A GALIZA COMO TAREFA – quem passa a Marola – Ernesto V. Souza

A gente galega temos muitas e variadas virtudes, também notáveis defeitos, mas nisto como em tudo a perspetiva e o costume é quem decide, dando-se o pasmoso caso de, não poucas vezes, as que muitos de nós consideramos ser virtudes, passem por defeitos nos olhos alheios e – atenção e a contrário – aqueles nossos defeitos são consideradas virtudes noutras e próximas partes.

Com isto acontece que noções, gestos, modos, prosódias, claramente associadas para nós à hospitalidade, à cortesia, à mesa, aos modos e respeitos no falar, à proximidade, à marcação da inteligência, do status, da advertência, da ameaça, carecem completamente de sentido, passam desapercebidos ou são equivalentes a outros significados por vezes e até opostos.

Os galegos, pelo nosso frequente e antigo contacto com outras gentes e pelo nosso acervo coletivo como viageiros experimentados estamos advertidos deste fenómeno pelos nossos maiores, através de inúmeros ditos, cantigas, contos e conselhos e também pela nossa literatura mais clássica e popular.

Bem mirado a comunicação com membros doutro clã exige claramente ter isto em conta e aí entra em jogo a proverbial diplomacia galega. O que se multiplica se ultrapassarmos os marcos doutra paróquia. Uma vez aí, com isto bem apreendido e superada a prova, qualquer galego ou galega já pode andar o mundo, que como bem diz o dito marinheiro da Crunha, “quem passa a Marola, passa a mar toda”.

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Sendo os nossos portos nodos centrais no comércio mundial desde a antiguidade, podendo andar o mundo, e tendo chegado por próprio pé ou dacavalo desde o princípio dos séculos, ou em naus de bandeira portuguesa e trasatlânticos alemães, holandeses e ingleses e ultimamente de avião a todas as partes do orbe  incluída a Ásia e a Oceânia já no Renascimento, e tendo ganho fama de gente trabalhadora, séria adaptativa e de notáveis capacidades comunicativas noutras latitudes (especialmente com Britanos, Galos e Portugueses), é curiosamente com os nossos vizinhos do Leste que a comunicação continua difícil.

Com os castelhanos, ante os que qualquer galego se maravilha depois do primeiro shock, que logo de tantos séculos de proximidade e frequência continuem tão planos, pouco matizados e com modelos de baixo contexto, enfim diferentes nos seus códigos expressivos e comunicativos. E o que é pior, incapazes de compreenderem que fora das suas casas e fronteiras podem existir não apenas outras línguas quanto umas outras culturas comunicativas, nas que é preciso se mergulhar antes para tratar de perceber.

E tanto é assim que resulta fascinante ser possível qualquer comunicação sem um esforço compreensivo e cansativo da parte galega para tratar de simplificar e reduzir o sistema comunicativo a elementos inteligíveis para eles.

Disto não maravilha a quantidade de galegos que trabalham na administração, governo, em departamentos e postos diversos do Reino e das grandes empresas, atuando na sua maior parte com funções de intermediação, comunicativas, educativas e diplomáticas, não apenas com o exterior mas também e mais frequentemente para facilitar e simplificar a comunicação entre eles.

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