

Um amigo questionou-me há dias sobre a minha a minha má vontade, pondo em causa a minha aparente desconsideração para com o povo – não sei se do que lavas no rio ou se com electrodoméstico, não percebi, não fiquei devidamente esclarecido.
Já tentei em tempos perceber o significado de povo, mas não consegui, Nunca obtive uma definição ou uma explicação cabal. Ninguém ma conseguiu proporcionar, por mais que eu insistisse.
Porque o povo é bom e é são e é clarividente e é politizado e até faz revoluções, de vez em quando. Pois. Mas qual povo? E quando?
Quando se farta, tá visto.
Então e o outro? O outro povo? Deve haver muitos povos, mazé. É verdade que uns fazem e acontecem, movimentos, percursos e revoluções (até de mentalidades?) e outros nada fazem, não acontecem, não se encaminham, não se revoltam coisa nenhuma. Talvez haja realmente e afinal vários povos, quem sabe. Mas mesmo os das revoluções ou os que as acontecem, sempre tiveram à frente uns tipos especiais, se os estudarmos bem – também eles, povo, reconheço-o – que são os das ideias, os que explicam, os que dão a cara. E os que se lixam, quando aquilo corre mal. Não é verdade, ó marxistas-leninistas?
Porque há um outro povo, aquele mais manso, corrente, contrafeito ou resignado – menos esclarecido, dizem-me os esclarecidos, a parte esclarecida de povo de que felizmente sou rodeado – que me dá cabo da cabeça.
Não é só eles votarem no que há de pior na História da Humanidade (porque não sabem, coitados? – lá está) sejam trumps, le pens, berlusconis ou outro fascistas quaisquer, como ainda agem como baratas tontas, ou seja, mudam de opinião indecisa a cada votação, a cada sondagem, a cada estudo de mercado, baratas tontas sem qualquer opinião, conhecimento ou ideologia, sem qualquer idealismo. Sem um ideal sem um pensamento fraterno ou humanista mais ou menos local – quanto mais universal.
O Trump ganhou – por muito que custe a quem explica tudo – porque votaram nele. Porque votaram nele. As pessoas. O povo. Não, não foram só os desempregados de longa ou curta duração, há uma chamada classe média em quantidade suficiente, há o Tea Party, etc., basta ver as manifestações nutridas e bem vestidas – só não vê quem não quer ver.
O Trump ganhou e já há, entretanto, sondagens a correr e a mostrar um mais ou menos generalizado e instalado mal estar. De quem nele não votou, é evidente, mas também em quem nele se reviu. Até republicanos de boa e reaccionária cepa, imagine-se.
Ah, é? Não votassem nele, ora que porra. Que querem que lhes diga?
Ah, mas Carlos, é natural que as pessoas, os jovens (povo, mas com menos idade) insatisfeitas com a merda e as filhasdaputície político/económicas que os Partidos dos governos existentes têm feito, se vejam na “obrigação” de votar nestes arrivistas, nestes oportunistas fascistóides e absolutamente xenófobos e classistas – já que os outros só lhes lixaram a vida. É assim que qualquer Esquerda bem pensante raciocina.
O que é verdade, estamos mais ou menos todos de acordo. E que (pior) ainda por cima lhes prometem correr logo a seguir com árabes, chineses, pretos, lituanos e sírios dali para fora. O que ainda é mais interessante, de um ponto de vista do povo, humano e fraterno…
Duas questões: vocês, os que me lêem, alguma vez votariam naquela facharia? Mesmo que vocês fossem pessoas de Direita, mesmo que pessoas ultra-fecundadas com os governos que se sucedem, que se foram sucedendo? Não, claro que não.
A outra questão é talvez mais delicada (e assustadora) pois que e se quando aquelas ultra-direitas (e agora com o balanço do Trump) ganharem, as le pens, os farages, os berlusconis, as alemãs, etc. e estiverem instaladas no Poder, a codilhar o maralhal em grande e à fartazana com leis de trabalho apropriadas e problemas de liberdade de expressão (e agora com o balanço do Trump) com um regresso a ditaduras e fascismos mais sofisticados que outrora e se passarem tempos ainda mais negros que estes… O que acham então que nesse futuro sombrio o bom povo neles votante irá fazer? Votar em quem? Levarão uma geração a perceber o que se passa, quem eram aqueles fascistas que eles elegeram, encantados? Voltam a votar nos mesmos, nos antigos?
Não são vocês, os que me lêem, pessoas que aqui, neste torrão, tiveram outras alternativas de voto, desde que nos democratizámos? E no resto da Europa, não haverá também gente que votou ou foi votando em partidos mais decentes?
Pois há. Pois é. Mas são poucos.
carlos
