Temos, nos anos anteriores, dedicado a edição do blogue ao Porto e José Magalhães, tem dirigido essas edições comemorativas do 31 de Janeiro de 1891, quando unidades militares da cidade do Porto desencadearam a primeira revolta republicana. Embora jugulada, essa revolta, motivada pela humilhação a que a Inglaterra nos sujeitara no ano anterior com o seu ultimato, não havendo por parte da instituição monárquica a reacção violenta que o miserável documento bem justificava. Motivos diversos impediram-nos de este ano organizar a habitual edição dedicada ao Porto – provavelmente, talvez o façamos no São João.
Haverá, no entanto, alguns artigos dedicados à efeméride.
O 31 de Janeiro, surgindo na sequência das comemorações camonianas que o Partido Republicano organizara, foi o primeiro sinal de uma subversão anti-monárquica que, de episódio em episódio, culminou em 5 de Outubro de 1910 com a proclamação da República. Deve dizer-se que o poder bélico português não apresentava capacidade para resistir a uma ofensiva britânica que ameaçava bombardear com a sua poderosa esquadra as duas metrópoles portuguesas a que se seguiria o desembarque de forças terrestres.
Um governo republicano não poderia ter feito muito mais do que fez um rei jovem e inexperiente. Poderia talvez, dar por extinto o Tratado de Windsor e denunciado ao mundo a prepotência de uma Grã-Bretanha que se sentia com legitimidade para dar ordens a outros países soberanos. D. Carlos seguiu o critério de desvalorizar o incidente provocado pela publicação do «Mapa Cor-de-Rosa», preconizando a ocupação por Portugal do território africano que separava Angola de Moçambique.
A violência da ameaça britânica (o nosso mapa colidia com o projecto de uma linha de caminho de ferro do Cairo à cidade do Cabo que os ingleses pretendiam construir (projecto jamais realizado). A pretensão portuguesa era un obstáculo a esse projecto). Uma expressão corrente, designa hoje este tipo de pressão que as grandes potências exercem sobre os estados mais fracos – “terrorismo de estado”. Os Estados Unidos são hoje os campeões desse tipo de relação internacional. Trump ameaça tudo e todos se não seguirem as suas ordens. Em diversos períodos da Historia, aconteceu . Com outras potências.
Em finais do século XV, Portugal fez «terrorismo de estado», apoiado em bulas papais. A política do mare clausum, permitia que as naves de guerra de Portugal (bem como as de Castela e Leão), tivessem o direito de policiar os oceanos, de mandar vistoriar qualquer navio inglês, francês, flamengo… Dotadas de poderosa artilharia, as naus portuguesas bombardeavam esquadras otomanas ou de qualquer outra nação.
Felizmente, os impérios não são eternos…

Conviria explicar que, naquela data, o pretendido Mapa Cor de Rosa vinha muito impregnado dum detestável “germanofilismo” e era – tal a insensatez – uma provocação aos interesses ingleses cuja aliança – é bom não esquecer – impedia os apetites castelhanos . Anos atrás, quando o Visconde de Sá da Bandeira pretendeu investir em Africa (“Vamos fazer em Angola o que fizemos no Brasil”, in Carta à Rainha D. Maria II) ligar Angola a Moçambique teria sido uma intervenção inteligente mas depois de conhecida o projecto expansionista de Cecil Rhodes estava condenado ao fracasso. Andrade Corvo, um anglófilo, que sabia quanta fantasia havia no Mapa Cor de Rosa foi afastado do Negócios Estrangeiros pelo germanófilo Barros Gomes e a asneira política portuguesa consumou-se. Houve uma boa compensação que foi a República. Direito por linhas tortas!!! CLV