O MAPA (A saga do anadel/69- Agostino Barbarigo – por Carlos Loures

                                   Veneza, Palácio Torriani, noite de terça-feira, 1 de Outubro de 1487.

 

Ao fim da tarde, a cumprindo o plano traçado, Lourenço, saiu da estalagem vestido de sultão, embora as vestes fossem cobertas pela capa de veludo. Como disse, uma postura proibia desde há tempos o uso de disfarces na via pública. Embuçado, com o capuz cobrindo-lhe o rosto, estugou o passo e dirigiu-se ao seu destino. Apesar de o crepúsculo ter começado a dar lugar à noite, o calor persistia e o pesado manto fazia-o suar. Atravessou, com passadas largas, o centro da cidade, não despertando atenções. Em pouco tempo, chegou ao Palazzo Torriani. À cintura, exibia a cimitarra de folha-de-flandres, embora por dentro da capa estivessem escondidas a espada e a adaga, armas verdadeiras que trouxera de bordo. Antes de transpor a cancela de madeira, colocou no rosto a máscara, com o nariz adunco, as carregadas sobrancelhas, os façanhudos bigodes e a pontiaguda barbicha de um sultão turco ou daquilo que se convencionara ser um sultão turco.

         Tal como Giuliana prometera, a cancela estava encostada, tendo bastado dar-lhe um leve empurrão para a abrir. Fechando-a atrás de si, atravessou, com as passadas decididas de quem conhecia o caminho, o jardim do palácio, que era antecedido por um laranjal. Entre as portas e janelas que deitavam para o jardim, cerradas quase todas, facilmente localizou a porta da cozinha aberta e brilhante de luz de candeias, de velas e de tochas. Como Giuliana previra, passeavam guardas e convidados, estando estes geralmente aos pares de sexos diferentes. Nem uns nem outros prestaram atenção à sua entrada. Ouvia-se o ruído de louças entrechocando-se e de vozes dando ordens. Antes de transpor o limiar, pôs o capuz para trás e abriu a capa, deixando ver o disfarce e a máscara. Atravessou a soleira da porta com ar decidido. Havia um grande movimento na cozinha, homens e mulheres cozinhando, enfeitando escudelas, pratos e travessas, colocando pão em cestos, enchendo grandes canjirões de vinho.

Ninguém lhe deu atenção. Os atarefados servos afastavam-se para não chocar com um convidado cujas roupas não era conveniente sujar, não fosse ele algum dos amigos do patrão. Criados e cozinheiros, mergulhados nas suas obrigações, não lhe prestaram atenção, parecendo nem o ver. A tarefa de cozinhar, enfeitar travessas de iguarias e de bandejas com doces, de encher jarros com bebidas, de transportar tudo para os salões, absorvia-os, pois, pelo que a serva dissera, os erros não eram ali aceites com benevolência. Pôde observar que pedaços de aves estavam dispostos de forma a assemelhar-se a peixes, doces de massapão e amêndoa exibiam o aspecto de faisões, lombos de peixe, do que lhe pareceu ser lubina ou robalo, estavam dispostos e coloridos com tempero de especiarias, como se de viandas de porco ou de boi se tratasse… Fantasias gastronómicas que encerravam uma metáfora – ali nada era o que parecia ser.

         Procurou Giuliana, mas em vão. Isso não tinha agora importância, uma vez que a rapariga cumprira a sua parte, avisando-o da realização da festa e deixando-lhe a cancela entreaberta. Pudera, graças a essa ajuda, penetrar dentro da praça. O sucesso ou o fracasso eram coisa de sua responsabilidade. Mesmo sem ajuda, encontrou o caminho para o salão principal. Bastou observar os dois carreiros de formigas, as filas de criados que saíam e entravam – os que saíam iam com bandejas carregadas e jarros cheios, os que entravam vinham com cestos e canjirões vazios. Seguindo o caminho dos que saíam e orientado pelo som da música e pelo ruído das vozes, através de um estreito e mal iluminado corredor chegou ao salão onde, mais do que bailar, as pessoas conversavam em grupos. A sala estava cheia, apesar da grande capacidade. Centenas de velas iluminavam o espaço, cuja dimensão, assistência e luminosidade eram virtualmente multiplicados pelos numerosos espelhos que forravam as paredes até dois terços da altura; para cima, até ao tecto era território de mármores. Ouviam-se risos, gritos, os músicos tocavam, havia comida e bebida a rodos. Não teve dificuldade em se misturar com a multidão de mascarados – diabos, sátiros, ursos bailarinos, guerreiros romanos, astrólogos, médicos, bobos, camponeses, frades, neptunos, pastores, anjos, príncipes persas, sátiros, frades, asnos… Não viu nenhum outro turco. Afinal, gastando pouco dinheiro, conseguira obter alguma originalidade.

Piero Torriani foi fácil de identificar, pois, trajado de centurião romano, tinha, no entanto, a máscara na testa e a cara descoberta, violando as regras que ele próprio estabelecera. Era um homem robusto que dobrara já a casa dos cinquenta anos, moreno, de mediana estatura, rosto redondo e olhos vivos e alegres. Parecia ser, desmentindo a sinistra crónica que sobre ele se tecia, pessoa cordial e afável. Estava rodeado de seis homens mascarados, que riam de tudo o que dizia. Pelo menos três deles bajulavam-no visivelmente. Os restantes mantinham um ar mais circunspecto. Ao lado, estava a esposa, uma senhora mascarada de rainha, com um diadema que parecia e, ao contrário das comidas, certamente o era, de ouro e com jóias verdadeiras. Era uma dama elegante que mantinha ainda vestígios de beleza, ainda que precocemente envelhecida.

         Passando muito perto desse grupo, sem levantar qualquer suspeita, pareceu-lhe que três dos homens, os menos exuberantes na bajulação, misturavam palavras castelhanas nas frases em italiano. Deveriam, portanto, ser os emissários da Coroa de Castela que vinham comprar a cópia do mapa. Tratava-se agora de estar atento e de não os perder de vista. O negócio não devia ainda ter sido concretizado. Mas, se a transacção já estivesse feita, os castelhanos iriam, mais tarde ou mais cedo, sair e teria de os seguir sem lhes perder o rasto e, fosse como fosse, tirar-lhes o mapa. E se saíssem de barco? Não poderia segui-los a nado. Poderia roubar um dos pequenos barcos amarados no ancoradouro da entrada. Para tal, teria de iludir a vigilância dos guardas… Bem, um problema de cada vez.

         Conseguiu também, após algumas tentativas, localizar Elisabetta, que estava linda, mascarada de pastora, pois tal como para os jardins não se deve levar flores, a beleza natural não precisa de ser adornada. Apesar da rendada mascarilha, denunciavam-na os seus longos e belos cabelos, as suas gargalhadas cristalinas de quem, apesar do humilde disfarce, possuía o incontestável estatuto de rainha da festa. Denunciavam-na também o número de jovens de ambos os sexos que a rodeavam, lisonjeando-a e prestando-lhe culto, em atenção ao poderoso pai. Em suma, apesar de toda a sordidez que Lourenço sabia existir por detrás das aparências, aquela era uma festa normal, com tudo o que isso significa – bailava-se, trocavam-se banalidades, cantava-se, comia-se e bebia-se muito, conversava-se, namorava-se, conspirava-se ou fazia-se negócios. As pessoas pareciam estar a divertir-se. Por tentativas, sem caminhar a direito, como que por acaso, errando entre os convivas, procurava aproximar-se do círculo onde estava Elisabetta. Tinha a esperança, fundada na sua intuição, de que, por um lado, a rapariga não o denunciasse e, por outro, o de junto dela obter alguma informação útil. À sua passagem, alguns convidados, sobretudo senhoras apupavam-no, fazendo gestos de receio perante o seu ar de façanhudo otomano. Correspondia, levando ameaçadoramente a mão ao alfange ou retorcendo os fartos bigodes e inclinando os ombros para a frente com um ar furibundo. As senhoras riam-se e fingiam-se apavoradas quando lhes aproximava dos rostos, com ar ameaçador, o nariz enorme. Porém, de repente, apesar de toda a euforia que reinava pela sala, fez-se silêncio, escutando-se depois um reverencial sussurro. Abriram-se alas. Rodeado por uma corte de notáveis e de homens de armas, chegara o doge, o supremo magistrado da Republica. Sua Serenidade Messer Agostino Barbarigo

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Agostino Barbarigo, sucedera, um ano antes dos factos que vos narro, ao seu irmão mais velho, Marco Barbarigo, que morrera em 1486 com setenta e três anos. Marco fora doge apenas durante um ano e era por todos considerado, apesar de pertencer a uma família «nova», um homem íntegro e inteligente. Atingira a mais alta magistratura da República numa altura em que Veneza era assolada por uma devastadora epidemia de peste. A coroação foi realizada sob copiosa chuva, considerada pela população coisa muito benéfica para, lavando a cidade de sujas escorrências, ajudar a extinguir a temida pestilência. Marco Barbarigo teve um dogado breve e tranquilo. Oriundo de uma família poderosa e de grande fortuna, era chamado o Rico. O facto mais saliente do seu governo foi, segundo os cronistas, o de ter posto termo, no território veneziano, à secular luta entre Guelfos e Gibelinos, o que não foi coisa pouca. Esta guerra eclodira em 1215 em Florença, sendo os Guelfos, partidários de Otão IV, e os Gibelinos apoiantes de Frederico II de Hohenstaufen que disputava a coroa imperial ao primeiro. A luta estendera-se às outras cidades italianas e neste final de século perdera qualquer razão de ser, mortos que estavam há muito os que a haviam desencadeado. Marco impôs a paz com um discurso, de tal modo vibrante que, já idoso e doente, lhe provocou uma forte e fatal hemoptise.

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