Estavam, pois, prestes a chegar ao seu destino, à Sereníssima República de Veneza. Beneficiando de bom tempo, temperado por um vento favorável à navegação, desde que, a mais de meio do mar Adriático, tinham deixado já para trás a grande cidade de Ancona, de cujo vasto casario sobressaía a bela cúpula bizantina da catedral, a carraca flamenga aportou, como mandavam as normas das autoridades da República para a acostagem dos navios estrangeiros – fossem naus ou galés de guerra ou de comércio – ao molhe da Riva degli Schiavoni (Ribeira dos Dálmatas), um pequeno cais situado a pouco mais de cem toesas de distância da grande Praça de São Marcos, local onde palpitava o verdadeiro coração da majestosa cidade lagunar.
Nos dois dias que antecederam a chegada ao porto de destino, particularmente de pois do incidente da morte de um dos homens com quem jogava e bebia, Jan Peter, alterara, para pior, o seu comportamento, passando a estar quase sempre embriagado ou, pelo menos assim parecia ser, pois os seus gritos e grosseiras invectivas, caso não se devessem ao excesso de vinho ou cerveja, só a insanidade mental podiam ser imputados. O azedume acentuara-se de uma forma insuportável, embora aquela raiva fosse quase sempre dirigida contra Julián. O que Lourenço não compreendia, pois o andaluz era tímido, humilde e respeitador. Ao capitão, Jan Peter respondia também de forma desabrida e descortês, raiando as fronteiras da insubordinação. No que dizia respeito a Lourenço, que, como sabemos, o espancara, o irascível flamengo parecia pretender ignorá-lo, senão mesmo, à sua brutal maneira, por ele sentir alguma consideração. Deixava-o em paz e aceitava a sua posição de responsável pela defesa do navio, tendo-lhe até entregue de livre vontade para melhor desempenho de tal incumbência mais cinco tripulantes robustos. Talvez por conhecer a sua história e a missão que tinha de cumprir. Isto ocorrera quando do aparecimento da tal fusta argelina ou tunisina. O contramestre não fora também avaro na distribuição de armas, reforçando a equipação do pequeno grupo militar, agora composto por dez homens, com mais espadas, piques, adagas, bestas e até três arcabuzes, bem como uma esguia columbina, pequeno canhão portátil que manobrado por dois homens, ainda que de pequeno alcance, podia causar uma grande, embora localizada, devastação. Era de grande utilidade, sobretudo, antes da abordagem, disparada sobre o bordo acostado da nave inimiga, ou mesmo já durante o combate, pois facilmente destruía pequenas concentrações de guerreiros adversários.
Em suma, Jan Peter, que nunca tivera um carácter amável, tornara-se agora, desde a morte de Eduwart, insuportável. Num desses assomos de raiva, na véspera da chegada a Veneza, com base no que pareceu ser uma inocente pergunta do andaluz sobre se haveria muitas tavernas no porto de Veneza, tentou-o agredir de novo, e não se coibiu de insultar soezmente o comandante quando este interveio a favor do rapaz, impedindo-o de o espancar. Lourenço, reflectindo depois sobre o incidente, achou que afinal a pergunta de Julián talvez não tivesse sido tão inocente quanto isso, pois ao fazê-la olhara de soslaio para o contramestre. Despeitado pela intervenção do capitão em seu desfavor, Jan Peter, entre dentes, rosnou audivelmente, «vieshond», algo como «cão nojento», dirigindo-se a Van der Meer. O capitão ouviu o insulto e encarregou Lourenço e os seus homens de porem o contramestre a ferros durante o tempo que faltava para a chegada. Com uma mansidão surpreendente, deixou-se acorrentar e conduzir ao porão, limitando-se o dizer enquanto desciam as escadas:
– Tu Lourenço, muito estúpido. Não entenderes nada – e cuspiu, num gesto que fez lembrar ao rapaz o seu bisavô.
Quando, na tarde de domingo, acostaram, foi expulso do navio. Joris e o comitre Wouter, seguiram-no. Apesar do mau feitio do contramestre, o português não pôde deixar de se condoer da situação em que a criatura ia ficar, abandonada num país estrangeiro. Não acreditara na ferocidade com que o flamengo exigira, dias antes, o seu enforcamento. Só podia ser uma farsa, pois logo em seguida voltara a manifestar-lhe uma consideração diferente da que atribuía a Julián e ao próprio Van der Meer. O capitão, adivinhando-lhe os escrúpulos, garantiu-lhe que Jan arranjaria colocação a bordo de outro navio, pois sempre faltavam braços nas viagens de regresso, dadas as mortes verificadas nas vindas. Escorraçado para o cais, saiu sem opor resistência, mas gritando insultos, pragas e ameaças em diversas línguas, sobretudo em neerlandês. Lourenço não entendia o que dizia, mas pelo tom, adivinhava-se que não seriam orações celestiais. Pensando ser o contramestre o agente da Coroa, ficou apreensivo – quem lhe transmitiria agora as instruções, quem lhe daria o dinheiro, quem lhe forneceria o apoio de que el-rei falara?
A resposta veio depressa – o capitão chamou-o à sua cabina. Sorrindo, entregou-lhe uma bolsa com dinheiro, um rolo de papel com as suas instruções e uma carta selada. Ao jovem pareceu ser o mesmo rolo que vira o beleguim entregar a Jan Peter quando este os recebeu em Lisboa, coisa que o intrigou, pois custava-lhe a compreender como, dadas as relações entre os dois flamengos, o comandante confiasse em Jan Peter para o ajudar em tão secretas tarefas e agora o tivesse expulsado sem contemplações. O capitão era, afinal, segundo afirmou, o homem de confiança de que falara el-rei. Disse-lhe também que o barco ficaria ali ancorado, descarregando a mercadoria que trazia e carregando a que iria transportar na torna-viagem. Coisas que já sabia, pois o rei já lhas dissera: a carraca abandonaria Veneza na quarta-feira seguinte, cerca da meia-noite. Caso não chegasse a tempo a bordo, teria de partir de regresso a Lisboa, deixando-o entregue à sua sorte e numa cidade estrangeira, com pouco dinheiro… Na mesma situação em que estava Jan Peter, afinal.
Indicou-lhe a estalagem onde deveria ficar, situada perto, a dois passos da Praça de São Marcos. Entregou-lhe ainda um salvo-conduto que o identificava como tripulante do navio com autorização para ir a terra, papel que serviria de identificação e que só deveria exibir se viesse a ser interpelado pelas autoridades venezianas. Disse-lhe ainda que, se necessitasse de alguma informação ou apoio, que viesse a bordo, pois ele estaria sempre ali. E que tivesse o cuidado de verificar se não estava a ser seguido. Nada mais tendo a fazer a bordo, Lourenço despediu-se do capitão, do qual não tinha, apesar das condições de quase escravatura em que trabalhou, grandes razões de queixa. Esta opinião talvez tivesse a ver com o facto de ter sabido ser ele o homem de confiança da Coroa. Por outro lado, conhecendo a natureza secreta da missão do rapaz, talvez o capitão o tenha protegido em algumas ocasiões. Como quando, tendo esmurrado o contramestre, lhe atribuíra um castigo que podia considerar-se leve. Despediu-se também, com um abraço, de Julián e de alguns dos outros tripulantes com os quais, estabelecera ao longo da viagem laços de franca camaradagem. Sobretudo com aqueles que, como o silencioso mouro, faziam parte da sua improvisada tropa. Porém, Muhammad, esquivo como um gato e com o qual nunca conseguira entabular qualquer espécie de conversação, mas que, em todo o caso, o apoiara e lhe obedecera durante os poucos dias em que integrou a hoste defensiva da carraca, desaparecera de forma súbita, abandonando o barco ou sumindo-se talvez para as cobertas inferiores, furtando-se a despedidas. Sem mais nada de importante para ali fazer, desceu a escada de corda que conduzia ao cais.