A “casa” sempre foi, ou tentou ser, um local de refúgio, de abrigo, de segurança, de privacidade, de aprendizagens várias para que todos os seus “habitantes” vivam de uma forma feliz, com memória, como local onde crianças e idosos possam conviver com dignidade.
Pena é que o conceito de dignidade se tenha adulterado, em todas as suas dimensões. Dentro de “casa” o bem estar deveria estar em primeiro lugar, mas, como nos tem ensinado a sociologia, a “casa” começou a ser um sítio onde se cometem as maiores faltas de respeito pelo outro, tornando a casa, não já um sítio de abrigo, mas de violência.
Mas nem sempre a “casa” tem sido assim vivida. A “casa” abriga os seres humanos que nela investem material e emocionalmente, a casa tem memória, a casa aconchega, faz parte do nosso imaginário, da nossa vida.
Esta semana vimos na televisão um casal, por volta dos 60 anos de idade, a viver dentro de um carro que lhes pertencia.
Estas pessoas foram desalojadas, como todas, à força porque tinha que ser demolida para dar origem a um prédio de habitação.
A mulher aparece no écran com ar desleixado (não se poderia esperar outra coisa), a chorar porque lhe tinham tirada a casa e eles não tinham onde dormir… a mulher nas poucas palavras que disse, entre lágrimas que lhe desciam pelo rosto marcado por uma vida difícil, e por este tempo em que os números valem mais do que as pessoas.
O homem, com a barba por fazer e de boné na cabeça, onde se adivinha um cabelo a precisar de ser lavado…disse que tinha sido desalojado porque comprou uma casa, com um empréstimo do banco. A dívida é de 25 mil euros e eles não o têm.
O que aconteceu para chegarem a esta situação não sei, mas sei que não houve ninguém que tivesse feito uma mediação entre o banco e o casal.
Os seus rostos espelhavam o desânimo de quem não sabe o que fazer para além de viver
no seu carro.
Têm mantas para se abrigarem do frio e têm dois amigos fieis, os seus dois cães, que parecem ter percebido que os donos estavam a sofrer. Não se afastam e tomam conta do colo da dona.
Chove muito, está muito frio e eles ali no carro à espera de um dia melhor e que esse dia seja amanhã, ou ainda hoje.
O carro está no meio de um campo deserto, tão deserto como o bem estar de estes nossos cidadãos.
Sim, estão aqui, não estão em nenhum país distante.
Estão aqui, num país de gente solidária que já lhes têm dado apoio, como ir ter com eles só para conversar, para não se sentirem perdidos no mundo, como ir ter com eles para lhes dar comida, bebidas quentes e um sorriso…
Oxalá a Segurança Social intervenha neste caso, que a autarquia arranje maneira de minorar esta situação.
Quero acreditar que sim.
Penso que ainda se lembrem que a Habitação é um dos Direitos Humanos.