OS ESTADOS UNIDOS E O NEOCONSERVADORISMO – O TRIPLO JOGO DOS NEO-CONSERVADORES, por LAURENT GUYÉNOT – IV

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Selecção de Júlio Marques Mota

Rede Voltaire

O triplo jogo dos Neo-conservadores

Laurent Guyénot, O triplo jogo dos neo-conservadores

Para bem atingir os seus sonhos megalómanos de domínio mundial, os neo- conservadores desenvolveram um triplo discurso, como mostra Laurent Guyénot neste ensaio: uma filosofia cínica da política elaborada pelo seu mestre pensador, Léo Strauss, para consumo interno; uma análise fria dos interesses estratégicos israelitas quando eles aconselham os dirigentes de Telavive; e uns alertas alarmistas face a perigos imaginários para a opinião pública dos EUA.

REDE VOLTAIRE | 1 DE MARÇO DE 2013

FRANÇAIS  ENGLISH

(CONTINUAÇÃO)

A caminho da Quarta Guerra mundial

Os neo-conservadores tentaram explorar o traumatismo do 11- Setembro, do qual foram os arquitectos, para mobilizar os Estados-Unidos contra uma longa lista de países árabes, e muçulmanos, entre os quais aliados históricos. O Iraque é o primeiro visado. Desde a primeira guerra do Golfo, os neo-conservadores não cessaram de vilipêndiar o regime de Saddam Hussein e de apelar ao seu derrube. David Wurmser, por exemplo, publica em 1999, após outros livros virulentos contra os países muçulmanos, Allié de la tyrannie: l’échec de l’Amérique à vaincre Saddam Hussein – ( Aliado da tirania: o falhanço da América na batalha contra Saddam Hussein, NdT) [79]. Em 2000, l’American Enterprise Institute publica Étude d’une vengeance: la première attaque contre le World Trade Center et la guerre de Saddam Hussein contre l’Amérique – (Estudo sobre uma vingança: o primeiro ataque contra o World Trade Center e a guerra de Saddam Hussein contra a América, NdT)  [80], cujo autor, Laurie Mylroie, se diz devedor a Scooter Libby, David Wurmser, John Bolton, Michael Ledeen, e ainda mais a Paul Wolfowitz e à sua esposa Clare Wolfowitz, membro ela também do AEI. Mylroie não hesita denunciar Saddam Hussein como o cérebro do terrorismo anti-americano, atribuindo-lhe sem provas o atentado de 1993 contra o World Trade Center, o atentado de Oklahoma City(cometido por Timothy McVeigh,cidadão americano, NdT) em 1995 e o ataque contra o USS Cole no Iémen em 2000. Aquilo que ameaçava os Estados-Unidos seria segundo ela «uma guerra secreta terrorista, conduzida por Saddam Hussein»  [81], o terrorismo anti-americano sendo na realidade «um episódio num conflito que começara em agosto de 1990, quando o Iraque invadiu o Koweit, e que não mais acabara».  [82] Richard Perle descreveu este livro como «magnifico e claramente convincente».  [83]

Desde 19 setembro de 2001, que Richard Perle reunia o seu Defense Policy Board – (Gabinete da Política de Defesa, NdT) em companhia de alguns neo-conservadores como Paul Wolfowitz e Bernard Lewis (inventor antes de Huntington da profecia auto-demonstrativa do «choque das civilizações»), mas na ausência de Colin Powell e de Condoleezza Rice. O grupo pôs-se de acordo sobre a necessidade de derrubar Saddam Hussein a partir do fim da fase inicial da guerra no Afeganistão. Preparam uma carta para Bush, redigida sob orientação do PNAC e lembrando-lhe a sua missão histórica: «mesmo se faltam provas de um laço directo entre o Iraque e o ataque, qualquer estratégia visando a erradicação do terrorismo e dos seus patrocinadores deve incluir um esforço determinado para derrubar Saddam. Não empreender este esforço corresponderá a abandonar à partida, e de maneira talvez decisiva, a guerra contra o terrorismo internacional».  [84]. O argumento de uma ligação entre Saddam e a Al-Qaida é aqui relativizado e, no verão de 2002, o presidente Bush e o Primeiro ministro britânico Tony Blair contentar-se-ão em evocar conjuntamente os «laços fluidos»  [85] entre o regime de Saddam e a Al-Qaida. Perle, pelo contrário, não desistirá, afirmando, contra toda a evidência, que Mohamed Atta, o pretenso condutor dos terroristas do 11-Setembro, se teria encontrado com o diplomata iraquiano Ahmed Khalil Ibrahim Samir em Praga em 1999. A 8 de setembro de 2002 em Milão, Perle largará mesmo um “scoop” ao diário italiano Il Sole 24 Ore: «Mohammed Atta encontrou-se com Saddam Hussein em Bagdade antes do 11-Setembro. Nós temos provas disso». Ele evitará repetir esta alegação ridícula nos Estados-Unidos.

O rumor de um laço entre Saddam e a Al-Qaida é finalmente abandonado em proveito de um casus belli mais elaborado: a ameaça que constituiria para o mundo o stock de armas de destruição maciça detido por Saddam. Para tornar credível esta outra mentira, Cheney e Rumsfeld renovam a estratégia provada do Team B, consistindo em duplicar a CIA através de uma estrutura paralela encarregada de produzir o relatório alarmista que precisam: esta estrutura será o Gabinete dos planos especiais (OSP), unidade especial no seio do Gabinete Próximo-Oriente e Ásia do Sudeste (NESA) do Pentágono [86]. Alcunhado como «a Cabala», o OSP é controlado pelos neo-conservadores William Luti, Abram Shulsky, Douglas Feith e Paul Wolfowitz. A tenente-coronel Karen Kwiatkowski, que trabalhava para o NESA à época, testemunha em 2004 sobre a incompetência dos membros do OSP, que ela viu «usurpar avaliações estatísticas cuidadosamente analisadas, e por supressões de dados e distorções de análise de informação, transmitir mentiras ao Congresso e ao gabinete executivo do presidente».  [87]

Em 2003, quando se torna claro que não se encontrou qualquer arma de destruição em massa no Iraque, os neo-conservadores repercutem alegações ridículas de Ariel Sharon, que afirma que o Iraque as transferiu secretamente para a Síria, assim como os seus cientistas nucleares. A 11 de novembro de 2003, o Congresso vota a Lei para que a Síria preste contas e para que a soberania libanesa seja restaurada  [88], impondo sanções económicas «para que a Síria cesse de apoiar o terrorismo, meta fim à sua ocupação do Líbano, e pare o desenvolvimento de armas de destruição maciça»  [89]. A agressão contra a Síria só será desencadeada em 2011, sob o disfarce de uma guerra civil, mas ela estava já premeditada pelo menos desde fevereiro de 2000, logo que David Wurmser, num artigo intitulado «É preciso derrotar a Síria, nunca negociar»  [90], fazendo votos para um conflito que fará com que «cedo a Síria seja sangrada até à morte».  [91]

Desde o 11-Setembro, o Irão está igualmente na linha de mira dos neo-conservadores, que fazem eco do Primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, declarando o Irão «Centro do terror mundial» numa entrevista ao Times de Londres de 2 de novembro de 2002, e apelando a um bombardeamento norte-americano ao Irão «no dia a seguir à invasão americana do Iraque». Certos neo-conservadores como Kenneth Timmerman, membro dirigente do JINSA, propagandeiam que o Irão protegeu Ben Laden e colaborou com a Al-Qaida. [92] Na primavera de 2008, o presidente Bush acusa o Irão de apoiar a insurreição no Iraque: «O regime de Teerão deve fazer uma escolha […] Se o Irão fizer a escolha errada, a América agirá para proteger os seus interesses, as suas tropas e os seus parceiros iraquianos».  [93] Deve-se pois lembrar que a 4 de maio de 2003, o governo iraniano transmitiu a Washington, por intermédio do embaixador suiço em Teerão, uma proposta conhecida sob o nome de «a grande barganha» pelo qual o Irão, em troca do levantamento das sanções económicas que lhe foram impostas, comprometia-se a cooperar com os Estados-Unidos para estabilizar o Iraque e a lá estabelecer uma democracia laica, e dizendo-se pronto para outras concessões incluindo a paz com Israel. Powell foi impedido por Bush e Cheney de responder favoravelmente a esta proposta. Assim, resumiu o seu chefe de pessoal Lawrence Wilkerson: «A Cabala secreta obteve o que queria: nada de negociações com Teerão».  [94] No fim, o Irão foi colocado no banco dos réus pelo seu programa de pesquisa nuclear civil, que seria secretamente militar. Desde a publicação em 2005 de um primeiro relatório do National Intelligence Estimate – (Avaliação de Inteligência Nacional,NdT)-(NIE) sobre o nuclear iraniano, que conclui por um provável objectivo militar, não se passa praticamente semana alguma sem que a ameaça não seja mencionada nos jornais televisivos. Durante este tempo, nada foi sequer murmurado a propósito do programa israelita, ilegal e sempre escondido, que dotou Israel de um stock de várias centenas de bombas atómicas. O facto que, em novembro de 2007, um novo relatório NIE [95] tenha revisto o perigo iraniano em baixa, mostra que o nível de alerta considerado não faz mais que refletir a relação de forças no interior do aparelho de Estado, respondendo as estimativas alarmistas às invectivas dos neo-conservadores, enquanto as estimativas prudentes exprimem a voz do comando militar, pouco inclinado a uma nova guerra após o descalabro iraquiano. [96]

Paralelamente, falsos pretextos de guerra são regularmente criados. Sabe-se graças a Gwenyth Todd, conselheira sobre o Próximo-Oriente ligada à Quinta esquadra da Marinha dos EU, estacionada no Golfo pérsico, que pouco tempo após ser nomeado comandante desta esquadra em 2007, o vice-almirante Kevin Cosgriff ordenou manobras agressivas dos seus porta-aviões, e outros navios, com o objetivo de fazer os Iranianos entrar em pânico para que um disparo da parte deles permitisse desencadear a guerra desejada pelo lobbi pró-Israel. Cosgriff queria «colocar uma armada virtual à porta do Irão, sem aviso»  [97], sem mesmo avisar Washington disso [98]. A 6 de janeiro de 2008, o Pentágono anuncia que vedetas iranianas abriram fogo sobre os navios americanos USS Hooper e USS Port Royal em patrulha no estreito de Ormuz, ao mesmo tempo que emitiriam mensagens de ameaça como: «Vamos para cima de vós» e «Vós ireis explodir em dois minutos.» As televisões mostraram um dos barcos iranianos pondo pequenos objetos brancos na água, apresentados como minas. Evocando este incidente excepcionalmente «provocatório e dramático», o chefe de estado-maior inter-armas Mike Mullen disse-se preocupado «pela ameaça colocada pelo Irão», e nomeadamente «pela ameaça de minagem dos estreitos», e diz-se pronto a utilizar «a força letal» se for preciso . Na realidade, o incidente era totalmente falso. As vedetas iranianas, que patrulham quotidianamente esta zona, e aí se cruzam regularmente com os navios americanos, não haviam emitido nenhuma ameaça. O vice-almirante Cosgriff admitiu que as equipagens dos EU não tinham notado nada de inquietante, as vedetas iranianas não possuíam «nem misseis anti-navios, nem torpedos.» As mensagens rádio ameaçadoras não emanavam destes navios: «Nós não sabemos de onde é que elas vinham» admitiu a porta-voz da Quinta Esquadra, Lydia Robertson.

As eleições iranianas de 2009, e a contestação que se seguiu em Teerão, foram a ocasião de uma nova guerra psicológica utilizando as redes sociais pela internet e destacada pelos médias americanos. Em poucos dias, a morte de uma jovem mulher durante as manifestações é explorada como símbolo da opressão do regime islâmico. Neda Agha-Soltan teria sido morta a 20 de junho de 2009 por um “sniper” da milícia para-militar, quando acabava de sair da viatura com o seu professor de música. O vídeo da sua agonia filmado em directo por telefone portátil deu instantaneamente a volta ao mundo no Facebook, depois no YouTube. Várias reuniões tiveram lugar em sua homenagem em todo o mundo. Até se falou em atribuir-lhe o Prémio Nobel da Paz. O seu noivo, um fotografo de nome Caspian Makan, encontrou-se com Shimon Peres em Israel e declarou: «Eu venho a Israel como um embaixador do povo iraniano, um mensageiro do campo da paz.» E acrescentará: «Eu não tenho nenhuma dúvida que o espírito e a alma de Neda estavam connosco aquando deste encontro presidencial». Infelizmente, as incoerências acumulam-se: 1) existem de facto três vídeos da agonia de Neda, que se assemelham a várias «tomadas» da mesma cena;
2) o visionamento imagem a imagem mostra que a jovem, por reflexo, coloca a sua mão em terra para amortecer a queda. O seu sistema nervoso central continuou a funcionar o que prova que ela não foi morta pela bala
3) o mesmo visionamento mostra que a sua face está ensanguentada por meio de uma bolsa de sangue insuficientemente dissimulada na palma da mão
4) Uma entrevista à BBC do médico que assistiu à sua morte está repleta de contradições
5) A autópsia concluiu que Neda tinha sido morta à queima roupa, (ela foi pois morta pelos seus «amigos» durante o seu transporte para o hospital)
6) Por fim, o rosto tornado ícone planetário era na realidade o de uma outra jovem mulher, Neda Soltani. Esta tentou, em vão, fazer suprimir a sua foto na internet e, sentindo a sua vida em perigo, resignou-se a imigrar para a Alemanha, onde escreveu um livro, Mon visage volé – (O roubo da Minha Cara).

(continua)

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[79] Tyranny’s Ally: America’s Failure to Defeat Saddam Hussein, par David Wurmser, AEI Press (1999)

[80] Study of Revenge: The First World Trade Center Attack and Saddam Hussein’s War Against America, por Laurie Mylroie com um prefácio de James Woolsey, AEI Press (2000).

[81] «An undercover war of terrorism, waged by Saddam Hussein»

[82] «A phase in a conflict that began in August 1990, when Iraq invaded Kuwait,and that has not ended.»

[83] «Splendid and wholly convincing»

[84] «Even if evidence does not link Iraq directly to the attack, any strategy aiming at the eradication of terrorism and its sponsors must include a determined effort to remove Saddam Hussein from power in Iraq. Failure to undertake such an effort will constitute an early and perhaps decisive surrender in the war on international terrorism.»

[85] «Broad linkages»

[86] Inicialmente, a unidade era chamada Office for the Strategic Influence (OSI), cf. «Rumsfeld cible la France et l’Allemagne – Rumsfeld visa a França e a Alemanha, NdT», por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 2 de Janeiro de 2003. Ela tornou-se em seguida a Office of Special Plans (OSP)-(Gabinete de Planos Especiais,NdT), cf. Histoire secrète du Mossad: de 1951 à nos jours- História secreta da Mossad: de 1951 aos nossos dias-NdT, por Gordon Thomas, Points, 2007, p. 552-554.

[87] «Usurp measured and carefully considered assessments, and through suppression and distortion of intelligence analysis promulgate what were in fact falsehoods to both Congress and the executive office of the president.» «This was creatively produced propaganda.»

[88] Syria Accountability and Lebanese Sovereignty Restoration Act

[89] «To halt Syrian support for terrorism, end its occupation of Lebanon, stop its development of weapons of mass destruction.»

[90] «Let’s Defeat Syria, Not Apease It»- (Derrotemos a Síria, não a apaziguemos NdT), por David Wurmser, The Wall Street Journal, 25 de Fevereiro de 2000. O plano inicial previa atacar a Síria a partir do Líbano, só após a surpreendente vitória do Hezbolla em 2006 contra Israel foi que os neo-conservadores encararam recorrer à OTAN.

[91] «Syria will slowly bleed to death»

[92] Countdown to Crisis: The Coming Nuclear Showdown With Iran, por Kenneth Timmerman, Crown Forum (2005)

[93] «The regime of Teheran has a choice to make. […] If Iran makes the wrong choice, America will act to protect our interests and our troops and our Iraqi partners.»

[94] «The secret cabal got what it wanted: no negociations with Tehran.»

[95] Iran: Nuclear Intentions and Capabilities, National Intelligence Estimates (2007). Versão francesa: «Iran: intentions et possibilités nucléaires, extraits du NIE», Rede Voltaire, 17 de Dezembro de 2007.(Irão: intenções e capacidades nucleares, relatórios do NIE, NdT)

[96] «Washington décrète un an de trêve globale», por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 3 de Dezembro de 2007.«Réactions internationales à la publication du NIE sur l’Iran», Rede Voltaire, 17 de Dezembro de 2007.(Reações internacionais à publicação do NIE,NdT)

[97] «Put a virtual armada, unannounced, on Iran’s doorstep»

[98] «La Maison-Blanche sacrifiera-t-elle la Ve flotte pour justifier la destruction nucléaire de l’Iran?»- (Sacrificará a Casa Branca a Va esquadra para justificar a destruição nuclear do Irão?-NdT), par Michael Salla, Traducção de Marcel Charbonnier, Rede Voltaire, 18 de Novembro de 2007. Informação confirmada quatro anos mais tarde: «Why was a Navy adviser stripped of her career?», por Jeff Stein, The Washington Post, 21 de Agosto de 2012

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Ver o original em:

http://www.voltairenet.org/article178109.html

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Para ler a Parte III deste trabalho de Laurent Guyénot, clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/02/24/os-estados-unidos-e-o-neoconservadorismo-o-triplo-jogo-dos-neo-conservadores-por-laurent-guyenot-iii/

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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