Faço uma pausa na aventura de Lourenço que vos tenho estado a narrar. Se algum de vós usa o meu método, que é de o ler em cada noite, antes de adormecer, um capítulo, às vezes dois, ficareis intrigados durante um dia, pois só amanhã vos contarei se Lourenço conseguiu ou não entrar no palácio (a menos que salteis este capítulo, salto que não prejudicará a compreensão da história). Hoje, quero explicar a minha sapiência sobre armas e engenhos de morte. Porque talvez não fique nada bem a um modesto ex-escrivão, a um pobre frade, insignificante hortelão e ecónomo, demonstrar tanta ciência sobre armas e máquinas de destruição. Como tereis já compreendido, foram coisas ensinadas por meu pai que, sendo uma boa alma, tinha o honroso, mas infeliz ofício de guerrear e nele era mui lesto e sabedor, tendo sido ao longo da sua vida, obrigado a matar. Por vezes, para não ser morto.
Nos nossos serões junto do fogo da chaminé, ante os olhares complacentes de minha mãe, minha avó e minha tia, que bordavam ou costuravam e o ar deslumbrado de meu irmão José, ainda petiz, ele recordava os tempos de besteiro e as suas aventuras passadas. Nunca poderei esquecer esses serões familiares. O que não é nada de espantar, pois como também sabeis, os velhos podem não se recordar daquilo que comeram ao dejejum, mas lembram-se em pormenor de coisas ocorridas na sua infância e juventude. É o meu caso.
Por isso, porque, nos tais saudosos serões da cozinha da nossa casa de Alfama, entre os costurantes silêncios e as canções de minha tia Beatriz, de minha avó Matilde, de minha mãe, as leituras da Dama do Pé-de-Cabra, do Livro de José de Arimateia, da Demanda do Graal, do Rei Leir ou da História de Vespasiano, ouvi tais descrições pela boca de meu pai e pelo que depois fui lendo sobre a matéria, fui capaz de vos descrever nas páginas anteriores as vantagens que em tais artes os portugueses possuíam sobre os seus inimigos. O nosso pequeno Reino não tinha verdadeiros amigos, pois os que tinha eram de conveniência; amigos ou aliados de momento ou oportunidade; os aliados de hoje eram os ferozes adversários de amanhã, coincidindo no tempo, por vezes, essas duas antagónicas condições. Neste infortúnio, de pactos de aliança e amizades fugazes, e de ódios e traições duradouros, não estávamos sozinhos; esta era a realidade de toda a Europa e do Mundo.
Os soberanos eram e são quase todos familiares uns dos outros. Como sucede nas pequenas aldeias, nas cortes da Europa, quase só há pais, filhos, irmãos, primos, tios, sogros, genros e cunhados – todos estão ligados por laços familiares. E como sucede nas nossas famílias de aldeãos e vilões, lavradores ou oficiais mecânicos, compadres, irmãos, tios e sobrinhos, pais e filhos, irmãos, zangam-se, por mor de um riacho de água, de uma jeira de terra mal dividida ou de uma pulseira de uma avó defunta mal atribuída em partilhas, estes senhores, os reis e os príncipes zangam-se porque um quer roubar ao outro uma feitoria, uma província ou mesmo uma nação. A diferença está apenas na quantidade e não na qualidade, pois enquanto nas nossas zangas de pessoas pobres e humildes o pior que pode acontecer é um sobrinho dar uma sacholada num tio, ou vice-versa, ou um pai desferir uma bofetada a um filho, uma tia chamar puta a uma sobrinha, uma nora velha bruxa a sua sogra ou um primo cornudo a outro primo, com as querelas dos ricos, grandes e poderosos deste mundo, morrem por vezes milhares de seres humanos, ardem cidades, castelos, casas e searas, destroem-se igrejas, violam-se donzelas, assassinam-se velhos e crianças, morrendo pessoas e destruindo-se bens que não pertencem a nenhuma das famílias interessadas, mas sim aos seus desafortunados súbditos.
Por esse motivo, os arsenais de guerra, que brotam como cogumelos por esse mundo, não param de vomitar todos os dias adagas e espadas, arcos e frechas, alabardas, piques e escudos, bestas de garrucha e, mais recentemente, arcabuzes, elmos, bacinetes para a cabeça, que começam a ir sendo substituídos por celadas, com cobre-nucas em couro, morriões e, também, desde o final de Quatrocentos, com couraças e armaduras, providas de suas ombreiras, cotoveleiras, avambraços e escarcelas, para vestir por cima das velhas cotas de malha. Das bocas-de-fogo de exércitos de terra e de navios, já falei – colubrinas, serpentinas, falconetes bastardos, bombardas ou lombardas, órgãos artilheiros de catorze canos, canhões serpentinos, canhões pedreiros fundidos em bronze ou em ferro.
A imaginação e o engenho humanos, quando se trata de inventar e de fabricar artefactos que matem depressa e bem, não possuem peias ou fronteiras. Porque adoramos tanto a morte, a nossa e a dos nossos semelhantes? Se toda esta mórbida imaginação e este agudo engenho, estultamente desperdiçados para inventar novas formas de destruir os nossos irmãos, fossem postos ao serviço do bem, onde teríamos nós já chegado em termos de ciência útil e de amor pelo próximo? Por certo que teríamos alcançado paragens bem mais amáveis do que estas em que vivemos, com a ameaça da guerra, da fome e da peste pairando sempre como negros e feios morcegos sobre as nossas cabeças de estorninhos. Porém, não culpemos apenas as vulgares criaturas que em maioria povoam o nosso mundo. Vede o exemplo do florentino mestre Leonardo da Vinci, um dos varões mais sábios que viram a luz nos últimos séculos – a par das suas maravilhosas obras de arte que são espelho de uma luminosa inteligência, legou-nos também elaborados projectos para engenhos mortíferos que, graças a Deus, não houve capacidade dos oficiais mecânicos para pôr em prática. A teoria adiantou-se alguns séculos à prática. Porém, o tempo que o mestre Leonardo perdeu a conceber esses pesadelos de ferro, pólvora e madeira, não o poderia ter gasto de maneira mais útil?
São perguntas de um velho frade tonto, as quais, afinal, nada de profundo contêm, pois podem ser ouvidas em qualquer taverna e feitas por um borracho a quem o excesso de vinho tenha dado para a filosofice e, que passados minutos, esquecido de tão sábios pensamentos, está a dar uma navalhada noutro bêbedo que cometeu o pecado de o tentar enganar no jogo dos dados. Somos assim. Se Deus, na sua ilimitada sabedoria, nos fez a todos desta maneira, algum motivo terá tido para assim proceder. Não logro descortinar qual possa ter sido esse motivo. Deus deve amar muito os loucos, ou então não teria produzido tantos. E as Sagradas Escrituras também não me conseguem ajudar muito. Devo ser muito estúpido. Bem terá feito o irmão Malaquias em não me confiar a biblioteca. A minha cabeça até para governar os vergéis do convento e para escriturar as entradas de óbulos e os parcos gastos da casa, se revela fraca e insuficiente.
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Quando vos falei das perfídias, manobras de espia e traição de árabes, turcos, castelhanos, catalães, flamengos, ingleses, germanos, franceses, genoveses ou venezianos, não quis com isso dizer que nós, os Portugueses, somos gente santa e livre de pecado. Somos tão bons ou tão maus como os outros. Agora que o ocaso nos começa a atingir, após o Sol esplendoroso que as nossas naves espalharam pelo mundo, começa a ser possível falar, com a alguma isenção que a distância temporal nos concede, daquilo que aconteceu nesse período de ouro que foi desde a tomada de Ceuta até às primeiras décadas da era de Quinhentos.
A cobiça, a ambição armavam também os braços dos nossos guerreiros e nem a cruz que os clérigos que vinham logo atrás de archeiros, infantes, arcabuzeiros e artilheiros, exibiam, fazendo-a brilhar ao sol de Africa ou da Ásia ou das Terras de Vera Cruz, tornavam menos condenável os actos de selvajaria, de crueldade, de ferocidade, com que se destruíam aldeias de gentes primitivas, paraísos povoados por almas puras e inocentes como o devem ter sido os primeiros seres humanos que viveram sobre a Terra. Famílias separadas, cadáveres empilhados apodrecendo ou ardendo no centro da aldeia para servir de exemplo, mulheres violadas e depois mortas, crianças assassinadas, gente até então livre, embora talvez ignara e ímpia, transformada em levas de acorrentados escravos, vendidos depois a milhares de léguas do seu mundo, como se de qualquer outra mercadoria se tratasse, tudo isso, nós, como os outros, fizemos. Em nome da Fé.
Para infelicidade dos nossos inimigos e das nossas vítimas, tínhamos uma destreza náutica, filha de séculos de experimentação e herdada de árabes e de judeus, o hábil manejo de astrolábios, a sábia utilização e execução de mapas, a engenhosa construção de naves que, ano a ano e erro a erro, naufrágio a naufrágio, fomos adequando às necessidades da guerra e do comércio, tornando-se em verdadeiros prodígios de navegabilidade e de capacidade de manobra. A artilharia, quando a era de Quinhentos começava – e ainda agora – foi sem duvida a melhor que se fabricava na Europa, permitindo-nos, pela extensão do alcance, destruir os navios inimigos sem que os nossos ficassem expostos aos danos do seu fogo. No Índico, o que podiam os frágeis juncos, champanas e pangaios com suas colubrinas e falconetes bastardos contra as potentes bombardas das nossas naus e galeões? Mesmo a artilharia das caravelas e naus castelhanas, com as suas colobretas, as que mais se aproximavam das nossas em poder e alcance de fogo, não se atreviam a defrontar-nos a menos que a isso fossem forçadas. Quando as portinholas de ambos os bordos das nossas naus de três e quatro cobertas se levantavam, os inimigos bem sabiam que, para eles, estava a chegar o Inferno.
A equipação dos nossos infantes embarcados nas armadas, era superior em qualidade, leveza e eficácia, pois os elmos e morriões, a armaduras e cotas de malha, embora menos artísticos e belos do que as amaricadas borgonhotas de italianos e franceses, ainda que despojados de ornamentos desnecessários para quem vai morrer, matar, ou ambas as coisas, eram mais adequados à guerra moderna, mais fáceis e mais baratos, após se ter encontrado o modelo adequado e a forma de o produzir em grande quantidade. Por exemplo, as langues de boeuf, também chamadas cinquedea, usadas pelos Venezianos, eram muito belas, mas menos eficazes na luta corpo-a-corpo do que as nossas espadas de dois gumes, com as mãos bem protegidas por um espigão paralelo ao punho.
O mesmo se pode dizer de piques, escudos, espingardas, arcabuzes, canhões… Em suma, o engenho de bem e depressa matar, transformou-se numa refinada arte e numa lucrativa indústria. Na altura em que vos escrevo, castelhanos e, sobretudo, flamengos, envolvidos em múltiplas guerras por toda a Europa, começam a ultrapassar-nos na compreensão de que a guerra sendo coisa estúpida e criminosa, não pode ser santificada por pendões de seda, elmos esculpidos e encimados por plumas, falconetes apoiados em ninfas ou anjos. A morte, a destruição, a profanação de templos, a pilhagem, o assassínio indiscriminado de velhos e de crianças, a violação de indefesas mulheres, são actos asquerosos. Não vale a pena embrulhá-los em prata, mármore, bronze ou ouro – é dinheiro mal gasto.