O MAPA (A saga do anadel/73) – Os homens do Ulrich -por Carlos Loures

Mal refeito ainda da desagradável surpresa de ali ver Julián, apurou a audição. Era o andaluz quem intervinha naquele momento. O desenhador de cartas, piloto e, pelos vistos, também espia, contava em tom impante como escutara a conversa dessa tarde entre Lourenço e Van der Meer. Revelava também que, após, a saída do português o capitão o chamara à sua cabina e lhe tinha feito um relato, revelando-lhe os pormenores que lhe tinham escapado durante a escuta. Esta era a noite de todas as surpresas – Van der Meer era também um inimigo de Portugal, com a agravante de receber dinheiro da Coroa portuguesa e de figurar na lista de pagamentos de suas majestades católicas. Entretanto, a conversa entre aquela cáfila de traidores e de corruptos com os emissários de Castela, que apenas cumpriam o seu dever de bons e leais súbditos, prosseguia de forma muito animada. Torriani revelou depois que, após ter sabido pelo andaluz – que por seu turno o soubera pelo capitão flamengo – que Lourenço subornara uma criada de sua filha Elisabetta para entrar no baile, desconhecendo, no entanto, de qual delas se tratava, conseguira sem dificuldades averiguá-lo. Para tal, usara uma artimanha muito simples: reunira as criadas mais jovens, pois soubera tratar-se de uma jovem, e ameaçara-as a todas com coisas terríveis, caso aquela que ia introduzir o português na residência não se denunciasse. Teria também de dizer antes de ser levada para fora do palacete como vinha o espião português mascarado. O que, desfeita em lágrimas, a aterrorizada rapariga fizera. Nuñez dissera-lhe já que Lourenço, por astuta sugestão de Van der Meer, viria, muito provavelmente mascarado de turco, mas havia que confirmar esta informação. A pobre criada confirmara-o. Assustada de morte, a rapariga dissera ainda ter pensado que o interesse do rapaz era apenas na jovem filha do mercador, por estar dela enamorado e não suspeitando de que pudesse existir outra espécie de motivos.

Torriani disse ter, apenas porque se sentia feliz, poupado a vida a Giuliana, limitando-se a esbofeteá-la com força suficiente para que tão cedo não se esquecesse do gravíssimo erro que cometera e, em seguida, a despedi-la e enviá-la de volta à sua aldeia. Confessou, depois, que este gesto de magnânimo perdão o tivera porque a filha gostava muito daquela serva e ficaria zangada com ele caso matasse a rapariga, como lhe apetecera e devia ter feito. Fora fraco, mas, que queriam eles? Aquela menina era a luz dos seus olhos, o Sol da sua vida, e, no fundo, bem no fundo e apesar das coisas terríveis que se contavam a seu respeito, possuía um terno, um débil coração de manteiga. Todos os presentes, incluindo o próprio, se riram, primeiro pela excelsa, pela magnânima benevolência do mercador para com a estúpida criada, e depois, pela sua fraqueza, justificada por uma grande ternura paternal. Esta notícia deixou Lourenço mais aliviado, pois temera que a rapariga tivesse sido apunhalada, como parecia ser tão corrente por ali, e atirada às águas de um canal. Se isso tivesse acontecido, não poderia deixar de se sentir responsável. Entretanto, Torriani prosseguia o seu relato. Dado facto de os sicários terem morto o único sultão turco que tinham encontrado, significava uma de duas coisas: ou a rapariga mentira para proteger o subornador e a sua mentira coincidira com a sugestão que Van der Meer dera a Lourenço, e neste caso os seus homens iriam à aldeia da rapariga ajustar contas. Ela não perderia pela demora, porque, como acentuou, «até mesmo para a sua grande bondade havia limites». Outra hipótese era a de haver mais do que um turco dentro da casa. Porém, os sicários tinham percorrido o palácio à procura de um outro sultão. Até agora sem êxito.

         Disse ainda que, momentos atrás, no salão, vira a filha a falar com um homem com ar de ser jovem. Embora se lhe afigurasse ser um estrangeiro, pois falavam em francês, o suspeito estava disfarçado de bufão e não de turco. Já interrogara Elisabetta sobre o tal bufão, mas ela dissera-lhe tratar-se de um secretário do legado do rei de França, com o qual trocara apenas algumas palavras. Talvez, prosseguiu Torriani, o tal bandido a soldo do rei de Portugal ou se tivesse amedrontado e desistido de vir ou se tivesse escondido. Se desistira, fora cobarde, mas inteligente – todos riram com este novo dito espirituoso – porém, continuou, caso fosse audacioso e estúpido e andasse por ali ou estivesse escondido, por certo o iriam encontrar, pois o seu pessoal estava neste momento a vistoriar toda a casa.

         Julián fez uma breve interrupção ao relato do mercador, afirmando que «el perro portugués», não seria por medo que desistiria da missão. Era corajoso e destemido, afirmou. Acrescentou que «el otro, el viejo perro judío» pagara já pelo mal que fazia a Castela, mas que antes de ter sido silenciado deveria ter informado o português sobre o local da reunião. Após este esclarecimento, que, ao confirmar que fora Julián ou alguém a ele ligado quem degolara Saul, aumentou o elevado grau de fúria em que fervia a cólera de Lourenço, o mercador continuou a sua intervenção. Se não o encontrassem, logo que terminasse a reunião e descessem de novo ao salão, ordenaria aos convidados que retirassem as máscaras, mesmo antes da convencionada meia-noite. A casa estava já cercada por guardas armados e ninguém, nem sequer um rato, poderia escapar. Nessa altura se veria se o bandido aparecia ou não. Julián, o único de todos eles que conhecia pessoalmente o português, identificaria o seu «amigo» entre a multidão de convidados .      Com educada subserviência, os presentes riram de novo deste espirituoso dito, sobretudo da palavra amigo. E, perante o efeito produzido, repetiu, agora no seu idioma – amico, amico! Ma che amico questo! E dava punhadas na mesa, rindo mais do que os outros.

Quando por fim acalmou da explosão de hilaridade, Torriani acrescentou ainda um dado que seria útil para a redacção do relatório da missão, desde que conseguisse sair com vida do palácio para poder escrever tal informe – o doge Messer Agostino Barbarigo, que tinha sido apresentado aos emissários castelhanos no salão, mas que, como convinha, apenas os cumprimentara com um aceno formal, estava ao corrente das negociações e da sua importância para os dois estados, embora, por motivos evidentes não pudesse estar presente na reunião, enviava pelos embaixadores as suas mui respeitosas saudações a suas católicas majestades. Torriani, representava na reunião os interesses da República. Talvez se tivesse esquecido de dizer que representava sobretudo os seus interesses corrupto mercador. Mas talvez isso fosse desnecessário, pois todos ali, incluindo Lourenço, sabiam que assim era. Uma conclusão havia a tirar das palavras que ouvira – tinha de se apressar, pois os sicários andavam a vistoriar a casa «palmo a palmo e de alto a baixo». Teriam começado a busca pelos jardins e pelo andar térreo, mas em breve subiriam as escadas. Porém, antes de tentar cumprir a sua missão e de procurar fugir, colocando-se a resguardo da busca, Lourenço escutou a mais importante revelação daquela noite. O mercador, procurando valorizar-se perante os emissários castelhanos, afirmou com grande ênfase:

         – Desta vez, nós conseguimo-nos antecipar aos tudescos e pudemos ser nós a servir os interesses de suas majestades os reis de Castela e Aragão – e, após uma pausa, continuou – Há uns anos atrás, os homens do Ulrich, segundo me disseram – e olhou Julián, que assentiu com a cabeça – fizeram uma tentativa para roubar uma cópia do mapa num debuxante de Lisboa. Mataram o homem e não conseguiram nada – riu-se – Nós, fomos buscar o mapa onde? À fonte: ao arquivo real em Lisboa, claro, e aqui está ele – apontou o rolo envolvido pela fita de seda. «Os homens do Ulrich?» Lourenço acabava de ver levantar-se uma ponta do véu que até então cobrira a morte de seu pai. Porém, para lá dessa cortina continuava a apenas se vislumbrar névoa.

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