OS ESTADOS UNIDOS E O NEOCONSERVADORISMO – COMO É QUE O PARTIDO DEMOCRATA SE TORNOU O PARTIDO DO NEOLIBERALISMO – por ARON GUPTA – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Como é que o Partido democrata se tornou o Partido do neoliberalismo[1]

How the Democrats Became the Party of Neoliberalism

 ARUN GUPTA, 31 de Outubro de 2014

 

Há uma crítica normal do sistema político EUA que parece explicar porque é que as ideias de direita determinam a agenda nacional mesmo quando os democratas controlam a Casa Branca e esta é : o Partido Democrata não conta aqui para nada e os republicanos são o partido dos ideólogos.

Os seis anos da presidência de Obama estão o principal deste texto, Durante a sua vencedora campanha eleitoral de 2008, Obama apresentou-se como um sendo um quadro de ardósia onde nada estava escrito prometendo uma amorfa “esperança e mudança”. A sua campanha encorajou os eleitores a verem Obama como um candidato da transformação que queria acabar com as guerras sangrentas dos EUA, reanimar a economia com um Green New Deal, criar um espaço aberto para as organizações dos trabalhadores, resolver a crise de imigração e tomar medidas corajosas para aliviar as mudanças climáticas.

Em vez disso, Obama bombardeou sete países (mais que Bush), deportado um número recorde de imigrantes, matou a reforma da imigração por negligência, minou os acordos sobre mudanças climáticas de Copenhaga em 2009, atacou os sindicatos dos professores, abandonou a legislação “card-check” legislação esta que iria dinamizar as unidades sindicais e ofereceu pouco mais que retórica quanto aos aumentos de salários.

Obama, no entanto, não se poupou esforços para resgatar os iates a afundarem-se. Em outubro de 2009, o New York Times observou que os resgates começaram um ano antes e alimentaram uma “nova era de riqueza Wall Street.”

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Isto irá moldar o seu legado: a taxa de desemprego real está ainda em 12 por cento e, desde 2008, são 5,5 milhões de americanos a viverem na pobreza e o rendimento familiar médio diminuiu de 4,6 por cento. Os lucros das empresas estão no seu nível mais alto desde que passou a haver registo, ou seja, desde 1929, a taxa de tributação das empresas é efetivamente é menor do que em outra altura desde a era do presidente Hoover e os trabalhadores estão a levar para casa a mais pequena parcela do rendimento nacional desde há 65 anos.

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Quadro de síntese:

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Obama e os dirigentes do Partido Democrata deixaram passar poucas oportunidades para saltar por cima da sua base eleitoral e às claras.

Obama e os dirigentes do Partido Democrata deixaram passar poucas oportunidades para que a sua base eleitoral não se virasse contra eles

Eles abandonaram os seus apoiantes sempre que as questões se tornavam controversas, como por exemplo aquando das emissões de carbono, do financiamento federal dos cuidados de saúde ligados à reprodução, legislação anti-sindical. Em contraste, os republicanos mantiveram sempre as suas armas na prossecução de uma agenda ideológica de redistribuição ascendente da riqueza, do aumento da polícia e das forças militares e de aplicação de políticas sociais reacionárias.

É por isso que os republicanos estão preparados para garantir uma maioria no Senado dos EUA nas eleições parlamentares no próximo mês. Eles defendem alguma coisa e mobilizam a sua base. Obama, no entanto, pouco tem feito pelos trabalhadores americanos desde a reforma dos cuidados de saúde provada no início de 2010.

Mas é tempo de repensar esta noção de que aos democratas lhes falta princípios. Eles têm uma agenda clara e representam ideologicamente bem mais do que os republicanos. Democratas como Obama estão dispostos a perder podem nome de levaram e cabo a agenda neoliberal. Desde a era Clinton, os democratas têm sido os arquitetos mais eficazes das políticas que aumentem a riqueza e o poder dos que estão no topo da pirâmide económica. Agora, o neoliberalismo é muitas vezes visto como sinónimo de privatização, desregulamentação e liberalização das trocas comerciais e dos movimentos de capital, mas o Estado pode colocar de lado estas políticas estatais e passar a apoiar as elites desde que estas tenham entrado num caos por elas criado como aconteceu com o crash de Wall Street.

Isto deixou o Partido Democrata numa situação de mãos atadas. Posteriormente, apoiaram-se nos votos de grupos sociais como mulheres, sindicalistas, negros, latinos e ambientalistas que defendem políticas de redistribuição, como equidade de gênero na repartição dos rendimentos, um aumento do salário mínimo, redução dos custos de cuidados de saúde, mais proteção ambiental e direitos mais fortes para os imigrantes. Ao mesmo tempo, os democratas precisam de milhares de milhões de dólares para organizarem aas campanhas para as eleições e alimentar a sua máquina partidária. Assim, os democratas vão de chapéu na mão às empresas e em troca prometem mais incentivos fiscais e incentivos para aumentar a rentabilidade das empresas. Os democratas nunca estão tão comprometidos com a ideologia do mercado livre como os republicanos. Os democratas precisam de satisfazer algumas necessidades da sua base social de apoio enquanto os republicanos movem os postes da baliza mais para a direita e ficam à espera que os democratas os apanhem.

Para resolver a contradição, os democratas como Obama e a provavelmente nomeada candidata às eleições presidenciais de 2016, Hillary Clinton, dizem-nos que irão gerir a economia trickle-down com mais eficiência. Isto irá aumentar os impostos para uma redistribuição modesta com base no mercado, na forma de cuidados de saúde, habitação e subsídios de Ensino Superior, e benefícios fiscais para os trabalhadores pobres. É o papel que muitos dos tradicionais partidos de esquerda praticam noutros países. Democratas oferecem um pouco mais de financiamento, minúsculo quando comparado com as despesas militares e com os benefícios para as empresas, em talões de refeição de alimentos, em apoios aos sem domicílio e subsídios para pagamento da energia. Mas o compromisso com a agenda neoliberal deixa os programas vulneráveis. Obama prontamente cortou dezenas de milhares de milhões de dólares em assistência social para apaziguar os republicanos a protestarem contra uma dívida nacional de $ 17,9 milhões de milhões. Obamacare é também parte deste quadro. Embora tenha estendido a cobertura para milhões não segurados, o objetivo era o de reduzir os custos através de uma intensa reestruturação neoliberal que se traduziria numa redução da qualidade global dos cuidados de saúde.

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Os republicanos optam por uma luta de classes evidente como fortes reduções fiscais para os ricos sob Reagan e Bush Jr. Mas a qualidade dos republicanos de extrema-direita que entraram para o Congresso em 1994 levou-os a fazer contra a economia um jogo de vida ou de morte (jogo da galinha) se isto serve os seus interesses de poder, como o fizeram repetidas vezes, com a paralisação da Administração (shutting down) e levando à descida do rating de crédito dos EUA.

Na falta de uma visão progressista, os democratas seguirem o Partido Republicano no que diz respeito à política económica, empurrando-o para o centro-direita do espetro político. A maioria dos canais dos media tem muito pouco interesse em explicar em como é que as condições históricas moldam a política, preferindo a má-língua sobre a personalidade, os valores, gostos e a linhagem dos candidatos. No entanto, é a contradição histórica em que os democratas se deixam enredar que explica como e porque é que Bill Clinton e Obama prosseguem uma agenda neoliberal que acabou com as esperanças dos seus apoiantes, resultando daí a maior derrota em termos de mandatos nas eleições intercalares para o Congresso que algum Presidente já teve na era moderna. Isso também explica porque é que os democratas vão perder provavelmente o Senado americano em novembro de 2014.

(continua)

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[1] Texto disponível em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/How-the-Democrats-Became-The-Party-of-Neoliberalism-20141031-0002.html

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1] Veja nota no final do texto, sobre Clinton. Sugiro-lhe que tenha a curiosidade de confrontar esta nota, um excerto de um livro de Dean Baker-Weibroot , com os discursos oficiais sobre as pensões de reforma que se têm ouvido desde há anos. E questione então onde é que está o erro.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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