EDITORIAL – Uma «Flor de Maio» plantada em Dezembro

logo editorialEm 21 de Dezembro de 1620, chegavam ao Novo Mundo os 102 Peregrinos vindos da Europa, de Southampton – puritanos que queriam ver-se livres da Igreja Anglicana, no fundo, nos princípios, na disciplina litúrgica, semelhante à Igreja Católica Apostólica Romana. A questão entre Londres e a Santa Sé começara no século anterior. Henrique VIII (1491-1547), rei de Inglaterra e da Irlanda, impôs a autoridade papal nos seus reinos e foi um fiel respeitador da Igreja de Roma. Combateu ao lado das forças pontifícias (Santa Liga) contra as forças francesas de Luís XII. Mas não queria receber ordens do seu aliado. Queria casar com quem lhe apetecesse ou fosse útil aos seus interesses políticos e à sua estratégia de alianças; queria casar ou divorciar-se, mandar decapitar ou enforcar as esposas descartáveis e os inimigos, quando isso lhe parecesse útil. O que tinha Roma a ver com o assunto? Era um aliado de Roma, mas não um mordomo do Papa. Por mais injustas que fossem as acusações de adultério ou de conspiração, metia na Torre e entregava ao carrasco quem lhe aprouvesse – lei, justiça, códigos jurídicos, que fizessem bom proveito a Sua Santidade. O poeta do Orpheu, Raul Leal, ao constar-lhe que, devido aos seus desmandos (entre eles, escândalos sexuais e orgias, bem como a criação de uma nova religião, o paracletianismo) pendia sobre a sua cabeça a ameaça da excomunhão, afirmou – «se o Papa me excomungar, eu excomungo o Papa!»

Como se sabe, a  invenção da imprensa veio agravar as tensões existentes no seio da Igreja ao permitir uma rápida difusão dos textos bíblicos. Por assim dizer, uma entrega directa do produtor ao consumidor e potenciando novas interpretações dos textos sagrados, desmantelou a unidade que os concílios fabricavam e a hierarquia policiava e mantinha.  E houve as confrontações pavorosas que se sabe, como foi o caso da Noite de São Bartolomeu (1572) em que os católicos perseguiram e assassinaram (somente em Paris) três milhares de huguenotes – era assim que designavam os protestantes. Fala-se de muitas dezenas de milhares de mortos em França. Foi deste incêndio que os peregrinos do Mayflower fugiram, escapando ao mesmo tempo das regras anglicanas que lhes pareciam obsoletas. Chegaram nesse distante 21 de Dezembro ao Novo Mundo e as peripécias por que passaram são conhecidas.

E  criaram a bonita obra que são os Estados Unidos. Uma nação que começou alicerçada em boas intenções. mas que logo se transformou no império mais desprezível que o Sol ilumina. Exterminaram os autóctones e globalizaram a maldade, a especulação e a exploração das riquezas alheias. Os Estados Unidos são o território onde se gera o terror.

A  Mayflower bem podia ter aportado mais a Sul. O calor tropical talvez tivesse evitado o que aconteceu depois com o «nascimento de uma nação» que não fazia qualquer falta. Um mundo onde imperam princípios estúpidos e bebidas como a «Coca Cola», não merece existir-

God bless America.

3 Comments

  1. Felicite-se a “Viagem dos Argonautas” pelo texto publicado mas ressalto, com todo o meu agrado, as últimas linhas. Aportassem onde quer que fosse tinham tudo quanto é preciso para infectar.CLV

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