SINAIS DE FOGO – MORALISTAS DA TRETA., por Soares Novais

sinais de fogo

Entre 2011 e 2014, dez mil milhões de euros voaram para offshores e fintaram o fisco. Núncio, o CDS que então era secretário de Estado, impediu “a publicação dos dados relativos a transferências para offshores.” É o que diz o ex-director geral da Autoridade Tributária (AT), em comunicado.

O antigo dirigente máximo da AT garante que fez o pedido para publicar tais dados por três vezes. Mas” em nenhum dos casos, a correspondente autorização foi concedida.” Ou seja, ao contrário do que disse Núncio, foi ele que assim decidiu.

Ontem, Núncio reconheceu, finalmente, a sua “responsabilidade política” e demitiu-se dos cargos que exercia no partido de Assunção. Núncio, que antes das eleições de 2011, assessorou Portas nas reuniões com a troika, exibe um polémico curriculo. Veja-se:

– Protegeu o cadastro fiscal de Passos, Portas, Ricardo Salgado e Cavaco, entre muitas outros figurões do sistema;

– Como advogado fiscalista participou nas sociedades Morais Leitão, Galvão Teles & Associados e Garrides & Associados;

– Representou a MLGTS Madeira, o offshore madeirense, que mereceu destaque no livro Suite 605 e deu origem a investigações com origem em Itália.

Recorde-se: entre 2011 e 2014, Passos & comandita eram os zelosos cumpridores da troika, que aqui chegou a pedido do PS de Sócrates. A tese oficial era: não há dinheiro. Passos, com o ar grave e salazarento que se lhe conhece, passou a vender a ideia que era o tempo do «rigor das contas públicas”, pois, pasme-se, os portugueses tinham andado a viver acima das suas possibilidades. E para que o “rigor das contas públicas” chegasse a bom porto ordenou:

– Cortes nos salários, pensões e reformas;

– Aumento brutal de impostos, para usar uma expressão do seu ministro Gaspar;

– Encerramento dos serviços nocturnos e de fim de semana nos centros de Saúde;

– Aumento da taxa de IVA na restauração para 23% o que levou a que uma sopa pagasse tanto de imposto como a mais refinada jóia;

– Paragem de importantes obras públicas, como o Túnel do Marão, por exemplo;

– Resgate de bancos privados com o dinheiro público dos contribuintes;

– O seu secretário Marco, com carreira feita nos “quarteis” de Valongo e Gaia, humilhou milhares de desempregados que passaram a ter de se apresentar nas juntas de freguesia da sua residência a cada 15 dias.

Estas e outras maldades foram feitas em nome do “rigor das contas públicas”. Mas, como se sabe, tudo não passou de conversa da treta. Os ricos ficaram mais ricos. E os pobres mais pobres. Mesmo aqueles que mantiveram o seu posto de trabalho.

Conversa e rigor da treta de uma comandita ao serviço dos ricos e poderosos. Seja nos escritórios de advogados, quando vestem a fatiota de deputados ou quando são promovidos a  “gestores” dos dinheiros públicos. Lamentavelmente há portuguesas e  portugueses que continuam a deixar-se enganar. Por estes vampiros travestidos de moralistas. Apesar do aviso feito por Zeca há mais de 50 anos:

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada [Bis]

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhe franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

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