FRATERNIZAR – SILÊNCIO DE DEUS OU GRITO DE DEUS?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

fraternizar - 1

Está a fazer furor, nomeadamente, entre as elites da inteligência cristã católica, o filme SILÊNCIO, de Scorsese, baseado no romance com o mesmo nome, de Shusaku Endo, escritor católico do século passado. Só as elites das religiões em geral e dos cristianismos em particular, juntamente com os ateus de forma(ta)ção cristã, são capazes de dizer-acusar Deus de se calar perante o sofrimento das vítimas inocentes. Esquecem ou ignoram que a Deus nunca ninguém O viu. Consequentemente, ninguém, muito menos o privilegiado universo das elites, sabe nada de Deus. Se tivessem um mínimo de pudor e de humildade intelectual, o mais que as elites poderiam fazer era manter-se caladas. Porque o silêncio não é de Deus que grita nas vítimas. É das elites que são surdas e mudas aos ininterruptos clamores das vítimas. Mas pudor e humildade intelectual não são o forte das elites, sejam as das religiões e dos cristianismos, sejam as dos ateísmos e agnosticismos.

Destas elites, também fazem parte Scorsese e Shusaku Endo, pelo que as suas obras de arte são o que são e valem o que valem, mas apenas para as elites e o seu privilegiado universo. Para as multidões de vítimas do planeta, condenadas a ter de viver nos porões da humanidade, tais obras de arte não passam de coisas que elas desconhecem de todo. E se alguma vez esbarrarem com elas, têm-nas como esterco, coisas que só atrapalham, como tudo o que é luxo e excedentário. De modo que só mesmo entre as elites das sociedades, onde se incluem todas as elites dos cristianismos e das religiões, dos ateísmos e dos agnosticismos, é que se fala em silêncio de Deus, como em Óscares e prémios Nobel,,.

Só às elites interessa este falar em silêncio de Deus, porque não suportam o ensurdecedor grito das multidões que elas próprias fabricam com os seus sistemas de poder e que, depois, ainda condenam a ter de nascer, viver, reproduzir-se e morrer nos porões da humanidade e do planeta. Chegam ao cúmulo de acusar Deus de se calar perante o sofrimento das vítimas, quando são elas que as produzem com os seus sistemas de poder e que as condenam a ter de viver nos porões da humanidade, em que já nascem, à semelhança dos seus antepassados. As quais, para cúmulo, ainda são levadas a pensar que são merecedoras de um viver-castigo assim, porque segundo as catequeses que as elites lhes ensinam, os seus antepassados pecaram e Deus exige-lhes agora a elas não só o sofrimento que conhecem, como outro tipo de sofrimento ainda maior que elas próprias hão-de buscar e praticar, em santuários de renome e, de preferência, a céu aberto. Sem nunca chegarem a satisfazer por completo os caprichos desse Deus-monstro que têm como único e verdadeiro.

Desconhecem de todo as elites religiosas, cristãs, ateias e agnósticas que a Deus nunca ninguém O viu. E se nunca ninguém O viu, tão pouco sabemos alguma coisa a seu respeito. Muito menos, elas. Pelo que, quando as elites falam em silêncio de Deus já estão a disparatar. Aliás, o forte das elites dos povos é disparatar a torto e a direito. Não sabem o que dizem, nem o que fazem. São as grandes criminosas da Humanidade, mas têm-se na conta de que são as mais santas e exemplares. Ocupam tudo o que é lugar de proa, de chefia e fazem-se rodear de privilégios em crescendo, conforme o grau de poder que detêm. E do alto desses privilégios, olham para os porões da humanidade e pensam que não são como aquelas multidões condenadas a ter de lá viver, reproduzir-se e morrer. Sem que entre elas próprias, elites, e as vítimas haja qualquer ponte. Apenas um intransponível abismo cada vez maior e cada vez mais intransponível.

Só que este abismo é a grande causa da sua própria perdição. Devido a ele, as elites não chegam nunca a escutar o contínuo grito que sai das entranhas das multidões de vítimas e, até, das entranhas do planeta Terra. Escutassem-no e agissem em consequência, e nunca mais falariam em silêncio de Deus, pois o grito das vítimas confunde-se com o grito de Deus que nunca ninguém viu. Esta incapacidade-recusa, por parte das elites, em ouvir o grito das vítimas é a causa maior da sua perdição na história. Só o Deus que elas próprias criaram e impõem a ferro e fogo a todas as vítimas é que se cala perante o sofrimento. Porque é um Deus à imagem e semelhança delas e feito à medida das suas ambições de domínio e de riqueza.

Com Jesus Nazaré, aprendemos, contra todo o tipo de cristianismos e ateísmos, que é nas vítimas que podemos chegar a ver-encontrar Deus que nunca ninguém viu. Entre elas e com elas, percebemos que, afinal, não há silêncio de Deus, mas ininterrupto grito de Deus. E percebemos mais: que só este grito, escutado-praticado por nós, nos salva a todos, isto é, nos faz seres humanos a crescer continuamente de dentro para fora em liberdade, autonomia, criatividade, comensalidade. Num tipo de mundo outro, sem elites e sem vítimas. Sem sistemas de poder que as fabriquem. E sem ideologias-teologias que tudo legitimam e justificam.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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