O MAPA (A saga do anadel/77) . por Carlos Loures

Tinham recuperado o fôlego. Envolvendo-se nas capas, recomeçaram a andar com passo estugado, tentando não correr para não chamar atenções. Como se fossem noctívagos que apenas buscassem uma locanda onde matar a sede. A grande prioridade era a de se colocarem a salvo. Tinham de regressar a Lisboa, não podendo ir meter-se na boca do lobo voltando a bordo da carraca flamenga, pois aquele navio constituía um território hostil. Tranquilizando os companheiros sobre esse pormenor, João disse ter já tudo tratado. Como Lourenço recuperara a cópia do mapa, poderiam seguir para Lisboa numa fusta francesa onde Dulmo arranjara colocação, pois dominava as artes de navegar. Lourenço e Diogo viajariam como passageiros. Tendo descansado enquanto Dulmo falara, retemperadas forças e recuperado o fôlego, caminhavam de novo ao mesmo tempo que falavam, pois os gritos dos perseguidores ouviam-se cada vez mais perto, parecendo provir de diversas direcções. Como se a matilha se tivesse dividido. Precisavam de atingir o molhe sem ser detectados pelos guardas do doge, pelos castelhanos ou pelos sicários de Torriani, que não tinham desistido de os encontrar.

Lourenço, Diogo e João descansaram de novo, depois de se terem esgueirado pelas ruas, pontes e canais de Veneza, escapando como enguias ao mercador Torriani, aos seus sicários e aliados. Hoste que, na segunda arremetida, parecia ter-se multiplicado, surgindo em todas as esquinas, com gritos, archotes, as chamas a reflectirem-se sobre o brilho metálico de morriões e couraças, brandindo alabardas, arcabuzes, espadas e punhais. Novamente esgotados, ofegantes, quase não conseguiam já correr. Depois de terem ficado uns minutos recuperando o fôlego, encostados a uma parede, puseram-se outra vez em movimento, andando agora em passo normal, porque correr despertava suspeitas nos raros transeuntes com que se cruzavam. Os perseguidores, que era óbvio terem adoptado a táctica de se dividir em grupos, tentando cercá-los, ouviam-se ao longe. Caminhavam com a aparente indolência de quem desejasse gozar o ar fresco da noite. Foram, assim, desviando-se do ruído provocado pelo tropel dos perseguidores, metendo por ruelas secundárias, por travessas e pontes menos concorridas. Vieram sem incidentes, do Campo de Santa Maria Formosa até à já nossa conhecida Riva degli Schiavoni. Os inimigos iriam, mais cedo ou mais tarde, chegar ali, pois os estrangeiros só podiam sair de Veneza por aquele porto. Os castelhanos talvez tivessem desculpa, mas para Torriani e sicários, o não lhes ter ocorrido tão grande evidência, era dado pouco abonatório sobre a sua inteligência.

         Lourenço quisera voltar à estalagem da Calle Merceria, onde embora nada devesse, pois tinha pago adiantadamente o alojamento e a comida, como os estalajadeiros exigiam aos forasteiros, pretendia recuperar as suas roupas e botas, uma vez que estava ainda ataviado com os despojos do disfarce de turco. A única peça decente do seu vestuário era a capa que cobria a ridícula indumentária. Porém, em baixo, sob as abas da capa, assomavam as babuchas de veludo vermelho. Usando argumentos de um raciocínio incontestável, João dissuadiu-o de tal ideia. Era quase certo, disse, a estalagem estar cercada pelos adversários que deviam saber ser ali o novo pouso do português e, por pouco inteligentes que fossem, lograda a perseguição, teriam ido logo lá direitos. Quando chegassem a bordo da fusta que os ia acolher, compraria, outro vestuário e umas botas. Lourenço foi forçado a concordar que tal regresso constituiria um risco inútil.

         Perto da zona do molhe de atracação, encontraram uma locanda e, sentados a uma mesa, em frente de um cesto de pão de trigo, de um queijo suíço, temperado com azeite e ervas aromáticas, de um canjirão de vinho toscano para João e para Diogo e de um copo de hiodromel para Lourenço, ouvir o falso beleguim contar a sua história. A qual era simples. Bastante mais simples do que a de João. Era um homem de armas ligado, desde o início da sua carreira militar, ao conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, que fora alcaide-mor de Coimbra e era agora membro do Conselho Real. D. Pedro, fidalgo que mostrara o seu grande valor como guerreiro, fora criado conde ainda durante o reinado de el-rei D. Afonso V e era amigo e confidente de el-rei D. João II. Na farsa que, por iniciativa do soberano, tinha sido montada para apanhar Lourenço na rede, obrigando-o a colaborar no plano para recuperar a cópia do mapa, o conde de Cantanhede representara o papel de fidalgo ébrio. Diogo, que não estivera presente na locanda, mas se ocupara de seguir o jovem durante diversos dias e pudera observar que, ao sair da guarnição da alcaidaria-mor, no castelejo da Alcáçova Real, o besteiro parava na taverna, todos os dias anteriores à rixa, o Falcão Azul. Acoutado num canto escuro da sala, anotara as rotinas de Lourenço. Não lhe passara despercebido o encantamento deste por Débora. Registadas em relatórios essas rotinas diárias do jovem, o resto fora fácil de pôr em prática. Era só o conde e os seus colaboradores irem para a taverna fingindo-se aos poucos cada vez mais embriagados e, quando o vissem entrar, armar zaragata. Bastava serem descorteses ou mesmo grosseiros para com Débora. Perante essa grosseria, tinham a convicção de que Lourenço não deixaria de reagir:

         – E se eu não tivesse ido naquele dia a taverna? – Perguntou.

         – Repetir-se-ia a cena nos dias seguintes, até apareceres. Mas a farsa funcionou logo à primeira vez – O resto já conhecia – a luta simulada, o hospital, a prisão, as ameaças, a conversa com el-rei… – Odiavas-me! – Diogo, riu-se – Representei bem o meu papel de beleguim sem coração.

         – Bem demais. Odiava-te e tiveste sorte de não ter podido corresponder. Mas, porquê eu? Não teria servido outro? Tu, por exemplo.

         – Sabíamos que teu pai fora morto pelos ladrões do mapa. Foi facto comentado na Corte. Vaz da Cunha nunca deixou de clamar por justiça e de pedir punição para os criminosos, pois sentia-se responsável por ter sido ele quem encarregara teu pai de desenhar o mapa. Juntando esse facto às tuas qualidades militares e ao espírito de serviço que te era conhecido, el-rei e o conde concluíram seres a pessoa indicada para a missão. Tinhas motivos pessoais, condições físicas e rectidão de carácter para a desempenhar.

Diogo fez então uma breve resenha sobre a sua pessoa. Chamava-se Diogo Mendo e, oriundo da pequena nobreza do Norte do país, antes de entrar ao serviço do conde de Cantanhede, era um obscuro capitão de um terço de arcabuzeiros, com bons serviços prestados em África, inclusivamente na tomada de Arzila, vinte anos antes. Homem de confiança do fidalgo que tinha a seu cargo o serviço de enculca do Reino, fora introduzido a bordo da Leeuwardeen, vestindo a pele de Muhammad, um mouro pouco falador, pois não conhecia mais do que uma dúzia de palavras em árabe, aprendidas durante as campanhas. Metade desses vocábulos eram pragas ofensivas para os cristãos e não tinham grande préstimo. Instruído sobre a matéria, limitou-se a decorar os gestos rituais das orações e abluções e sabendo em que direcção se situava Meca, o resto tornava-se fácil. Bastava não falar, não suscitar problemas, não responder a provocações. Sobretudo trabalhando sempre sem nunca se queixar. Dentro daquele bem elaborado plano de acção, Diogo constituía um bom elemento de segurança, que, em caso de necessidade, actuaria como protector de Lourenço ou mesmo como seu substituto, tentando levar a cabo a missão se alguma coisa corresse mal e o rapaz fosse eliminado, morto ou ferido.

Tinham recuperado o fôlego. Envolvendo-se nas capas, recomeçaram a andar com passo estugado, tentando não correr para não chamar atenções. Como se fossem noctívagos que apenas buscassem uma locanda onde matar a sede. A grande prioridade era a de se colocarem a salvo. Tinham de regressar a Lisboa, não podendo ir meter-se na boca do lobo voltando a bordo da carraca flamenga, pois aquele navio constituía um território hostil. Tranquilizando os companheiros sobre esse pormenor, João disse ter já tudo tratado. Como Lourenço recuperara a cópia do mapa, poderiam seguir para Lisboa numa fusta francesa onde Dulmo arranjara colocação, pois dominava as artes de navegar. Lourenço e Diogo viajariam como passageiros. Tendo descansado enquanto Dulmo falara, retemperadas forças e recuperado o fôlego, caminhavam de novo ao mesmo tempo que falavam, pois os gritos dos perseguidores ouviam-se cada vez mais perto, parecendo provir de diversas direcções. Como se a matilha se tivesse dividido. Precisavam de atingir o molhe sem ser detectados pelos guardas do doge, pelos castelhanos ou pelos sicários de Torriani, que não tinham desistido de os encontrar.

Lourenço, Diogo e João descansaram de novo, depois de se terem esgueirado pelas ruas, pontes e canais de Veneza, escapando como enguias ao mercador Torriani, aos seus sicários e aliados. Hoste que, na segunda arremetida, parecia ter-se multiplicado, surgindo em todas as esquinas, com gritos, archotes, as chamas a reflectirem-se sobre o brilho metálico de morriões e couraças, brandindo alabardas, arcabuzes, espadas e punhais. Novamente esgotados, ofegantes, quase não conseguiam já correr. Depois de terem ficado uns minutos recuperando o fôlego, encostados a uma parede, puseram-se outra vez em movimento, andando agora em passo normal, porque correr despertava suspeitas nos raros transeuntes com que se cruzavam. Os perseguidores, que era óbvio terem adoptado a táctica de se dividir em grupos, tentando cercá-los, ouviam-se ao longe. Caminhavam com a aparente indolência de quem desejasse gozar o ar fresco da noite. Foram, assim, desviando-se do ruído provocado pelo tropel dos perseguidores, metendo por ruelas secundárias, por travessas e pontes menos concorridas. Vieram sem incidentes, do Campo de Santa Maria Formosa até à já nossa conhecida Riva degli Schiavoni. Os inimigos iriam, mais cedo ou mais tarde, chegar ali, pois os estrangeiros só podiam sair de Veneza por aquele porto. Os castelhanos talvez tivessem desculpa, mas para Torriani e sicários, o não lhes ter ocorrido tão grande evidência, era dado pouco abonatório sobre a sua inteligência.

         Lourenço quisera voltar à estalagem da Calle Merceria, onde embora nada devesse, pois tinha pago adiantadamente o alojamento e a comida, como os estalajadeiros exigiam aos forasteiros, pretendia recuperar as suas roupas e botas, uma vez que estava ainda ataviado com os despojos do disfarce de turco. A única peça decente do seu vestuário era a capa que cobria a ridícula indumentária. Porém, em baixo, sob as abas da capa, assomavam as babuchas de veludo vermelho. Usando argumentos de um raciocínio incontestável, João dissuadiu-o de tal ideia. Era quase certo, disse, a estalagem estar cercada pelos adversários que deviam saber ser ali o novo pouso do português e, por pouco inteligentes que fossem, lograda a perseguição, teriam ido logo lá direitos. Quando chegassem a bordo da fusta que os ia acolher, compraria, outro vestuário e umas botas. Lourenço foi forçado a concordar que tal regresso constituiria um risco inútil.

         Perto da zona do molhe de atracação, encontraram uma locanda e, sentados a uma mesa, em frente de um cesto de pão de trigo, de um queijo suíço, temperado com azeite e ervas aromáticas, de um canjirão de vinho toscano para João e para Diogo e de um copo de hiodromel para Lourenço, ouvir o falso beleguim contar a sua história. A qual era simples. Bastante mais simples do que a de João. Era um homem de armas ligado, desde o início da sua carreira militar, ao conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, que fora alcaide-mor de Coimbra e era agora membro do Conselho Real. D. Pedro, fidalgo que mostrara o seu grande valor como guerreiro, fora criado conde ainda durante o reinado de el-rei D. Afonso V e era amigo e confidente de el-rei D. João II. Na farsa que, por iniciativa do soberano, tinha sido montada para apanhar Lourenço na rede, obrigando-o a colaborar no plano para recuperar a cópia do mapa, o conde de Cantanhede representara o papel de fidalgo ébrio. Diogo, que não estivera presente na locanda, mas se ocupara de seguir o jovem durante diversos dias e pudera observar que, ao sair da guarnição da alcaidaria-mor, no castelejo da Alcáçova Real, o besteiro parava na taverna, todos os dias anteriores à rixa, o Falcão Azul. Acoutado num canto escuro da sala, anotara as rotinas de Lourenço. Não lhe passara despercebido o encantamento deste por Débora. Registadas em relatórios essas rotinas diárias do jovem, o resto fora fácil de pôr em prática. Era só o conde e os seus colaboradores irem para a taverna fingindo-se aos poucos cada vez mais embriagados e, quando o vissem entrar, armar zaragata. Bastava serem descorteses ou mesmo grosseiros para com Débora. Perante essa grosseria, tinham a convicção de que Lourenço não deixaria de reagir:

         – E se eu não tivesse ido naquele dia a taverna? – Perguntou.

         – Repetir-se-ia a cena nos dias seguintes, até apareceres. Mas a farsa funcionou logo à primeira vez – O resto já conhecia – a luta simulada, o hospital, a prisão, as ameaças, a conversa com el-rei… – Odiavas-me! – Diogo, riu-se – Representei bem o meu papel de beleguim sem coração.

         – Bem demais. Odiava-te e tiveste sorte de não ter podido corresponder. Mas, porquê eu? Não teria servido outro? Tu, por exemplo.

         – Sabíamos que teu pai fora morto pelos ladrões do mapa. Foi facto comentado na Corte. Vaz da Cunha nunca deixou de clamar por justiça e de pedir punição para os criminosos, pois sentia-se responsável por ter sido ele quem encarregara teu pai de desenhar o mapa. Juntando esse facto às tuas qualidades militares e ao espírito de serviço que te era conhecido, el-rei e o conde concluíram seres a pessoa indicada para a missão. Tinhas motivos pessoais, condições físicas e rectidão de carácter para a desempenhar.

Diogo fez então uma breve resenha sobre a sua pessoa. Chamava-se Diogo Mendo e, oriundo da pequena nobreza do Norte do país, antes de entrar ao serviço do conde de Cantanhede, era um obscuro capitão de um terço de arcabuzeiros, com bons serviços prestados em África, inclusivamente na tomada de Arzila, vinte anos antes. Homem de confiança do fidalgo que tinha a seu cargo o serviço de enculca do Reino, fora introduzido a bordo da Leeuwardeen, vestindo a pele de Muhammad, um mouro pouco falador, pois não conhecia mais do que uma dúzia de palavras em árabe, aprendidas durante as campanhas. Metade desses vocábulos eram pragas ofensivas para os cristãos e não tinham grande préstimo. Instruído sobre a matéria, limitou-se a decorar os gestos rituais das orações e abluções e sabendo em que direcção se situava Meca, o resto tornava-se fácil. Bastava não falar, não suscitar problemas, não responder a provocações. Sobretudo trabalhando sempre sem nunca se queixar. Dentro daquele bem elaborado plano de acção, Diogo constituía um bom elemento de segurança, que, em caso de necessidade, actuaria como protector de Lourenço ou mesmo como seu substituto, tentando levar a cabo a missão se alguma coisa corresse mal e o rapaz fosse eliminado, morto ou ferido.Tinham recuperado o fôlego. Envolvendo-se nas capas, recomeçaram a andar com passo estugado, tentando não correr para não chamar atenções. Como se fossem noctívagos que apenas buscassem uma locanda onde matar a sede. A grande prioridade era a de se colocarem a salvo. Tinham de regressar a Lisboa, não podendo ir meter-se na boca do lobo voltando a bordo da carraca flamenga, pois aquele navio constituía um território hostil. Tranquilizando os companheiros sobre esse pormenor, João disse ter já tudo tratado. Como Lourenço recuperara a cópia do mapa, poderiam seguir para Lisboa numa fusta francesa onde Dulmo arranjara colocação, pois dominava as artes de navegar. Lourenço e Diogo viajariam como passageiros. Tendo descansado enquanto Dulmo falara, retemperadas forças e recuperado o fôlego, caminhavam de novo ao mesmo tempo que falavam, pois os gritos dos perseguidores ouviam-se cada vez mais perto, parecendo provir de diversas direcções. Como se a matilha se tivesse dividido. Precisavam de atingir o molhe sem ser detectados pelos guardas do doge, pelos castelhanos ou pelos sicários de Torriani, que não tinham desistido de os encontrar.
Lourenço, Diogo e João descansaram de novo, depois de se terem esgueirado pelas ruas, pontes e canais de Veneza, escapando como enguias ao mercador Torriani, aos seus sicários e aliados. Hoste que, na segunda arremetida, parecia ter-se multiplicado, surgindo em todas as esquinas, com gritos, archotes, as chamas a reflectirem-se sobre o brilho metálico de morriões e couraças, brandindo alabardas, arcabuzes, espadas e punhais. Novamente esgotados, ofegantes, quase não conseguiam já correr. Depois de terem ficado uns minutos recuperando o fôlego, encostados a uma parede, puseram-se outra vez em movimento, andando agora em passo normal, porque correr despertava suspeitas nos raros transeuntes com que se cruzavam. Os perseguidores, que era óbvio terem adoptado a táctica de se dividir em grupos, tentando cercá-los, ouviam-se ao longe. Caminhavam com a aparente indolência de quem desejasse gozar o ar fresco da noite. Foram, assim, desviando-se do ruído provocado pelo tropel dos perseguidores, metendo por ruelas secundárias, por travessas e pontes menos concorridas. Vieram sem incidentes, do Campo de Santa Maria Formosa até à já nossa conhecida Riva degli Schiavoni. Os inimigos iriam, mais cedo ou mais tarde, chegar ali, pois os estrangeiros só podiam sair de Veneza por aquele porto. Os castelhanos talvez tivessem desculpa, mas para Torriani e sicários, o não lhes ter ocorrido tão grande evidência, era dado pouco abonatório sobre a sua inteligência.
Lourenço quisera voltar à estalagem da Calle Merceria, onde embora nada devesse, pois tinha pago adiantadamente o alojamento e a comida, como os estalajadeiros exigiam aos forasteiros, pretendia recuperar as suas roupas e botas, uma vez que estava ainda ataviado com os despojos do disfarce de turco. A única peça decente do seu vestuário era a capa que cobria a ridícula indumentária. Porém, em baixo, sob as abas da capa, assomavam as babuchas de veludo vermelho. Usando argumentos de um raciocínio incontestável, João dissuadiu-o de tal ideia. Era quase certo, disse, a estalagem estar cercada pelos adversários que deviam saber ser ali o novo pouso do português e, por pouco inteligentes que fossem, lograda a perseguição, teriam ido logo lá direitos. Quando chegassem a bordo da fusta que os ia acolher, compraria, outro vestuário e umas botas. Lourenço foi forçado a concordar que tal regresso constituiria um risco inútil.
Perto da zona do molhe de atracação, encontraram uma locanda e, sentados a uma mesa, em frente de um cesto de pão de trigo, de um queijo suíço, temperado com azeite e ervas aromáticas, de um canjirão de vinho toscano para João e para Diogo e de um copo de hiodromel para Lourenço, ouvir o falso beleguim contar a sua história. A qual era simples. Bastante mais simples do que a de João. Era um homem de armas ligado, desde o início da sua carreira militar, ao conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, que fora alcaide-mor de Coimbra e era agora membro do Conselho Real. D. Pedro, fidalgo que mostrara o seu grande valor como guerreiro, fora criado conde ainda durante o reinado de el-rei D. Afonso V e era amigo e confidente de el-rei D. João II. Na farsa que, por iniciativa do soberano, tinha sido montada para apanhar Lourenço na rede, obrigando-o a colaborar no plano para recuperar a cópia do mapa, o conde de Cantanhede representara o papel de fidalgo ébrio. Diogo, que não estivera presente na locanda, mas se ocupara de seguir o jovem durante diversos dias e pudera observar que, ao sair da guarnição da alcaidaria-mor, no castelejo da Alcáçova Real, o besteiro parava na taverna, todos os dias anteriores à rixa, o Falcão Azul. Acoutado num canto escuro da sala, anotara as rotinas de Lourenço. Não lhe passara despercebido o encantamento deste por Débora. Registadas em relatórios essas rotinas diárias do jovem, o resto fora fácil de pôr em prática. Era só o conde e os seus colaboradores irem para a taverna fingindo-se aos poucos cada vez mais embriagados e, quando o vissem entrar, armar zaragata. Bastava serem descorteses ou mesmo grosseiros para com Débora. Perante essa grosseria, tinham a convicção de que Lourenço não deixaria de reagir:
– E se eu não tivesse ido naquele dia a taverna? – Perguntou.
– Repetir-se-ia a cena nos dias seguintes, até apareceres. Mas a farsa funcionou logo à primeira vez – O resto já conhecia – a luta simulada, o hospital, a prisão, as ameaças, a conversa com el-rei… – Odiavas-me! – Diogo, riu-se – Representei bem o meu papel de beleguim sem coração.
– Bem demais. Odiava-te e tiveste sorte de não ter podido corresponder. Mas, porquê eu? Não teria servido outro? Tu, por exemplo.
– Sabíamos que teu pai fora morto pelos ladrões do mapa. Foi facto comentado na Corte. Vaz da Cunha nunca deixou de clamar por justiça e de pedir punição para os criminosos, pois sentia-se responsável por ter sido ele quem encarregara teu pai de desenhar o mapa. Juntando esse facto às tuas qualidades militares e ao espírito de serviço que te era conhecido, el-rei e o conde concluíram seres a pessoa indicada para a missão. Tinhas motivos pessoais, condições físicas e rectidão de carácter para a desempenhar.
Diogo fez então uma breve resenha sobre a sua pessoa. Chamava-se Diogo Mendo e, oriundo da pequena nobreza do Norte do país, antes de entrar ao serviço do conde de Cantanhede, era um obscuro capitão de um terço de arcabuzeiros, com bons serviços prestados em África, inclusivamente na tomada de Arzila, vinte anos antes. Homem de confiança do fidalgo que tinha a seu cargo o serviço de enculca do Reino, fora introduzido a bordo da Leeuwardeen, vestindo a pele de Muhammad, um mouro pouco falador, pois não conhecia mais do que uma dúzia de palavras em árabe, aprendidas durante as campanhas. Metade desses vocábulos eram pragas ofensivas para os cristãos e não tinham grande préstimo. Instruído sobre a matéria, limitou-se a decorar os gestos rituais das orações e abluções e sabendo em que direcção se situava Meca, o resto tornava-se fácil. Bastava não falar, não suscitar problemas, não responder a provocações. Sobretudo trabalhando sempre sem nunca se queixar. Dentro daquele bem elaborado plano de acção, Diogo constituía um bom elemento de segurança, que, em caso de necessidade, actuaria como protector de Lourenço ou mesmo como seu substituto, tentando levar a cabo a missão se alguma coisa corresse mal e o rapaz fosse eliminado, morto ou ferido.

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