EDITORIAL – A Viradeira ou o Reino da Estupidez

Imagem2Há 240 anos, no dia 4 de Março de 1777, uma semana antes de Maria I nomear os novos secretários de Estado, Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e Marquês de Pombal, era destituído de todos os seus cargos – a chamada «Viradeira» iria diminuir progressivamente o poder real e restituir à nobreza e à Igreja o papel que estas instituições acreditavam ter por mandato divino. Presos políticos foram soltos ou reabilitada a sua memória. Na Universidade de Coimbra, onde se formavam os quadros dirigentes do poder político, muitos lentes e alunos foram expulsos por efectiva adesão ao enciclopedismo, ao naturalismo, à concepção científica da realidade, práticas que Pombal incentivara. Um desses intelectuais expulsos, Francisco de Melo Franco, escreveu O Reino da Estupidez em represália contra o «saneamento» promovido pelo novo governo, folheto em versos que circulava clandestinamente.

Com frequência se compara Pombal a Salazar, Quanto a nós é comparação sem sentido. A similitude fica-se pela forma repressiva e por vezes brutal com que ambos resolviam a questão das dissonâncias – os tempos eram outros. O poder real estava acima de tudo. E o poder real era a máquina administrativa, o corpus das reformas legislativas, a modernização do Ensino que retirou da alçada da Companhia de Jesus, em suma, o poder real era o poder de que ele dotara o Estado em prejuízo de privilégios que a nobreza julgara inalienáveis e que Pombal lhe retirou de um dia para o outro. Salazar reorganizou o Estado no sentido de garantir a ordem natural das coisas – dos pobres, o reino dos céus; dos ricos, a CUF, a CP, a CCN, a SACOR… Entre os dois ditadores não há outra analogia que não seja a que passa pelo autoritarismo com que impunham as suas decisões.

Queira-se ou não, um governante ou serve os interesses dos pobres (e é derrubado após poucos anos, como sucedeu com Allende, com Hugo Chávez e tantos outros) ou defende o sólido poder dos ricos e dos que esperam vir a enriquecer, fazendo o que for preciso para tal –tentar  servir a dois amos, como Arlequim, é comédia que acaba sempre mal.

O ideal seria acabar com os amos…

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