrar que o processo de alargamento das desigualdades nos EUA é antes do mais um processo interno que pouco deve à globalização, explicação esta a que se recorre com demasiada ligeireza.

Os salários [da parte baixa do decil 80-90 serão aqui designados como o salário comum porque a sua formação surge da tradicional oposição capital-trabalho. Certamente, uma fração destes salários são de gente na administração pública. Mas o peso reduzido do emprego público (20% aproximadamente dos assalariados) e o alinhamento do seu estatuto social sobre o sector privado – o empregado para a vida é coisa desconhecida nos EUA – permitem que estas análises conservem toda a sua pertinência.

Trataremos no próximo artigo os salários mistos pagos no topo da escala salarial.

A – Análise dos dados

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A análise dos salários comuns reais indica muito claramente o que aconteceu aos contribuintes americanos. Os salários reais das classes inferiores (azul), representando os contribuintes abaixo do percentil 50, reduziram-se durante os últimos vinte anos.

As classes médias (verde) tiveram mesma evolução: os salários comuns de 50 a 80% dos americanos registaram uma erosão regular durante todo o período 1993-2011. Os salários comuns das classes médias superiores (preto em picotado) estagnaram depois da crise do milénio antes de ver o seu nível real reduzir-se a partir da crise de 2007.

Por si sós, os salários comuns reais dos 10% de topo (preto contínuo e vermelho) aumentaram regularmente com contrações para alguns deles, contrações às quais retornaremos quando tratarmos, no nosso próximo texto, dos salários mistos.

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A repartição do salário em parte põe em evidência a queda dos salários comuns recebidos pelas classes inferiores (Azul), o recuo por parte das classes médias (verde), incluindo a inversão do crescimento por parte das classes médias superiores (Preto com picotado), e mostra também a parte crescente dos salários captados pelos 10% de topo (Traço preto contínuo + traço vermelho).

Por conseguinte torna-se necessário explicar como é que em vinte anos o valor real e a parte de salário comum relativamente ao rendimento global de perto de 90% dos americanos puderam cair, queda esta que vem desde os anos Reagan. Vamos explicar, mais concretamente, como é que foi organizada uma baixa dos salários abaixo do percentil 90, tendo permitido o aumento dos salários dos outros (os 10% de topo).

 

B – A queda dos salários e os efeitos limitados da globalização

É comum considerar que a queda dos salários – comuns – da maior parte dos Americanos não se explica pela perda dos empregos industriais subsequente ao retrocesso da produção industrial sob a ação das importações de bens manufaturados estrangeiros. Esta ideia é acompanhada de uma segunda afirmação: a queda dos salários explica-se pela generalização dos empregos de serviço menos remuneradores.

Esta tese considera que a causa da subida das desigualdades deve-se ao estrangeiro. É muito largamente falsa e assenta em argumentos falaciosos. É verdade que a desindustrialização dos EUA, remontando aos anos 70, teve por efeito o retrocesso de uma classe operária que se tinha enriquecido; os salários oferecidos pela indústria tinham permitido nos anos 50 fazer entrar uma massa de assalariados americanos nas classes médias cuja base social era bem mais larga que hoje.

Mas para que esta tese esteja certa, seria necessário admitir que os salários oferecidos nos serviços foram claramente mais baixos desde há mais de trinta anos que os salários oferecidos na indústria. Para afastar esta tese, vamos contrapor o sector dos serviços ao sector da produção material (sector transformador, construção, agricultura, silvicultura, pesca, minas e pedreiras) onde a indústria é preponderante. Resumiremos uma demonstração já feita várias vezes no nosso blog tomando como base os dados de BEA [Bureau of Economic Analysis dos EUA] Section 6 – table NIPA Income and Employment by Industry.

Tomando os dados do BEA, mostrámos que a produção em valor nos serviços teve a mesma evolução que a produção em valor no sector da produção de bens durante todo o período da desindustrialização dos EUA. É somente a partir do fim dos anos 90 que esta tendência se alterou, conhecendo os empregos de serviço uma baixa de valor produzido por assalariado equivalente a tempo inteiro e por hora de trabalho. Mas a produção de valor nos serviços suporta os salários, não é em si-mesma sinónimo de nível de salário.

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Se nos virarmos para a análise dos salários, constatar-se-á primeiramente que os salários oferecidos pelo sector da produção dos bens materiais não estão todos acima da remuneração média do sector privado (Private industries). Mais importante ainda, os salários da indústria transformadora (Manufacturing) não estão muito acima da média dos salários, embora sejam, de longe, os mais numerosos. Esta observação é ainda mais verdadeira no que respeita aos salários da construção. Quanto às minas se os salários aí são muito elevados, o número de assalariados é relativamente fraco em relação ao total.

Se nos virarmos para o setor dos serviços, importa constatar que muitos sectores são extremamente remuneradores, como a grande distribuição (Wholesale trade), os empregos na finança e nos seguros ou relacionados com a direção das empresas (management of entreprise and companies.) ou dos serviços profissionais científicos ou técnicos. Os empregos na informação entram na mesma categoria. Por conseguinte, os empregos de serviços muito remuneradores contrabalançaram a evolução de desaceleração dos empregos da produção material.

Refira-se ainda que há grandes sectores dos serviços que são vizinhos da média das remunerações dos empregos da produção material como os empregos no imobiliário (real estate and rental and leasing), nos transportes e no armazenamento (transportation and warehousing) ou ainda no enorme sector dos cuidados de saúde e dos serviços sociais (Health care and social assistance).

Existem, por último, os serviços de remunerações inferiores à média que agrupa muitos assalariados (educação, ofícios do espetáculo, os lazeres e as artes, a restauração e turismo) mas estes serviços não têm por si sós o poder de forçar os salários à descida. Frequentemente argumenta-se com a existência destes últimos sectores para explicar a baixa geral dos salários nos EUA.

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Na realidade, uma análise dos salários pagos por empregado a tempo inteiro mostra que este último argumento é inexato. Os salários dos serviços são ligeiramente inferiores aos da produção material. A sua substituição por conseguinte gerou uma menor remuneração dos assalariados americanos, mas não ao ponto de provocar a queda geral dos salários em virtude da substituição dos empregos industriais que dominam a produção material pelos empregos de serviços. Notar-se-á que uma avaliação mais precisa dos empregos tem, por outro lado, reduzido esta diferença das remunerações salariais a quase nada a partir 1998. Segue-se que a diferença das remunerações dos empregos de serviço e da produção material pôde ter estado sobreavaliada entre 1980 e 1998.

Afastamos, finalmente, um último argumento frequentemente avançado: a baixa dos salários explicar-se-ia pela multiplicação dos empregos a tempo parcial. A análise dos dados do BEA não permite defender esta tese como se demonstrou já nos textos anteriores.

A globalização afetou a divisão nacional do trabalho no sector privado nos EUA em detrimento da indústria. Mas não criou com isso uma base de empregos menos bem remunerados que permitiria explicar a baixa dos salários e sobretudo a sua polarização para o topo. Porque se os salários dos serviços fossem globalmente mais baixos, então o nível dos salários dos 10% de topo teria também tido uma baixa com a generalização de serviços e o retrocesso da produção material.

O gráfico IRS não deixa sobre este assunto nenhuma dúvida: se a base produtiva dos EUA tinha sido composta de empregos de serviços claramente menos bem pagos que os da indústria que eles vieram substituir para manter o crescimento, é o conjunto da progressão dos salários reais que teria sido afetada, incluindo os salários reais dos 10% de topo. Todos os salários reais por conseguinte teriam tido geralmente tendência a aumentar muito ligeiramente. Não é esta constatação que os nossos gráficos permitem mostrar.

Os empregos de serviços que vieram tomar o lugar dos empregos industriais destruído não são por conseguinte a causa da baixa dos salários de 80 a 90% dos Americanos.

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A curva de evolução dos salários reais não parece mostrar uma estagnação dos salários dos contribuintes americanos. Há estagnações em período de crise, no resto do tempo, o crescimento real dos salários declarados é caracterizado por um dinamismo sustentado. É a prova de que a generalização dos empregos de serviços não pesou negativamente sobre a progressão dos salários que não se reduziram abaixo do decil 80-90 dos assalariados senão em razão do aumento dos salários dos 10-20 de topo dos assalariados.

É provável que o retrocesso por parte da indústria na produção das empresas privadas tenha desempenhado um papel na baixa dos salários reais americanos. Mas este papel não foi central e, sobretudo, não permite compreender o formidável retrocesso do valor absoluto e relativo dos salários de 80 a 90% da população americana.

O comércio externo americano – cada vez mais deficitário – não permite, pois, esclarecer a formidável modificação da repartição dos salários desde há cerca de trinta de anos entre as diferentes classes sociais americanas. É necessário por conseguinte examinar os fatores internos do aumento das desigualdades salariais. A globalização é uma explicação demasiado fácil que dissimula os meios necessários e indispensáveis à organização da subida das desigualdades como o mostraremos nos nossos textos.

Notar-se-á, por último, que o nível dos salários das administrações públicas foi neutro: os salários sendo ligeiramente superiores à média da indústria privada sugerem que os salários da indústria privada no seu conjunto tiveram a mesma evolução que os salários das administrações privadas. O peso da remuneração dos assalariados das administrações públicas no total dos salários pagos não têm o peso suficiente para invalidar as análises que se seguem.

(continua)

Introdução geral aos textos II a VII: Uma economia subjugada- (Parte B)

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