A GALIZA COMO TAREFA – outros centenários – Ernesto V. Souza

Para Uxio-Breogão e Moncho do Orzán, aos que vou devendo textos

O centenário da Fundação da Irmandade da Fala da Crunha, decorreu, como não podia ser doutro jeito, com numerosos atos, celebrações, exposições, ciclos e publicações durante 2016. Porém, 1917 foi o ano em que o movimento galeguista, em início fundado – tal como conta o seu primeiro regulamento – como Associação cultural de “Amigos do Idioma Galego”, converteu-se num ativo movimento político emergente.

Não por acaso, no estado Espanhol, o ano 1917 seria lembrando como o Ano da Crise. Ou como destacou no seu dia Josep Fontana como o ano das três crises, ao se sucederem em escalada entre Junho e Setembro, três desafios ao esmorecente sistema da Restauração: o ultimatum ao governo dos militares das Juntas de Defensa; o desafio do catalanismo conformado como Assembleia de Parlamentários; e a a Greve revolucionaria de Agosto, cujas consequências terminariam imprevisivelmente num continuísmo político, consagrado nas eleições de 1918; numa renovação da aliança oligarquias-cúpulas militares; numa recuada a posições menos avançadas por parte do setor dirigente do catalanismo, assustado pelo movimento operário revolucionário; e com este último, dividido em grupos e tendências e distanciado para décadas dos “regionalismos burgueses”. Equilíbrio inverossímil que só abalaria com o Golpe de Estado de Primo de Rivera, apoiado pela Monarquia, em Setembro de 1923 e a evolução política na Ditadura. Mas para isto, a repressão à greve, a Pandemia do 18, a crise económica inflacionista provocada pelo grande capital espanhol com os benefícios da Grande Guerra desajustada com a paz e o Desastre de Annual de 1921.

O impulso inicial do movimento regionalista em toda a Espanha espelha o envite dos catalanistas, que no ano 17 aumentariam a propaganda até a constituição e declaração de bases da Assembleia de Parlamentares de Julho. Neste contexto as Irmandades irão consolidando-se de agrupações de amigos do Idioma numa força política emergente ao longo do ano 17.

Em 28 de Dezembro de 1916 um numeroso grupo de membros da Irmandade da Fala participa da fundação do grupo folclórico Cantigas da Terra, nele estariam destacadamente Leandro Carré e José Iglesias Roura como diretores artísticos, Camilo Díaz como escenógrafo e como primeiro presidente o académico e Irmandinho, Eladio Rodríguez González. A constituição e orientação do coro foi claramente galeguista e propagandista. Pretendendo ocupar um espaço público e recuperar a música popular para um público urbano, a imitação provavelmente dos Coros e movimento orfeonístico que em Portugal tomaram força com o impulso cultural republicano.

Em Janeiro do ano 1917, a Irmandade da Crunha punha em andamento um Comitê de Ação Galeguista, encarregado da organização de comícios e conferências para espalhar o movimento por toda a Galiza com  especial interesse na conexão com as sociedades e movimentos agrários, começando uma constante série de giras e atos.

Em 11 de Fevereiro de 1917, Porteiro Garea dá uma palestra no Casino Republicano da Crunha, convidado pela diretiva. Nesse mesmo dia, um Comité da Irmandade da Crunha viaja a Ferrol num ato de confraternização galeguista e progressista. Há que lembrar que o 11 de fevereiro celebrava-se tradicionalmente o aniversário da I República e os atos deste dia, confraternizações, discursos e banquetes referiam esta data e compromisso político dos velhos ideais; e portanto uma renovação dos discursos e espírito da Aliança Solidária (republicano-agrário-galeguista) da década anterior.

A série de atividades de Janeiro, Fevereiro e Março deste ano vão ter um grande sucesso, quando entre o 5 e 13 de março sucedam-se três atos necrológicos que vão eletrizar a atenção da Crunha.

Em 5 de Março anunciava a imprensa a chegada à Crunha da comitiva fúnebre que, promovida pelo Centro Galego de Havana, trasladava com todas as honras o cadáver de “Chané” (Dados em Boletim Real Academia Galega, 16, 1-4-1917 )

A Comissão, presidida pelo próprio filho do mestre e Fontenla Leal, será recebida na cidade que coroara a Curros, por parte de todas as instituições culturais crunhesas, especialmente Circo de Artesãos e O Eco. Os restos foram velados na câmara municipal e o funeral realizaria-se em São Jorge. (Mais dados, crónicas e referencias em Real Academia Galega)

Nesse ano de 1917, a manifestação popular com que se acompanharam os atos e de toda a imprensa foi intensificada espetacularmente pela homenagem dos coros e orfeões galegos e pelo aspeto de mobilização social que acompanhou a transferência dos restos a São Amaro.

A comitiva fúnebre partiu de Maria Pita conduzindo o carro da Câmara Municipal as numerosas coroas que vieram da Havana e de todas as partes da Galiza. A chegada dos restos reativara a massa coral por ele dirigida, o histórico El Eco, que saia destarte de sua agonia para reconstituir-se. Da Crunha participam “La Aurora” e o recém-fundado pelos galeguistas “Cantigas da Terra”, presidido por Eladio Rodríguez; “Orfeón gallego” de Lugo, “Ecos de Galicia” da Havana, Sociedade Artística de Pontedeume. Ao ato no cemitério de Santo Amaro, com discursos de Villar Ponte, Lugrís, Peña Novo e o filho de Chané, seguirá uma velada necrológica em honra do músico falecido, no local da Academia Galega com a participação de numerosos irmãos da Fala.

O sucesso dos atos, animou a celebrar multitudinariamente a Oferenda Anual a Curros Enriquez. A Coroação poética de Curros em 1904 promovida pela Liga gallega, fora com a inauguração do monumento aos mártires de Carral, uma das páginas mais transcendentes para o regionalismo e um momento simbólico celebrado com certa continuidade até a Guerra Civil. Nomeadamente pela adesão de todos os movimentos e sociedades cruñesas, especialmente dos republicanos. (Para a coroação vid. La Voz de Galícia e El Noroeste, 22-10-1904.). Consagrado como poeta nacional, civil e republicano a morte de Curros em 1909 marcara já um momento de enfrentamento entre os republicanos e os galeguistas da Academia Galega, continuando os conflitos e polémicas aparecidos com o fracasso da tentativa Solidária.

A homenagem a Curros, formulada em 1909 como desagrávio civil às honras católicas do enterro e funeral organizado pela família e apoiada pela Academia, foi iniciada por Manuel Casás, tratando de aprofundar na divisão entre galeguistas e republicanos. Porém com os anos passou a ser um ato de memória que acadou a sua máxima expressão com a recuperação do ato, pelas Irmandades, que iriam juntando a Curros a homenagem “Aos mortos” galeguistas.

No dia 9 de Março, enquanto se preparava a tradicional oferenda civil, consagrada anualmente à memória de Curros pelo Circo, os jornais anunciam a morte de Eduardo Pondal. A morte do Bardo terá, neste ambiente umas proporções surpreendentes (Vid. ANT, 10-3-1917).

A série de atos protagonizados pelos intelectuais galeguistas e pelos escritores galegos provocarão, neste contexto, e por causa do eco social do suceso, uma polêmica sobre o valor da sua figura e pela sua “apropriação” para a causa nascente do Nacionalismo.

14-34A Cruha transformou-se o dia do funeral. A multidão, acompanhou o cortejo fúnebre. Por trás da procissão de coroas, o carro fúnebre, com quatro cavalos, escoltado por seis representantes de diferentes instituições e sociedades da cidade, seguidos por um grande grupo de amigos e vizinhos, encabeçados por Políticos e pessoas da cultura.

As crónicas destacam que as empresas fecharam suas portas para a passagem da procissão a partir de Juana de Vega até o cemitério de Santo Amaro. Horas antes, os Cantões e Rua Real estavam ateigadas.

A Condessa de Pardo Bazán será uma das vozes especialmente preocupada em reivindicar o elitismo e a aristocracia de Pondal fronte aos velhos contertúlios da Cova e novos irmãos, que pretendem declarar figura central no processo de construção de um conjunto mítico e referencial claramente patriótico-Nacional. Embora a figura de Pondal não atingira a popularidade social das de Curros ou Rosalia, o contexto da morte e as circunstâncias de sensibilidade social em que ocorre (a identidade dos enterros cada um concluído com discursos e hinos galegos) capitaliza a atenção da sociedade para o movimento Irmandinho.

Conhecemos da ilustre inimiga e furibunda antirregionalista duas necrológicas do “seu” admirado Pondal. Uma, publicada em La Nación de Buenos Aires ( “Crônicas de Espanha. La muerte del poeta Pondal”, 24-4-1917), e outra em El Noroeste da Cruña (13-3-17). Desta última entressacamos algumas linhas que nos permitem ver a diferença de concepções a respeito da obra emblemática e figura do autor da letra de “Os Pinos”:

“Cuando surge un poeta de una originalidad tan auténtica debiéramos conservarlo en una vitrina, como objeto precioso que pertenece á otras edades, y tener por atentado que esa originalidad sufra menoscabo alguno. Por eso condené yo en Pondal hasta el intento de intervenir en cosas sociales, lo que el llamaba su cuerda de hierro. Cuando oigo hablar de un Pondal demócrata; pongo un gesto como si me nombrasen á una Doña María Zayas sufragista. No me gusta que alteren las líneas de la poesía de Gundar”

A Homenagem a Curros Enríquez, será realizada finalmente no dia 13 com numerosa comitiva e representação da Protetora de Havana. Terminará com discursos do Presidente do Circo ( Manuel Casás), Fontenla Leal, Lugris e cantando o Hino Galego.

No dia 16 de abril, resultado de todas essas ações celebrara-se um “Jantar galeguista” que reúne todas as figuras, sensibilizadas por estes episódios. O jantar, com a participação de todas as figuras do regionalismo, incluindo Murguia, será uma homenagem à memória dos ilustres mortos e uma mensagem para os galegos emigrados por meio da figura de Fontenla Leal. (Mais dados em “O bóo exempro. Un xantar enxebre”, en ANT, 20-3-1917.)

A identidade reivindicativa que por essas datas têm a Academia Galega e os Coros, mas nomeadamente os ativistas da Irmandade conferiu a esta sucessão de atividades uma singular relevância. Por uma banda, as ações da Irmandade, pelos seus estatutos, destinadas a fazer incidência no social e, por outro, a Academia e os Coros com um prestígio mínimo consolidado, manifestam uma ampla frente colorista de memória, simbolismo, denúncia, reivindicação e propaganda.

As Irmandades, demonstraram nos primeiros meses de 1917 que existia um sistema político, social e cultural que apresentar como alternativa nacional e como alternativa política. Esse salto para a política tem rápidas consequências. Aparecem os ataques públicos ao regionalismo em discursos e na imprensa e, desde 26 de fevereiro, a impressão de A Nosa Terra passa da oficina tipográfica de La Voz de Galicia a Roel.

Em Abril, Manuel Casás, organizará na Crunha um movimento localista, com que pretenderá fagocitar o discurso regionalista, começando também desde várias instituições e desde a Alcaldia uma série de iniciativas culturais, poéticas e folclóricas, que serão fortemente enfrentadas, polemizadas desde ANT e mesmo confrontadas e torpedadas publicamente no meio de escandalosas broncas públicas, espalhamento de propaganda, cartas na imprensa e intervenção da ordem pública.

O ano de 1917, seria fundamental na definição de objetivos, discursos, ação e propaganda do movimento galeguista, resultando, em palavras de Vítor Casas, magnífica peneira entre regionalistas-folcloristas e nacionalistas com projeto político:

Resulta certamente curioso ollar cómo algúns dos nomes que nos seus comenzos figuraron como colaboradores, por figuraren tamén nas Irmandades, cando éstas eran ainda unha cousa sin defiñir nin intervención na política galega, foron máis adiante nemigos do galeguismo atal e como nós o sentimos e practicamos que naturalmente garda do concepto dos outros unha longa distancia.
Foi o tono de progresivo acentuamento nacionalista, francamente nacionalista, que Vilar Ponte imprimiu ao boletín o que á par que ia creando unha concencia n-ese senso determiñaba o alonxamento dos que non pasaban máis aló do «rexionalismo». «A Nosa Terra» foi unha mañifica peneira. (“Historia sintética do boletín A NOSA TERRA,” em Nós, 139-144, Xulio-Nadal 1935, p. 183-185.)

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