PARA A HISTÓRIA DO TEATRO DE AMADORES – 12. DE TAVAREDE, A MECA DO TEATRO NA REGIÃO DO BAIXO MONDEGO, AO CITEC – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

Será que Warren Buffett leu Lénine? - por António Gomes Marques

Um primo meu de Tavarede, sabendo da minha paixão pelo teatro, foi a primeira pessoa a falar-me do Grupo de Teatro de Amadores da sua terra e do seu animador, o Mestre José Ribeiro, por quem esse meu familiar tinha uma grande admiração. Um dia, por fim, aproveitando uma visita aos meus familiares, que da sua excelente vivenda faziam 2.ª habitação, lá tive a oportunidade de conhecer o Mestre, com quem simpatizei. Entretanto, já tinha tido conhecimento do teatro que defendia e que estava nos antípodas das minhas preferências, influenciado que estava, desde os meus 15 anos, pelo cinema difundido pelo Cine-Clube de Torres Vedras, graças à acção do qual, tive a oportunidade de conhecer o Rogério Paulo, que me deu a ver um filme sobre o TNP – Théâtre National Populaire(1) e algumas cenas com interpretações de Maria Casarès(2) e de outras cenas com Gérard Philipe. Graças à palestra do Rogério que se seguiu, na qual ouvi pela primeira vez falar de Jean Vilar, naquela data Director do TNP e seu principal encenador, e também, quase logo de seguida, a oportunidade de assistir ao «Tinteiro», de Carlos Muñiz, espectáculo com que o Teatro Moderno de Lisboa se apresentou pela primeira vez ao público,  a paixão pelo cinema foi definitivamente trocada pela paixão pelo teatro. Fui atraído pela concepção do teatro como «serviço público», bebida nos poucos textos da autoria de Jean Vilar a que tive acesso, assim como pelo êxito retumbante que aquele grande homem de teatro havia conseguido, enchendo o Palais de Chaillot, com 2500 lugares, apresentando ali para um público popular os grandes textos de autores como Shakespeare, Corneille, Kleist, Musset, Brecht, …

Esta para mim nova concepção do teatro, levou-me a aderir ao teatro de amadores, antes do 25 de Abril, e a assumir, pouco tempo depois da Revolução dos Cravos, a Presidência da Direcção da APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, eleito, como representante de «Os Hipopótamos – Grupo de Teatro dos Serviços Sociais dos Trabalhadores da CGD», por proposta do Viriato Camilo, meu antecessor no cargo, onde procurei dar continuidade ao trabalho que vinha sendo desenvolvido pela APTA, o qual correspondia à concepção que eu havia abraçado e aprofundado graças aos contactos que através do Rogério Paulo tive e, assim, dando início às grandes amizades que vim a ter no meio teatral, a que se sucederam outras amizades, com os grandes nomes do teatro português, alguns já desaparecidos.

Na curta conversa com o Mestre José Ribeiro, tive a clara noção de que o caminho seguido pela APTA não era do seu agrado, como facilmente concluímos que o naturalismo que ele seguia com rigor e de que não recuava, tido por ele como a melhor concepção para o teatro, no presente e no futuro, não era por mim aceite. Não apenas para ser simpático, não deixei de lhe dizer que reconhecia o trabalho importante e talvez fundamental para o desenvolvimento do teatro na região do Baixo Mondego que a ele, José Ribeiro, era devido.

Nunca mais vi esta figura notável para o desenvolvimento da actividade cultural na sua região, que acabaria por nos deixar mais ou menos uma década depois da conversa que tivemos, em 13 de Setembro de 1986, para sermos precisos(3).

Contra a concepção defendida pelo Mestre José Ribeiro e a favor da que eu defendia já outros se tinham vindo a manifestar, como Deolindo Pessoa, a quem passo a palavra: «A partir do início da década de 70, alguns grupos de teatro de amadores do Baixo Mondego mostram o teatro não como a vivência de uma vida imaginária, mas como um fragmento da vida real onde se sucedem factos que dizem respeito ao homem, ou seja, pretendem mostrar uma realidade política em movimento. Procuram mostrar que o homem é capaz de transformar tudo e que tudo se pode transformar, apesar das aparências e de todas as dificuldades. Este conceito pretende renovar a estética, mas sem descurar, simultaneamente, o político e moral. Porém, esta opção não foi fácil e gerou muitos mal entendidos, alguns dos quais talvez ainda hoje perdurem.»(4)

citec-x

Capa do livro sobre os 40 anos do CITEC

A acção desenvolvida pelo Mestre José Ribeiro, fiel à concepção do realismo naturalista que vinha do final do século XIX, levou a que se considerassem, na Região, as produções do seu grupo como as que se deveriam seguir como exemplo para todos os outros grupos de teatro de amadores. Os seus adeptos, como cita o Deolindo Pessoa na obra sobre os 40 anos do CITEC, diziam «o de Tavarede ser a Meca do teatro na região do Baixo Mondego».

É neste ambiente que o CITEC vai iniciar a sua acção, com as imensas dificuldades com que os grupos de teatro de amadores se confrontam, com o custo acrescido em atrair um público educado numa estética que o novo grupo de teatro rejeitava. Foi também para lutar por esse novo conceito, que o Deolindo bem caracteriza no excerto que atrás apresentámos, que a APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores foi criada, um conceito que tem no «serviço público» de Jean Vilar um exemplo a seguir e, sobretudo, na tentativa de compreender os textos teóricos de Bertolt Brecht, a partir da edição portuguesa de «estudos sobre TEATRO – Para uma arte dramática não-aristotélica», estudos estes coligidos por Siegfried Unseld, publicada em Março de 1964(5), contribuindo às vezes mais para aumentar a confusão do que para uma boa compreensão das propostas teatrais do genial poeta e homem de teatro alemão, fundador do Berliner Ensemble(6), cuja obra é uma “criação verdadeiramente dialéctica que sabe que o esforço para pôr em questão o mundo «tal como está» o compromete numa perpétua contestação.”(7) Diz-nos ainda Bernard Dort: “… o que Brecht nos deixou, mais do que incontestáveis êxitos teatrais e literários, mais do que técnicas dramáticas ou sistemas retóricos novos, foi um ensinamento: o exemplo de uma criação aberta sobre o mundo e as suas transformações, obstinada em deles dar completa notícia e, por isso, levada a modificar-se constantemente, numa clara consciência do seu fim e dos seus meios.”(8).

O que o renovado movimento do teatro de amadores, mesmo com as suas contradições de ordem estética, procurou dar sempre foi um contributo para uma visão sobre o mundo e para as suas necessárias transformações, antes e depois do 25 de Abril, mas que, a partir dos anos 70 do século passado, este movimento do teatro de amadores, com a sua associação, a APTA, teve claramente como objectivo contribuir para uma reflexão sobre a vida dos portugueses e, assim, levar a que todos lutassem por uma sociedade verdadeiramente democrática, mostrando ser o teatro «…, a primeira das artes, a que dialoga com todas as outras; a que me mostra que a verdade é uma busca constante, de verdade em verdade, sem me impor uma; que me mostrou, e mostra, que a vida se constrói no respeito por valores e pela diferença; que me ajudou a compreender que a actividade humana tem de ser tomada como actividade objectiva, no sentido em que não é apenas capaz de intervir no real, como também de transformá-lo. É por esta transformação que também o Teatro, hoje, me ajuda a lutar.»(9)

Nesta luta esteve sempre o CITEC e nela continua, honra lhe seja feita, prestando-lhe aqui a minha homenagem, assim como ao Deolindo Pessoa, não só pelo caminho que tem trilhado, mas também pelo documento precioso que construiu com os seus primeiros 40 anos da sua história (v. nota 3), que a equipa que venha a constituir-se para escrever a indispensável «História do Teatro de Amadores» em Portugal não poderá ignorar, assim como também não poderá esquecer o contributo de muitos amadores de teatro com formação universitária, dinamizando os poucos grupos de teatro universitário e contribuindo para a existência de muitos outros grupos de teatro de amadores espalhados pelo país, com uma qualidade que não poderia deixar de atrair os públicos mais diversos.

 

Portela (de Sacavém), 2017-02-25

 

NOTAS

1) Fundado por Firmin Gémier, em 11 de Novembro de 1920.

2) Nascida em La Corogne (Espanha), filha de Santiago Casarès Quiroga, primeiro-ministro da Segunda República Espanhola, de que se demitiu em 18 de Julho de 1936, no seguimento do pronunciamento fascista de Franco, o que o obrigou a exilar-se.

3) Deolindo Pessoa, «CITEC – Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho – 40 Anos», Edição do CITEC, Montemor-o-Velho, Abril de 2012.

4) Idem, págs. 20/21.

5) Portugália Editora, numa tradução directa de Fiama Hasse Pais Brandão, com a colaboração de Lieselotte Rodrigues.

6) Mais tarde, no final da década de 70 do século passado, lembro a oportunidade que me foi dada de ver algumas das suas encenações filmadas e também o grande privilégio que considerei na altura e que foi o de assistir a algumas das suas peças maiores no Berliner Ensemble.

7) In Bernard Dort, «Leitura de Brecht», tradução de Mário Sério, Forja Editora, SARL, Lx., Março de 1980, pág. 9.

8) c., pág. 10.

9) António Gomes Marques, «E assim nasceu uma paixão pelo teatro», in Tito Lívio, com a Colaboração de Carmen Dolores, «Teatro Moderno de Lisboa (1961-1965) – Um Marco na História do Teatro Português», Editorial Caminho, Lx, 2009, pág.210.

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: