O MAPA (A saga do anadel/73) – por CARLOS LOURES

Procurando não fazer ruído, Lourenço entreabriu a porta e, pela fresta, pôde observar, iluminada por numerosas velas, candeias e archotes, uma cena que muito lhe desagradou: no centro da sala, em redor de uma mesa, sentavam-se, sorrindo, com o ar satisfeito que os gatos exibem quando acabam de matar um rato, além do mercador e do seu secretário, Julián Nuñez, os emissários de Castela. No centro da mesa, brilhando como uma jóia, estava o que só podia ser o planisfério secreto, enrolado e atado com uma fita de seda púrpura. A presa que Torriani se gabava de ter ido caçar ao arquivo real de Lisboa. Era um espectáculo de infâmia, onde se mancomunavam interesses diversos, obedecendo a um só objectivo – a ganância do lucro que, conforme se pudera já ver, não recuava perante nada, nem diante do assassínio. Talvez apenas os emissários castelhanos estivessem ali movidos pelo nobre sentimento de defender os interesses dos seus reis. Porém, apesar de tudo o que lhe desagradava no que estava a ver, ali tinha ao seu alcance o desenlace da missão que el-rei de Portugal lhe confiara. Confinado naquele espaço, estava todo o motivo da sua viagem e dos tormentos por que passara desde que, naquele fim de tarde de há pouco mais há dois meses atrás, que agora lhe parecia já tão distante, entrara no Falcão Azul e se envolvera na luta com os fidalgos. Tudo o que ainda pouco tempo antes, dada a morte do livreiro e da carência de informações, lhe parecera impossível, transformava-se agora numa coisa que, dificultosa e arriscada, só dependia do seu valor e da sua fortuna ou da falta dela. Tinha a poucos metros a possibilidade de concluir a sua missão.
O mercador, fitava os convidados, enquanto com as pontas dos dedos, empurrava o rolo para as mãos dos castelhanos, os quais recebiam a mercadoria e a pagavam, entregando um deles uma bolsa, por certo cheia de dobrões ou ducados de ouro e o outro encaminhando para as mãos do secretário um papel que seria talvez um diploma favorecedor dos negócios de Torriani nos reinos de suas majestades católicas. O rapaz recebia o papel e sorria, enquanto com a pena anotava algo numa folha – uma acta? Era pouco crível que daquela reunião se lavrassem actas. Talvez o escrivão estivesse a registar o lucro que o seu amo ia ter, pensou, ironizando, tanto mais que manipulava um ábaco enquanto escrevia.
Julián sorria também, pois algum lucro iria ter – dinheiro ou apenas um elogio de seus superiores ou uma subida na hierarquia dos espias de Castela lhe bastasse. Naquele momento, apenas sorriam, ninguém falava, pois as palavras pareciam ser ali não apenas supérfluas como até inconvenientes. As canalhices não precisam de qualquer oratória que as suporte, pois, como se sabe, deslizam melhor em silêncio. O que não é dito, um acto que não seja traduzido em palavras, é quase como se não tivesse acontecido O silêncio era de tal modo profundo que se ouvia o crepitar da resina dos archotes. A mercadoria estava a mudar de mãos e o pagamento a ser feito. Tudo se consumava, com os rostos impantes de satisfação. A missão do besteiro consistia em destruir aquela alegria, impedindo a consumação do negócio e estava à beira de a falhar caso não tomasse uma decisão imediata. Não havia tempo para cogitações. Tinha de fazer alguma coisa ou seria tarde demais e tudo teria sido em vão – a rixa na taverna, a prisão, a viagem na Leeuwarden, o assassínio de Saul Navarro, sem esquecer a morte de seu pai. Todos esses acontecimentos convergiam para aquele decisivo momento. Urgia, pois, pensar numa solução realizável.
Lembrou-se das recomendações que el-rei lhe fizera para ser prudente e sensato, para controlar a impetuosidade. No entanto, não lhe ocorreu ideia salvadora que lhe permitisse actuar com eficácia, por um lado e, por outro, com subtileza, ponderação e tacto. Eram condições que reciprocamente se excluíam – ou actuava com sensatez e ponderação e perdia a oportunidade ou agia com rapidez e eficácia – teria de fazer, e muito depressa, esta difícil opção. Seu pai e seu avô, lembrando Bartolomeu e dele discordando, diziam que o velho guerreiro tinha como máxima nunca hesitar. Se não sabia o que fazer, fazia qualquer coisa. Tudo menos ficar parado. Dentro de si, a alma do velho almogárave irrompeu como uma chama e falou mais alto do que as sábias heranças do avô Simão e do pai Lopo que, por certo, teriam imaginado um expediente mais engenhoso.
Tomando decisão, Lourenço arrancou de uma das mãos de bronze da parede uma tocha e, puxando da espada, escancarou a porta da sala com um pontapé. Perante a sua aparição, os cinco homens ficaram siderados. Note-se que o português conservava ainda os estranhos atavios, a mascarilha e o toucado de bufão. Apesar de pouco subtil na maneira de actuar, possuía a argúcia, o poder de observação, a rapidez de reflexos, e a capacidade de actuar em conformidade, comuns aos predadores. Lembrou-se mais uma vez do bisavô, que, na sua última arenga, ensinara que um almogárave é como um lobo que ataca um rebanho de ovelhas. O lobo experiente sabe sempre, com uma rápida observação, distinguir qual é, de entre os componentes do rebanho, o animal mais fragilizado pela doença, pela pouca ou pela demasiada idade. Músculos, gestos, reflexos, acções, tudo parecia agora trabalhar mais depressa do que a sua mente. Quando pensava numa coisa estava já a executá-la. Tinha de aproveitar em seu favor este momento único de surpresa e indecisão dos inimigos. Não iria ter segunda oportunidade. Naquele rebanho, a ovelha mais fraca era o andaluz, que vira ser espancado por Jan Peter sem oferecer outra resistência que não fosse a de pôr as mãos à frente do rosto e a de gritar. Agora compreendia por que lhe chamara estúpido o neerlandês. De facto, não tinha compreendido nada. Não compreendera que Julián estava no centro de tudo o que ocorrera, incluindo os assassínios de seu pai e de Navarro.
Deixou à solta os impulsos mais primitivos: atirou o archote para os cortinados do salão e saltou sobre Julián que derrubou com um poderoso soco desferido com a mão esquerda no nariz. Pulou para cima da mesa, empunhando a espada na mão direita e, com a esquerda segurou o punhal. Os outros quatro, colhidos pela surpresa, só então tentaram reagir. Um dos castelhanos procurou segurar o mapa, o segundo levou a mão ao punho da espada e começou a levantar-se. O mercador, que parecia não trazer armas consigo, agarrara a bolsa com o dinheiro e gritava, chamando os sicários. Lourenço fez tudo em simultâneo: com o punhal cravou a mão do castelhano ao tampo da mesa. O homem gritou de dor e desistiu do mapa, tentando com a mão livre e sã, libertar a que estava pregada à madeira e que sangrava como uma fonte. Um pontapé no queixo de Torriani interrompeu-lhe os gritos e fê-lo largar a bolsa, da qual voaram as moedas de ouro. Ao mesmo tempo a ponta da espada era encostada ao pescoço do castelhano que tentara desembainhar a arma. O secretário não oferecia perigo erguera-se da cadeira, largara o ábaco, o papel e a pena, e encostara-se a uma parede, tremendo de pavor. Entretanto, com a mão esquerda, Lourenço agarrou o mapa que meteu entre os dentes. O veneziano caíra agarrado ao maxilar. Soltava uivos de dor. Tudo fora feito com uma rapidez de que o próprio executor teria duvidado ser capaz.
Pouco mais de um minuto decorrera desde a entrada de Lourenço e os pesados reposteiros ardiam, alastrando as chamas pelos móveis, livros. Durante momentos, ouviram-se os gemidos do castelhano, de cuja mão que conseguira soltar do tampo da mesa, o sangue borbotava com abundância de uma fonte e os lamentos do veneziano que parecia ter o maxilar quebrado ou deslocado, bem como o crepitar do fogo que não cessava de se espalhar por móveis e paredes. O escriba agarrava-se com ambas as mãos à cabeça, sem saber o que fazer. O segundo enviado castelhano continuava imobilizado, com a aguda lâmina encostada à maçã-de-adão. Um movimento mais brusco e seria a morte. Apenas movia os olhos, dardejando faíscas de ódio e de impotência. No corredor ouviram-se o tropel dos homens de mão do mercador. Julián ergueu-se e esfregando o nariz com um lenço, murmurou, procurando dar à voz a entoação amistosa com que, a bordo, dialogava com Lourenço, como se fossem ainda amigos:
– Não te podes salvar. Não sejas louco. Rende-te e tudo se resolve.
– Louca é a puta que te pariu! – Abandonando a garganta do castelhano, golpeou-o na testa, produzindo-lhe uma ferida superficial, mas deixando-o a sangrar. A porta abriu-se de repelão e os criados, empunhando armas entraram de roldão na sala.
Lourenço pulou para o parapeito de uma janela aberta, da qual, já incendiados, pendiam os reposteiros. Atravessando a cortina de fogo saltou para o jardim. Ouviu, na escuridão cães a ladrar. Estava na frontaria da casa. Guardas vieram na sua direcção. Correndo, entrou num caminho estreito que ladeava o palácio pela esquerda. Um grupo de guardas fechava também aquela saída. Estava cercado. Foi quando sentiu que alguém saído de uma porta, na escuridão lhe agarrava o braço. Uma voz sussurrou-lhe:
– Vite! Venez par ici!

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