
Fiel ao seu antigo estatuto renascimental de cidade-estado, sede de uma corte ducal – a dos Estense, senhores absolutos da vida política mas culturalmente cosmopolitas -, Ferrara, como, de resto, Mântua e Verona, também estas cidades ducais, esmera-se na programação cultural com uma variedade de eventos de absoluto interesse. Até 29 de Janeiro pode ver-se no Palácio dos Diamantes uma belíssima mostra intitulada:
“ORLANDO FURIOSO 500 ANOS o que via Ariosto quando fechava os olhos”.
A ocasião é, naturalmente, o quinto centenário da primeira edição de Orlando Furioso (hoje conservado na British Library) de Ludovico Ariosto (1474-1533). Mais do que referir-se à figura do autor, poeta da corte estense, os curadores, Guido Beltramini e Adolfo Tura, privilegiaram, na organização da mostra, a análise do poema, seccionando, na sua globalidade, as possíveis memórias literárias, as imagens iconográficas, as fantasias, as invenções e os sonhos, não menos do que os conhecimentos científicos e históricos a que Ariosto deu forma na sua escrita, como de resto testemunha o exórdio do próprio poema:
As damas e cavaleiro, os antigos amores
As cortesias as audazes empresas eu canto
Que foram no tempo em que passaram os Mouros
Da África o mar…
Assim, guiados por oportunas citações das “cantigas” do Furioso, transcritas nas várias salas, os espectadores têm a possibilidade de percorrer temas e episódios fundamentais do texto, tais como: a herança de Orlando Enamorado de Boiardo, o torneio e a batalha, o espelho da corte, a imagem do cavaleiro, o maravilhoso, Orlando em acção, tudo ilustrado por quadros, objectos-símbolo, artefactos, manuscritos, manuais, livros impressos, cartas geográficas, tapeçarias, etc., numa resenha exaustiva do imaginário ariotesco.
No fim do percurso, o espectador compreende como no Orlando Furioso a imagem de um mundo antigo se funde com uma visão do presente histórico que considera o futuro no sentido da modernidade. Muito significativo, em tal direcção, a referência dos curadores a Cervantes, com a citação das palavras que o religioso, visitando a biblioteca de D. Quixote, reserva à obra de Ariosto: «Se entre estes livros está o poema de Ariosto e fala uma língua que não é a sua não lhe guardarei respeito mas se está na sua língua pô-lo-ei na minha cabeça».
Ilustrações:

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Anónimo português, Charta del Navicare dita de Cantino, 1501/2 (pormenor), Módena, Biblioteca Estense Universitária;

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Giorgione, Ritratto del “Gattamelata”, 1501, Florença, Galleria Uffizi;

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Paolo Uccello, San Giorgio e il Drago, c. 1440, Musée Jacquemart André, Paris.
