
Mal entrei no átrio da Estação Coimbra B dei de caras com o meu amigo Zé. O “Zé PPD” (1). Abraçamo-nos. Como sós os amigos o fazem. E começamos a falar. De política. Pois o Zé e eu sempre que estamos juntos falamos de política.
O “Zé PPD”, assim (re)conhecido por ser um empolgado apoiante do partido fundado por Francisco Sá Carneiro, orgulha-se da sua militância e diz-se um “verdadeiro social-democrata”. “Essa é que é a sua matriz ideológica.”
Provoco-o:
– Olha que pelo andar da carruagem vais ter de mudar de partido…
O Zé franze o sobrolho e diz-me de uma assentada:
– Nunca! O PPD é social-democrata e a maioria dos seus militantes são-no. Genuinamente. Por isso é que temos de correr com estes tipos…
– Pois…
– Não duvides. O tempo do Coelho chegou ao fim. Dele e dos outros que o apoiam.
– Achas….
– Sim, acho. A malta já não o ouve, já não lhe liga nenhuma. Nem os “notáveis”, nem os militantes de base como é o meu caso.
Depois, conta-me:
– Há dias fui ao jantar da “Distrital” do Porto e confirmei isso mesmo. Parecia um velório. O homem falou e o mais que vi e ouvi foram uns sorrisos de circunstância (2) e umas palmitas. É o que te digo: já ninguém o leva a sério.
Contemporizo: olha que ser oposição é lixado…
– Lixado é ele dizer que o partido vai votar contra a descida da TSU. Na política não vale tudo. Tem de haver coerência. E não te esqueças que ele defendeu a descida da TSU quando era primeiro-ministro.
– Pois…
– Digo-te: por aquilo que ouvi e vi na Maia, ele tem os dias contados.
– Na Maia?
– Sim, no tal jantar.
– O jantar foi na Maia?…
– Sim, na Via Norte.
– Na Via Norte?…
– Sim, na estalagem que agora é hotel.
– Aquela que em tempos albergou o famoso “grupo da sueca”?…
– Sim, essa.
– Mas isso é um hotel de estrada…
– Pois. Agora, na oposição já não há dinheiro para hotéis de “cinco estrelas”…
Chegamos ao fim da viagem. Abraçamo-nos com a amizade de sempre. O Zé enfiou o boné até às orelhas e atravessou a rua fronteiriça à estação. Num ápice desapareceu sob o intenso nevoeiro que áquela hora cobria a noite do Porto. Tal qual acontece com o partido do qual é militante. É ele, o “Zé PPD”, quem o garante.
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