OS ESTADOS UNIDOS E O NEOCONSERVADORISMO – O LEGADO DE OBAMA: O QUE É QUE DE FACTO ACONTECEU? – por RODRIGUE TREMBLAY – III

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O legado de Obama: o que é que de facto aconteceu?

Barack Obama’s Legacy: What Happened?[1]

RODRIGUE TREMBLAY, 30 de Maio de 2016

(CONCLUSÃO)

Estatísticas oficiais do governo tendem a subestimar o desemprego real e a inflação real

Todas aquelas guerras travadas no exterior e os milhões de milhões de dólares gastos têm enriquecido alguns norte-americanos super-ricos, mas não os americanos comuns. Em vez disso, estes sentem-se cada vez a empobrecerem. Os americanos comuns estão a ficar para trás porque os seus rendimentos estão a ficar estagnados ou em queda, e porque o desemprego e a inflação são, de facto, bem mais elevados do que é oficialmente relatado.

Segundo as estatísticas oficiais, as taxas anuais de desemprego e de inflação (o índice de preços ao consumidor) parecem estar sob controlo. Para o primeiro trimestre de 2016, a taxa de desemprego dos EUA situa-se em torno de 5,0 por cento, enquanto a taxa de inflação é levemente acima de 1,0 por cento, esta levada à descida pela baixa dos preços do petróleo e por um dólar relativamente forte.

O problema com as estatísticas oficiais, no entanto, é que o método do seu cálculo tem variado ao longo do tempo. Isso não significa que as novas medidas sejam deliberadamente enganadoras. Significa apenas que as antigas medidas podem ser um melhor indicador de como o desemprego e a inflação têm impacto sobre alguns setores da população.

De fato, alguns economistas preferem confiar nos antigos métodos de cálculo sobre desemprego e a inflação para obterem uma imagem mais realista da situação que as pessoas comuns estão a atravessar. Por exemplo, o economista americano Walter J. Williams calcula as chamadas estatísticas de desemprego e de inflação “alternativas”.

Para o desemprego, algumas categorias de pessoas desempregadas têm sido excluída das estatísticas oficiais publicadas. Por exemplo, os trabalhadores desencorajados de longo prazo e de curto prazo, que não estão activamente à procura de trabalho, foram excluídos da nova medida oficial da taxa de desemprego, em 1994. Nem as estatísticas oficiais contam os trabalhadores que estão a tempo parcial e que são forçados a trabalhar a tempo parcial porque não conseguem encontrar emprego a tempo inteiro.

Como consequência, quando as taxas de participação de trabalho caem por causa do que acabamos de dizer, as estatísticas oficiais de desemprego indicam um declínio no desemprego, embora isto não seja realmente verdade. De acordo com algumas estimativas, se o desemprego e o subemprego fossem tidos em consideração, a taxa alternativa de desemprego, em abril de 2016 seria de 22,9 por cento, e não a medida oficial de uma reduzida taxa de 5,0 por cento.

Da mesma forma, as medidas oficiais de inflação foram alteradas em 1980 e em 1990, como forma de reduzir os ajustamentos anuais devido às variações anuais do custo de vida para efeitos das pensões de reforma. Por exemplo, quando os preço de alguns itens aumentam, estes são substituídos no cabaz de compra dos bens de consumo por outros bens, de menor custo. Da mesma forma, se o preço de alguns bens aumenta, um tal aumento é reduzido por um fator refletindo a qualidade superior dos produtos disponíveis. Se o velho método de cálculo da inflação tivesse sido utilizada, em abril de 2016, a taxa de inflação anual alternativa seria não de 1,13 por cento, como é indicado pelas medições oficiais do IPC (IPC- índice de preços ao consumidor) mas teria sido de um valor bem próximo dos 5 por cento, segundo uma dada metodologia de cálculo e seria perto de 9 por cento segundo uma outra metodologia..

Tudo isto para dizer que quando as pessoas vêem as suas rendas, as sua taxas de condomínio, os seus impostos, as suas compras de supermercado, etc., a subirem de preço, e sentirem na pele uma queda no seu padrão de vida por causa de seus rendimentos estarem a estagnar ou mesmo em declínio, eles não estão necessariamente alucinados.

A administração Obama tem permitido às grandes empresas e aos grandes bancos deslocalizarem empregos e lucros

A principal característica dos nossos tempos é que os lucros das grandes empresas estão em alta, enquanto os salários estão estagnados, e os impostos destas mesmas empresas estão a descer.

Na verdade, uma resposta parcial às muitas questões levantadas acima é o fato de que a Administração Obama tem sido acusada de estar a continuar e mesmo a intensificar a tendência à baixa dos impostos a favor das grandes empresas, e assim a permitir mais lucro para as grandes empresas e para os megabancos.

Em primeiro lugar, a administração Obama deu início a dois gigantescos “acordos comerciais” internacionais. Esses acordos comerciais têm sido mantidos em grande parte em segredo, porque um dos seus objectivos é garantir a proteção legal às empresas mundiais e aos megabancos contra os governos eleitos e dar-lhes então imunidade em processos que contra elas possam ser levantados pelos governos nacionais.

Os mais mais recentes exemplos de tais “acordos” são o Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) com a Europa e o Transpacific Trade Partnership (TTP)  com países da Ásia.

Deve ser entendido por todos que estes acordos chamados de “livre comércio” não são realmente acordos de livre comércio para o livre movimento de bens entre países e com base nas vantagens comparadas nacionais, mas são na verdade acordos estabelecidos pelas grandes empresas e grandes bancos para proteger as grandes empresas e os megabancos contra os governos nacionais de acolhimento, contra a sua tributação e a sua regulamentação.

Estes acordos, negociados em segredo quase completo, prosseguem objetivos geopolíticos. Eles são uma tentativa de construir uma ordem económica e financeira mundial que substitua a dos estados nacionais e que represente igualmente uma tentativa de proteger as elites das grandes empresas e dos megabancos contra as políticas dos estados nacionais, ou seja a querer garantir a proteção dos 1% mais ricos contra eventuais posições dos governos nacionais. No caso do TTIP, o objetivo geopolítico do TTIP é evitar que os países europeus façam acordos de desenvolvimento de comércio global com a Rússia. No caso do TTP, o objectivo é o de isolar a China. Aos olhos dos planeadores neocon DC de Washington, fazem parte da guerra económica em curso.

Em segundo lugar, a administração Obama não tem tomado as medidas necessárias para impedir que indivíduos ricos, grandes empresas e bancos continuem a utilizar os paraísos fiscais e os regimes de inversão industrial para evitar o pagamento de impostos em casa.

A administração Obama, e mais ainda, todo o Congresso dos Estados Unidos, estão sob a influência destes mesmos interesses, cujo objetivo é construir um sistema económico e financeiro mundial que proteja a riqueza e o poder dos 1% mais ricos contra qualquer conflito com os governos nacionais, pelo menos relativamente aos governos que a elite internacional ainda não controla totalmente. Estamos aqui a falar de um império económico e financeiro mundial não eleito sem fronteiras, livre de regras democráticas normais.

Isto pode ser um grande fator para explicar porque é que a economia está a definhar. Na verdade, quando os lucros das empresas não são reinvestidos na economia, são entesourados e escondidos em paraísos fiscais e desta forma não aumentam a procura doméstica. As grandes empresas americanas têm cerca de US $ 1,400 milhões de milhões em paraísos fiscais estrangeiros “dormentes”. Se todos estes dinheiros fossem repatriados não somente os governos teriam um défice mais baixo como a economia poderia beneficiar grandemente pelo aumento dos investimentos.

Esta é uma situação um tanto escandalosa da administração Obama e do Congresso dos EUA, pois contra isto foi feito muito pouco. Pelo contrário, ambos foram muito lentos ao colocarem um fim nas chamadas “inversões” empresariais, que permitiram às empresas encontrar uma contraparte estrangeira para mudarem as suas respectivas sedes e assim esquivarem-se ao pagamento de impostos. Ambos alargaram a protecção das patentes às empresas bem implantadas à custa de empresas nascentes. E só muito recentemente se mudou quanto ao bloquear as chamadas megafusões e tudo isto tem reduzido a concorrência, criado oligopólios, um crescente poder de mercado das grandes empresas e aumentos dos preços.

Este talvez o exemplo mais gritante da falta de liderança económica pela parte da administração Obama, secundado talvez pelas guerras imperiais a que deu início e incentivou. É verdade que Obama tem pouca competência ou experiência nas matérias de economia e em finanças, e isso pode explicar porque é que as questões acima postas não receberam a devida atenção.

Presidente Barack Obama deixa os neoconservadores infiltrarem-se sua administração e aos mais níveis

Depois do Presidente Obama ter começado a fazer nomeações para altos cargos na sua nova administração, no final de 2008, um líder neocon, Richard Perle, ex-presidente do Conselho de política de defesa sob o presidente George W. Bush e um dos principais arquitetos da guerra do Iraque, expressou o seu contentamento com estas palavras: “Estou muito satisfeito… Aqui não vai haver tanta mudança como fomos levados a acreditar.”

Portanto, pode ser dito que o presidente Obama traiu as suas promessas de provocar mudanças na Administração logo que tomasse posse. Por exemplo, ele manteve o secretário de Defesa de George W. Bush, Robert Gates, no seu cargo de Secetário da Defesa, como uma indicação de que ele próprio, Presidente Obama, queria a continuidade e não uma ruptura com a administração anterior.

Em seguida, pagou as suas dívidas eleitorais. Em primeiro lugar, nomeou Rahm Emanuel como o seu chefe de pessoal da Casa Branca, um membro neocon da Câmara dos Representantes, e também antigo assistente do presidente Bill Clinton e apoiante do candidato presidencial Hillary Clinton.

Então, num movimento que trouxe alegria para as fileiras dos neoconservadores, nomeou a beligerante Hillary Clinton, apoiada pelos neoconservadores, como secretária de Estado. O neoconservador Weekly Standard aplaudiu esta sua nomeação, intitulando-a como “Warrior Queen”! Mesmo o vice-presidente de Bush, Dick Cheney, declarou estar “impressionado” com esta sua nomeação. Como Joe Scarborough de MSNBC bem assinalou, Hillary Clinton é “a neoconservadora dos neoconservadores” porque “não há praticamente nenhum envolvimento militar dos Estados nestes últimos vinte anos que não tenha tido a intervenção de Hillary.”

O Presidente Barack Obama aprovou ainda uma longa lista de outros neoconservadores para altos cargos na sua administração, e não é a menos importante, entre as quais se tem a nomeação de conselheira Ms. Victoria Nuland, uma assistente de Dick Cheney, como secretária-assistente de Estado dos Assuntos Europeus, em maio de 2013. A partir de então, a sorte foi lançada sobre qual seria o tipo de administração que o presidente Obama faria. A mudança citada, essa, teria de esperar.

O Presidente Obama não teve nenhuma influência na solução do conflito já secular entre os Palestinianos e Israel (1948- …)  

O Presidente Obama teve impacto zero na solução do secular conflito palestino-israelita r (1948-)

Desde há quase três quartos de século até agora, o putrefacto conflito palestino-israelita perdurou por duas principais razões: a intransigência do governo de Israel em acabar com a instalação de novos colonatos e ao ativo veto pró-Israel do governo dos EUA nas Nações Unidas.

Em 2008, enquanto candidato presidencial, Barack Obama comprometeu-se a trabalhar activamente num acordo de paz entre Israel e os palestinianos. Ele tinha, como disse aliás, uma estratégia em duas vertentes: restaurar a imagem desgastada da América entre os muçulmanos e persuadir o governo de Israel a parar com a expansão sobre as terras dos palestinianos. Falhou em ambas as linhas. De resto, como tem sido o caso de Obama com outras promessas, em que houve menos substância por trás da retórica do que parecia à primeira vista. Por exemplo, ele não criou uma equipa especial para desenvolver e aplicar a política que ele prometeu pôr em marcha.

Consequentemente, o presidente Barack Obama não exerceu nenhuma influência observável para bloquear a extrema-direita de Netanyahu ao prosseguir com a ocupação ilegal de terras em território palestiniano. Obama não obteve nenhum sucesso em persuadir o governo de Israel a entrar em negociações de paz sérias para resolver o purulento conflito e acabar com a ocupação da Palestina. E a razão é óbvia: o Presidente Obama não ousou retirar o seu direito de veto, ou seja, a proteção ao Estado de Israel nas Nações Unidas, embora houve tenha havido alguns rumores nesse sentido.

Pior, talvez, é o fato de que o presidente Obama se tenha deixado publicamente humilhar pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no início de 2015, quando este último teria ignorado o não-convite do governo de Obama e, no entanto, entrou nos Estados Unidos e foi ao Congresso dos EUA. Isto criou um facto estranho, porque esta era uma violação das regras diplomáticas básicas. Foi uma amostra pública de desprezo do governo de Israel pelo presidente americano.

Em 2001, Benjamin Netanyahu gabou-se de que sabia “o que a América é – a America é uma coisa que se pode mover muito facilmente, movê-la na direção certa.” O que Netanyahu queria dizer, é claro, é que o lobby pró-Israel nos Estados Unidos é tão forte financeira e politicamente que um líder israelita pode publicamente insultar o presidente americano, sem consequências, e mesmo com a aprovação entusiástica de um obrigado Congresso dos Estados Unidos. O Presidente Barack Obama nunca pareceu tão fraco e tão desanimado como durante esta situação tão estranha e tão irreal

O Presidente Obama não divulgou elementos de prova que ligam a Arábia Saudita aos terroristas do ataque de 9/11

Um último ponto é bem digno de menção. Apesar dos inúmeros pedidos, o presidente Obama recusou-se a informar adequadamente o povo americano sobre a extensão do envolvimento da Arábia Saudita no apoio aos  terroristas de 9/11. As famílias das vítimas dos ataques de 9/11 e muitas outras pessoas têm pedido a Obama para publicar o relatório de 28 páginas classificado, de um relatório especial do Senado e da Assembleia de Representantes sobre os ataques de 9/11, produzido em 2002, e em supostamente se identificam personalidades aos mais níveis do governo saudita como os agentes de financiamento de alguns dos terroristas do ataque de 9/11. Em meados de abril, o presidente Obama até disse que a decisão de libertar o relatório estava “iminente”.

Depois da sua viagem ao Reino da Arábia Saudita em abril passado, parece que a “iminência” da libertação foi adiada sine die. Em vez disso, o presidente Obama foi mesmo mais longe e prometeu recusar-se a assinar uma lei que teria feito o reino da Arábia Saudita ligável aos danos decorrentes do ataque terrorista de 11 de setembro. No entanto, ele não alargou o mesmo privilégio ao Governo do Irão, que está a ser processado pelos americanos por alegados danos.

Mesmo que o presidente Barack Obama tenha prometido,, em 29 de janeiro de 2009, “uma nova era de governo transparente e aberto”, isto parece não se aplicar aos direitos dos norte-americanos saberem quem estava por trás dos ataques de 9/11, de que resultaram 3.000 horríveis mortes. Isto levou alguns observadores a considerarem a sua administração “o menos transparente da história”. Este é mais um exemplo de Obama a dizer uma coisa e a fazer o oposto. Isto parece ser a referência do seu modus operandi.

Conclusões gerais

Porque é que se tem dado um tão evidente contraste entre as palavras do presidente Obama e seus atos? Afinal, foi ele que nos prometeu ” acabar com a mentalidade que nos levou a guerra”.

Existem três explicações possíveis. Em primeiro lugar, um político, Barack Obama, pode não ter sido completamente sincero quando disse que queria mudar a mentalidade em Washington, DC. Ele pode ter considerado que isto eram palavras para serem a seguir esquecidas. Os políticos são oportunistas ambiciosos e Obama não foi diferente. Em segundo lugar, aqueles que escreveram os seus discursos podem não ter sido os mesmos que concebem e levam à pratica as suas políticas. Assim, se explicaria a enorme distância que há entre os seus discursos floridos e as políticas reais. Em terceiro lugar, pode haver ainda uma outra explicação e esta é menos generosa: Obama pode ter sido um testa de ferro utilizado por aqueles que realmente controlam o governo dos EUA nas sombras. E pode mesmo verificar-se uma mistura de todas estas explicações.

Pode-se argumentar seguramente que a administração Obama, no seu conjunto, foi “menos má ” do que a administração anterior de Bush-Cheney, quer do ponto de vista nacional quer internacional. No entanto, porque o candidato presidencial eleito Barack Obama chegou à Casa Branca sem qualquer experiência administrativa e sem ter o seu quadro de conselheiros com forte experiência política e ao que parece também, sem ter um mapa claro de como fazer levar a cabo as promessas que fez, Obama terá sentido a necessidade de se submeter aos neoconservadores belicistas e defensores de intervenções militares que estavam omnipresentes na anterior Administração. Ele acabou por fazer dois mandatos mais a reagir do que a agir, a seguir mais do que a ser seguido..

É por isso que as políticas do governo Obama, especialmente a política externa, com notáveis mas poucas exceções, não divergiu significativamente das políticas imperiais prosseguidas pela anterior administração Bush-Cheney. O Presidente Barack Obama, o Prémio Nobel da Paz, não foi capaz de viver de acordo com as promessas que fez e com as esperanças que levantou.

As duas administrações, a de Bush e a de Obama, foram assim inspiradas pelos neoconservadores e assim se explica que tenham acabado por criar um caos permanente no mundo com que futuros governos e até as gerações futuras terão de lidar.

Mais artigos de:RODRIGUE TREMBLAY

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[1] Texto disponível em : http://www.counterpunch.org/2016/05/30/barack-obamas-legacy-what-happened/

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Para ler a Parte II deste texto de Rodrigue Tremblay, clicar em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/02/20/os-estados-unidos-e-o-neoconservadorismo-o-legado-de-obama-o-que-e-que-de-facto-aconteceu-por-rodrigue-tremblay-ii/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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