Quando se fala em Terramoto de Lisboa, pensa-se logo no que em 1 de Novembro de 1755 destruiu grande parte da cidade, vitimando cerca de 100 mil dos seus 250 mil habitantes. Até ao século XX, pouco se tinha ouvido falar no outro grande sismo que, em 26 de Janeiro de 153, abalou a urbe. Só em 1919, um jornal lisboeta divulgou uma carta endereçada ao Marquês de Tarifa, encontradas num alfarrabista – quatro páginas, descrevendo o cataclismo. Dela falaremos mais adiante. O Marquês de Pombal e os cientistas, engenheiros e arquitectos que estudavam a reconstrução, encontraram neste documento preciosos ensinamentos.
Com um epicentro algures entre Azambuja e Vila Franca de Xira, o sismo que, no dia 26 de Janeiro de 1531, abalou Lisboa deixou a cidade parcialmente destruída. A cidade não era tão grande, nem tão populosa, embora para a época, fosse considerada de enorme dimensão – teria cerca de 100 mil habitantes (contra os 275 mil de 1755). As zonas atingidas, foram outras. Por exemplo, o Hospital de Todos os Santos, no Rossio, não foi atingido, vindo porém a desaparecer no sismo de 1755. Sabe-se também que, embora com menos danos registados, o Ribatejo e o Alentejo foram regiões duramente fustigadas. O rei D.João III que estava no Paço de Benavente, teve ir para Alhos Vedros e depois para Azeitão, porque os seus aposentos de Benavente ficaram destruídos. Em Santarém, na Castanheira, em Vila Franca de Xira, na Azambuja, onde sacudidos pelo sismo os sinos tocaram sozinhos, tal como no Lavradio, em Setúbal… Digamos que o terramoto de 1531 afectou toda a região de Lisboa e o vale do Tejo.
Depois de abalos nos dias 2 e 7, em 26 quando, ao princípio da madrugada, a terra tremeu por três vezes. A cidade foi fortemente afectada.
Por outro lado, as fontes de informação disponíveis para estudar o terramoto de 1755, não são tão copiosas para o de 1531. Sabemos, no entanto, que houve danos consideráveis. Na principal rua de Lisboa, a Rua Nova, caíram varandas e muitos dos edifícios abriram enormes fendas. Uma parte do palácio real, o Paço da Ribeira ou da Alcáçova, sofreu grandes estragos. A Torre de Belém e o Mosteiro de Belém (Jerónimos) foram também duramente atingidos.
António de Castilho descreveu os estragos em Lisboa, particularmente no Rossio, onde caiu a Igreja de Nossa Senhora da Escada, uma parte do Paço dos Estaus, parte das naves do Convento de São Domingos (onde está hoje o Teatro de D. Maria II). Houve danos na Sé, no Convento do Carmo, na Igreja de São João da Praça e, como já, disse, numa ala do Paço da Ribeira, residência da Corte.
O Bairro Alto, um dos primeiros bairros europeus a ser construído com planta em quadrícula, foi edificado para responder à destruição provocada pelo terramoto de 1531. Especulação sobre os terrenos, comprando quase de graça e vendendo depois por preço elevado, foi o negócio de um tal Duarte Belo (de que ainda existe memória numa Rua da Bica Duarte Belo, aquela que é percorrida pelo elevador da Bica). Era um armador e negociante que possuía na Boavista (onde hoje passa a rua do mesmo nome) umas casas e um terreno no qual existia uma bica, designada pelos seus utentes como «Bica dos Olhos». Os testemunhos, muito mais escassos do que os de 1755, existem, no entanto: Além do citado António de Castilho, há a tal carta de um anónimo castelhano ao marquês de Tarifa, Fradique Enríquez de Ribera, descrevendo as destruições em Lisboa, nomeadamente na Rua dos Fornos, onde ruíram numerosas casas e as da Rua Nova. Na carta, descrevia-se também o pavor da população lisboeta que dormia vestida para poder fugir ao primeiro sinal de novo sismo.
Em 1755, a par com as «explicações» tradicionais – castigo divino pelos desmandos humanos – surgiram abordagens diferentes, científicas umas (com os naturais limites da ciência contemporânea) e outras procurando explicar racionalmente o que sucedera. Em 1531, o estado dos conhecimentos sobre o mosaico multidisciplinar que permite compreender fenómenos naturais desta natureza, era mais do que incipiente. No entanto, quando frades de Santarém relacionaram os danos verificados na cidade pela presença de judeus, ou melhor, de «cristãos novos», visto que os judeus haviam sido expulsos no reinado de D. Manuel, Gil Vicente combateu esta tentativa de culpabilizar os hebreus, numa carta que leu perante os próprios frades, atacou as prédicas dos clérigos que aterrorizavam os fiéis anunciando-lhes que os cataclismos eram resultado da ira divina contra os pecados dos homens.
Com o mesmo esclarecedor objectivo, escreveu uma carta a D. João III condenando a perseguição aos judeus. Curioso o facto de, em 1755, uma das tais «explicações» encontradas para o sismo, tenha sido a das perseguições feitas aos judeus, a par com hábitos debochados importados de França e de Itália e com a proibição de os crentes lerem a Bíblia.
Como ficou Lisboa depois deste terramoto, sabemo-lo cruzando os dados que nos proporcionam as obras de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, «Lisboa em 1551» ( «Em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa», «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552», de João Brandão (de Buarcos) e na «Descrição da Cidade de Lisboa», de Damião de Góis.
