
Selecção, tradução e introdução de Júlio Marques Mota



Warren ou a América desencantada. Como é que uma pequena cidade de Ohio passou de Obama para Trump
Marie-Adélaïde Scigacz, Warren ou l?Amérique désenchantée – Comment une petite ville de l’Ohio a basculé d’Obama á Trump
Franceinfo, Janeiro de 2017

Quando a rececionista de um hotel nos dá as boas vindas em tom interrogativo, fica-se logo a saber que não se está num lugar de turismo de qualidade na América. Warren, capital do Condado de Trumbull, no nordeste da capital do Ohio, ainda tem alguns museus históricos, um belo parque junto ao Rio Mahoning, edifícios oficiais pesados e nada feios, juntos no centro da cidade. Num pequeno beco, tendo por detrás um parque de estacionamento vazio, pode-se até ver a “bateria maior do mundo”, exposta aqui como uma homenagem a Dave Grohl, ex-baterista dos Nirvana e natural da cidade. Em suma, uma cidade com um interesse limitado, se ela não se tivesse tornado um símbolo: o de uma velha América que vê a possibilidade de um renascimento em Donald Trump.
A cidade é um bastião democrático desde a década de 1930, com uma só exceção de votação em Richard Nixon, em 1974. Lembremo-nos: há oito anos, Barack Obama teve aqui 60% dos votos neste município, quando o seu rival republicano de então, John McCain, teve que se contentar com 37,6%. A cidade e os seus arredores quebraram esta tradição em novembro, aderindo em 51,2% às promessas do multimilionário de Nova Iorque, contra apenas 44,8% para Hillary Clinton. Esta vitória ajudou o candidato dos republicanos a chegar ao topo neste estado chave, quase essencial à conquista da Casa Branca. O resultado pode ser invulgar, mas é menos surpreendente do que parece. Bem-vindo a Warren, Ohio.
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A fábrica? “Ela fechou”
Sobre a via do caminho-de-ferro, Randy Law caminha devagar. “Na década de 1930, dizíamos que era impossível assaltar um banco em Warren, diz Randy Law, mãos enfiadas no casaco. Havia tantos comboios que chegavam e partiam para as siderurgias que os carros estavam sempre entalados longos minutos em filas nas passagens de nível”, explica este natural da cidade. Claramente, esse tempo acabou.
Atrás dele, um imenso terreno vago estende-se pelo sítio onde ficava a siderurgia WCI Steel, última versão de uma empresa siderúrgica em funcionamento desde 1913. Um século mais tarde, o último recomprador desta siderurgia, RG Steel parou toda a produção. Durante e três anos, as chaminés, os armazéns com telhado de cor azul-celeste e o edifício original, um imponente bloco de tijolo vermelho, permaneceram de pé, para lá dos portões.
Randy Law
Randy Law não é um desses trabalhadores. Este tem ” um pequeno negócio”, diz-nos ele em resposta pronta. Acima de tudo, ele é aqui o secretário-geral do Partido Republicano local, o Grand Old Party (GOP). E para ele, a vitória de Donald Trump no Condado representa uma oportunidade única para se construir uma ou outra fábrica nos terrenos agora desertos: o GOP até então era aqui insignificante, incapaz de apresentar o mínimo candidato nesta região liderada pelos poderosos sindicatos.
Ele próprio se ofereceu para tentar que viessem visitar Warren. Enfim, visitar o que resta. Ao volante do seu carro, aponta para um edifício: “é a fábrica GM-Packard. Fechou em 2014, mas faziam-se aqui lâmpadas desde 1890!” Da família Packard, resta um museu e uma sala de espetáculos, testemunho da sua influência. A Packard chegou a empregar 18.000 pessoas na cidade: os jovens logo que saídos do liceu só tinham que enviar o seu CV para serem contratados. Esse tempo, já vai longe. Agora, não há uma janela da fábrica que tenha sido poupada pelas pedras que lhes são atiradas.

Apesar de um tal desastre, em curso desde o início da década de 1980, a taxa de desemprego em Warren era apenas um pouco mais alta do que a média nacional: 5,8%, contra 4,7 por cento em todo o país. “Ah! Estes números não significam nada, “diz-nos este republicano. Porquê? “Porque as pessoas partem, simplesmente isso.”

A cidade não tem mais do de 40.000 almas, contra mais de 60.000 na década de 1960. Randy Law avança ainda uns poucos de metros e, de repente, com um movimento do queixo, designa uma casa em ruínas. “Olhe para aquilo. “É uma mansão, isso”, diz ele com um suspiro. É preciso um pouco de imaginação para pensar que a residência pode ter sido de uma família abastada. A fachada está em mau estado, a tinta azul está bem decrépita e as janelas estão tapadas com tábuas.
Como na maioria das cidades desertificadas depois das fábricas terem fechado, as casas e as lojas estão abandonadas e fundem-se com a paisagem, esperando-se entretanto que também elas venham a desaparecer. Outras habitações, às vezes em pior estado, ainda estão ocupadas, e através de uma lona imunda, colocada sobre um vidro quebrado, podem-se ainda as luzes intermitentes de uma árvore iluminada da época de Natal. Há famílias – e eleitores – em Warren. E algumas delas não têm a intenção de desaparecer sem fazerem barulho.


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