EDITORIAL – A FÁBRICA DOS SONHOS

logo editorialA curta genealogia da indústria cinematográfica tem um ponto alto na invenção do daguerreótipo e, poucos anos depois, na criação da fotografia. Inventada a fixação da imagem e sabendo-se que com a passagem em sequência dessas imagens se produzia uma ilusão de movimento, o resto foi rápido. Foi no dia 28 de Dezembro de 1895, faz hoje 121 anos, que, na cave do Grand Café, em Paris, era exibido um pequeno filme «Sortie d’une usine” – os filmes eram curtos – 40 segundos – não se podia ainda falar de «cinema», mas os irmãos Lumière, os inventores do cinematógrafo, haviam desencadeado um processo de consequências que na época não podiam ser previstas.

Embora olhado com alguma sobranceria pelos que consideraram o cinema como um mero número de circo, pouco mais de três décadas depois, inventado o sistema sonoro, o cinema criara uma estirpe de consumidores de sonhos – os cinéfilos. Nos anos anteriores à II Guerra Mundial, havia quem não pudesse passar sem o filmezinho semanal. E a chamada sétima arte criou obras-primas, fixou em imagens grandes romances, proporcionou o aparecimento de grandes actores, realizadores, guionistas… Perante certas obras cinematográficas (e prometemos a nós mesmos não referir títulos ou nomes) é inevitável o deslumbramento.

Foi durante a II Guerra Mundial (e depois durante a «guerra fria») um poderoso meio de propaganda política – os estúdios americanos, ingleses, a UFA hitleriana, não tinham mãos a medir. Mas nada é eterno. O avanço tecnológico criou a televisão que não é mais do que o cinema instalado em nossas casas – sonhos  e pesadelos (não faltará muito para que as personagens ganhem espessura e as nossas casas sejam campos de batalha, estádios de futebol, ninhos de amor, esconsos recantos de assassínios…

E sempre, mas sempre, o aproveitamento político, sociológico, ideológico, acompanhando o avanço técnico de uma indústria que nos vende ilusões e nos torna heróis, assassínios, vítimas ou cúmplices de crimes… No entanto, sempre foi assim. A arte sempre  serviu de veículo  a ideias – faria sentido que assim não fosse?

Vejam Sortie d’une usine, de 1895.

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