Veneza, segunda-feira, manhã de 30 de Setembro de 1487.
Na madrugada seguinte, começava a missão de Lourenço.
Recuperado, por um sono profundo, da fadiga provocada pela dureza da faina marítima, mas ainda com os sentidos regulados pela rotina de bordo, acordou cedo. Lavou-se, vestiu-se e, com os documentos guardados na bolsa junto ao peito, desceu ao salão da hospedaria, onde alguns sonolentos criados varriam o sobrado e preparavam os dejejuns. O ambiente estava oloroso à estúrdia da véspera e a milhares de outras anteriores, impregnado de um forte cheiro de comidas, de vinho, de cerveja e de suor, como se os fantasmas das orgias de marinheiros ébrios, de bufões e mancebas vivessem nas traves de madeira, nas paredes, tectos e soalhos. Com imaginação, quase se podia escutar os gritos dos bêbedos, as vozes das raparigas cantando canções brejeiras, o som de canecas batendo sobre as mesas, exigindo bebida…
Comeu depressa e com apetite o frugal almoço e saiu para o ar fresco, apressando-se a ir contactar o livreiro português. Estava ansioso por se desempenhar da missão, não querendo perder tempo, pois cada minuto contava. Percorreu caminhos pejados, apesar da hora, de buliçosos transeuntes, ruas e veredas que corriam paralelas aos muitos canais que sulcavam a cidade, atravessando pontes, fazendo uma ou outra pergunta para se orientar. Depressa transpôs a porta da judiaria, guardada por alabardeiros que o olharam com indiferença. Não teve dificuldade em encontrar a Calle della Masena, onde ficava a livraria, uma fachada estreita, apenas um pouco maior do que a largura da porta de entrada. Era uma casa funda, mal iluminada pela luz matinal que, vinda da rua, penetrava pelos vidros da janela. Empurrou a porta, e uma pequena campainha, colocada no topo, tiniu. Montes de livros, manuscritos, códices, rolos de mapas, gravuras, povoavam o espaço silencioso como um pequeno templo de sabedoria. Foi andando pela passagem que conduzia junto de uma mesa ao fundo. À esquerda, uma estreita escada de madeira subia ao andar superior. Uma fresta envidraçada, no centro e ao cimo da parede, rente ao tecto, dava para a rua de trás e iluminava com a pálida luz da manhã nascente, o tampo da mesa à qual se sentava de costas para a entrada um homem quase calvo, com esparsas farripas de um cabelo branco e amarelado caindo sobre as orelhas. Via-se, pelos sulcos do pescoço que emergia da camisa branca, que era já idoso. Sabia que alguém entrara, pois ouvira a campainha e os passos, mas não se voltou. Estava absorvido a examinar, usando uma grossa lente, o que a Lourenço pareceu ser uma gravura em madeira:
– Sara, che ci fai qui così presto? – Perguntou, observando a incisione e sem se voltar. Tal despreocupação, pareceu insensata a Lourenço:
– Peço perdão a vossa mercê, senhor Saul Navarro. – Estava por detrás da cadeira e tirara respeitosamente a gorra de pano.
Navarro, que pensara ser outra pessoa, ouvindo falar em português, surpreendido, voltou-se com rapidez e, pousando sobre o tampo da mesa a lente e a gravura, franziu os olhos, observando o rapaz da cabeça aos pés. O aspecto não era o melhor, a roupa estava esfarrapada, a tez queimada pelo sol, o cabelo demasiado comprido, a barba desalinhada… Lourenço parecia aquilo que fora durante as últimas semanas – um humilde marinheiro. Mas o livreiro tinha experiência da vida, para saber ler para além das aparências. Era um homem idoso, mais de sessenta anos:
– Quem é vossa mercê? – Mantinha os olhos franzidos:
– Sou Lourenço de Mateus, servidor de Sua Majestade el-rei de Portugal. Acabo de chegar de Lisboa – O livreiro abriu o rosto num sorriso:
– E o que pretende da minha humilde pessoa o senhor Lourenço de Mateus, servidor de Sua Majestade el-rei de Portugal e acabado de chegar de Lisboa? – Sorria, mas continuava a falar devagar.
– Trago instruções para vos dar este documento – e passou para as mãos do judeu a carta que lhe fora entregue pelo capitão. Navarro pegou na carta, leu o endereço com o seu nome, e, antes de a abrir, examinou o selo com o auxílio da lente. Esboçou um sorriso:
– Parece que não foi violada – e acrescentou – Parece, mas nestas coisas nunca se sabe – Riu-se, quebrando o selo com a ponta de uma faca. Colocou sobre o nariz uma armação metálica que suportava duas lentes e leu o que, visto de pernas para o ar, pareceu a Lourenço ser uma missiva constituída por poucas frases, rematadas por uma grande assinatura lavrada sobre a marca de um sinete. Ficou absorto, olhando do papel para Lourenço. Depois, como que chegando a uma conclusão, ergueu-se. Era da altura do jovem ou talvez mais alto, embora curvasse as costas, o que lhe retirava dimensão à estatura. Com afabilidade, estendeu a mão:
– Tenho muito gosto em vos conhecer e em vos poder ser útil. Embora já vos tivesse visto ao colo ou pela mão do vosso pai, de quem fui muito amigo – Desculpai, não vos reconheci, estais um pouco mais crescido – riram-se – e Saul acrescentou – Esperai um pouco. Antes de começarmos, vou buscar uma bebida – à medida que ia falando o seu português tornava-se solto e fluente. Era a língua que aprendera desde o berço, mas que nos últimos dois anos, quase não usava. Parecia que falar português lhe dava prazer.
– Saiba o senhor Saul Navarro que nunca bebo vinho. Nunca me habituei, embora, segundo dizem, o haja bom na nossa terra – Lourenço dera à frase o tom de quem pede desculpa por uma deformidade.
– Pois, faz muito bem, eu também não bebo vinho. Ou melhor, já não bebo. Na vossa idade, nunca recusava um copo de bom vinho ou de cerveja. De facto, o vinho português é, em geral, excelente. E o daqui também tem grandes apreciadores… Talvez demasiados, como em Portugal – riu-se – Mas sempre bebi com moderação e agora nem isso – e acrescentou – Vou buscar uma bebida fresca, mas inocente, que tenho sempre aqui à mão, dentro de um poço no quintal, aqui atrás.
Passado pouco tempo, tendo saído por uma pequena porta ao lado da janela das traseiras, Saul regressou com um jarro de água fresca, temperada com limão e adoçada com mel, segundo explicou. Sentaram-se à mesa, em cujo atravancado tampo o livreiro abriu expeditamente um espaço, afastando os papéis e gravuras. Após uma pausa em que beberam em silêncio o refrescante hidromel, Saul fez muitas perguntas sobre Portugal, sobre Lisboa, sobre os actuais preços das coisas, sobre pessoas conhecidas, e Lourenço a tudo respondeu o melhor que pôde e soube. Quis também saber se já se imprimiam livros em Portugal. Lourenço não era um entendido na matéria, mas seu pai e seu avô tinham estado, durante as suas vidas, sempre rodeados de leituras e atentos às novidades que a tal arte dizia respeito.
Era evidente que sentia saudades da cidade onde nascera e onde tinha amigos. Perguntou por alguns deles, mas Lourenço, excluindo Débora e seus pais e avós e tios, poucos mais judeus conhecia, embora tivesse alguns por vizinhos em Alfama. Saul conhecia muito bem o Falcão Azul e Samuel Levi, «moço um pouco mais velho do que eu». Lembrava-se de Jacob, o filho do tendeiro. Conhecera muito bem Lopo, «Éramos muito amigos» disse, tossindo para disfarçar a comoção, não acrescentando mais nada. Saul fez muitas perguntas sobre a viagem e o jovem explicou-lhe tudo – qual era o seu trabalho na guarnição da alcaidaria-mor, como se vira envolvido na rixa, como ferira o conde de Cantanhede, como fora hospitalizado e depois encarcerado e como, após ter sido recebido por Sua Majestade, fora atirado para bordo da Leeuwarden. Contou-lhe alguns incidentes da viagem, falou-lhe do capitão, de Nuñez. Não esqueceu uma referência ao mouro Muhammad. O livreiro escutou, não fez comentários, sublinhando algumas passagens com quase imperceptíveis sorrisos.
*
Navarro perguntara se já se imprimiam livros em Portugal. Recordai-vos de o mestre Gonçalo, zelador da Torre do Tombo ter falado numa geringonça que os germanos tinham inventado e que permitia fazer cem ou mais cópias sem intervenção humana? Nas décadas se seguintes a tal geringonça, espalhou-se por toda a Europa. O livro que perpetuara a cultura vinda de Gregos e Romanos, sofreu grande transformação, sendo agora mais fácil de consultar do que na época de Cícero. Durante os primeiros anos de utilização dos caracteres móveis, houve grandes alterações na sua concepção.
A impressão dos primeiros livros em Portugal não ocorrera tão cedo quanto em Veneza. Naquele ano de 1487 seria impresso na oficina de Faro de Samuel Gacon, um Pentateuco hebraico. Os impressores judeus instalaram-se por todo o Reino, chegando a sua produção a atingir grande esplendor. Porém, a expulsão dos hebreus em 1496, bem como a proibição de produzir livros na sua língua, extinguiram uma actividade que se constituíra numa fonte de saber. Fora no último quarto de Quatrocentos que chegaram dois alemães, cujos nomes portugueses foram Valentim Fernandes e Nicolau de Saxónia. Valentim, era homem com cerca de quarenta anos. Veio como escudeiro da rainha D. Leonor, sendo também, por nomeação de el-rei D. Manuel, corretor e intermediário de mercadores germânicos aqui estabelecidos. Exercia também o mester de tabelião. Mas a sua actividade como impressor só teve inicio por volta de 1490. A partir de 1496 deixara já de trabalhar com Nicolau de Saxónia.
Outros dos primeiros livros executados em Portugal, foram, em geral, obras de carácter religioso, como o Sacramental, que se pensa ter sido impresso em 1488 e o Tratado de Confissom, datado do ano seguinte e que se julga ser obra portuguesa de autor anónimo. Ambos parecem ter sido impressos em pequenas oficinas de comunidades hebraicas de Trás-os-Montes, utilizando material tipográfico que terá vindo da oficina de Antonio Centenera, de Zamora, e encomendadas por irmãos da minha Ordem. Entre as obras que Valentim imprimiu, salienta-se a tradução da Vita Christi, feita pelo frade cartuxo Ludolfo de Morávia, impressa em 1495. Publicou ainda a Votivale Missarum e a Estoria de Vespasiano, em 1496, Regimento dos Oficiais das Cidades, Vilas e Lugares destes Reinos, em 1504, e, no ano seguinte, Regra e Definições da Ordem do Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Publicara já também, o Livro de Marco Polo. Uma das suas obras mais louvadas foi as Ordenações Manuelinas. O alemão Hermão de Campos colaborou com ele no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.
Foram judeus os primeiros a executar livros entre nós: em Lisboa, Eliezer Toledano imprimiu uma excelente tarja com motivos animais que, segundo se julga, trouxe de Castela e em Leiria, a oficina de Samuel e Abraão de Ortas que, além de livros religiosos, deu à estampa o famoso Almanaque Perpétuo, de Abraão Zacuto, que depressa se transformou num instrumento indispensável a pilotos e capitães. Como hoje é sabido e reconhecido, a descoberta da imprensa teve papel de grande relevo na evolução da cultura portuguesa, permitindo a um público muito mais alargado a leitura de autores como Cícero, Virgilio, Homero, Ovídio, obras que até então apenas circulavam em edições manuscritas. Como costumava dizer o meu inesquecível mestre Afonso, o Sol a bons e maus não se nega, devendo aquecer igualmente o rico e o indigente.